Carnaval de Pernambuco: ritmos, cores e danças
Pernambuco, Carnaval e Povo formam um trinômio inseparável. Na dança e no canto, na rua e na praça, a festa renova a esperança e identidade.
Clique aqui e escute a matéria
Quando os clarins anunciam o reinado de Momo, Pernambuco se transforma. O povo toma as ruas ao som do frevo e do saracoteio do passo, numa explosão coletiva que só encontra pausa na "quarta-feira ingrata" que, como cantou Luiz Bandeira, chega "tão depressa só pra contrariar".
Mais do que festa, o Carnaval pernambucano é identidade cultural. É dança e é música. Como eternizou Capiba, "Pernambuco tem uma dança que nenhuma terra tem". A música é o frevo; a dança é o passo, ambos genuinamente pernambucanos. Diante do ritmo acelerado das orquestras, é quase impossível ficar parado. Mesmo quem não se arrisca nas acrobacias acaba balançando o corpo, contagiado pelo frenesi dos metais.
Frevo: patrimônio da humanidade
Reconhecido desde 2012 como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Unesco, o frevo representa um dos capítulos mais vibrantes da história cultural nordestina e brasileira. O termo "frevo" deriva de "ferver" - corruptela consagrada entre estudiosos - numa referência ao fervilhar das multidões e à energia contagiante da música.
O historiador Câmara Cascudo definiu o frevo como "dança de rua e de salão, a grande alucinação do Carnaval pernambucano". Nos passos - como a tesoura, o saci-pererê, a dobradiça e o ferrolho -, os passistas desafiam o equilíbrio, com sombrinhas coloridas, transformando movimento em espetáculo.
Nada é mais eletrizante do que o "rasgar" de um frevo de rua. Pernambuco, ao som de seus metais, freva para o mundo.
Um Carnaval multicultural
Embora o frevo seja símbolo maior, o Carnaval de Pernambuco vai muito além do tríduo momesco. A festa começa semanas antes e se prolonga em desfiles de agremiações, blocos líricos, ursos, caboclinhos, bois, burras, cavalos-marinhos e grupos indígenas.
O Estado é também terra do maracatu - de baque virado (ou nação), marcado pelo sincretismo religioso afro-brasileiro, e do maracatu rural (ou de baque solto), típico da Zona da Mata canavieira. Nazaré da Mata é referência dessa tradição, assim como Bezerros é conhecida pelos seus papangus.
Recife e Olinda concentram os principais polos da folia, mas o interior preserva manifestações igualmente ricas. Em todos os cantos, tradição e contemporaneidade convivem lado a lado, em uma celebração democrática e participativa.
O Carnaval de Pernambuco é amplamente interiorizado, assim como o turismo, que se consolida como uma atividade forte em todas as regiões do Estado. Trata-se de um movimento que vai do global ao local, valorizando as identidades culturais e fortalecendo as tradições de cada comunidade.
Nesse contexto, é essencial que cada município fortaleça o seu próprio tecido cultural — especialmente por meio de suas bandas. Como afirmava Dom Marcos Barbosa, "a cidade que não tem uma banda está incompleta: falta-lhe uma banda". A presença de uma banda não é apenas expressão artística, mas símbolo de pertencimento, memória e coesão social.
Maracatu: ancestralidade e magia
O maracatu nação carrega raízes nas tradições africanas trazidas pelos povos escravizados. O cortejo reúne personagens, como Rei, Rainha, Porta-Estandarte e Baianas. A Dama do Paço conduz a Calunga - boneca sagrada que simboliza ancestralidade e espiritualidade.
O som das alfaias, caixas, gonguês e agbês produz um ritmo cadenciado e potente, evocando a força dos terreiros e das comunidades negras.
Já o maracatu rural apresenta os caboclos de lança, com fantasias exuberantes, ricamente bordadas, adornadas com espelhos e fitas coloridas. Sua musicalidade mescla influências indígenas, africanas e europeias.
Cores e fantasia nas ruas
O Carnaval pernambucano é também espetáculo visual. Em Olinda, os bonecos gigantes - com até quatro metros de altura - homenageiam personalidades históricas, políticas e culturais, desfilando ao som do frevo e encantando multidões.
As fantasias misturam tradição e criatividade: super-heróis, personagens folclóricas, figuras religiosas e criações autorais que combinam humor e crítica social. Vermelho, amarelo, azul, verde e dourado dominam a paisagem, reforçando o caráter vibrante da festa.
O Galo da Madrugada, no Recife, consagrado pelo Guinness Book como o maior bloco carnavalesco do mundo, simboliza essa grandiosidade.
Carnaval, folia e economia
O Carnaval de Pernambuco, especialmente nas cidades do Recife e Olinda, é conhecido pela grande movimentação turística e econômica. Em 2025, a festa atraiu mais de 2,3 milhões de turistas e gerou uma movimentação econômica de cerca de R$ 3,3 bilhões, um aumento de 10% em relação ao ano anterior.
Segundo o Ministério do Turismo (Mtur), 80,9% dos turistas vieram ao Estado motivados pelo Carnaval, um crescimento de 6,67%, em comparação a 2024. A taxa de ocupação da rede hoteleira foi de 96,16%, enquanto o aeroporto do Recife registrou mais de 300 mil passageiros. Ainda de acordo com os números apresentados, 93,78% dos turistas pretendem voltar à folia de Pernambuco.
Identidade e esperança
O Carnaval de Pernambuco é mais do que espetáculo: é expressão de resistência cultural. Entre confetes e serpentinas, pandeiros e ganzás, frevo e maracatu, o povo celebra sua história, sua diversidade e seu ideário de liberdade.
Pernambuco, Carnaval e Povo formam um trinômio inseparável. Na dança e no canto, na rua e na praça, a festa renova a esperança e reafirma a identidade de uma gente que transforma cultura em alegria coletiva - e que, ano após ano, continua a frevar para o mundo.
Roberto Pereira, cadeira 35 - Academia Pernambucana de Letras