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O código de conduta

É embaraçoso testemunhar a necessidade de uma cartilha de bons modos onde deverá constar "Sr. Ministro, agir assim não pode.....".............

Por SÉRGIO GONDIM Publicado em 13/02/2026 às 0:00 | Atualizado em 13/02/2026 às 9:10

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É da natureza humana agradecer e retribuir favores recebidos. Hospitalidade, uma refeição, uma carona, um sorriso, uma gentileza qualquer. Baseado nesse princípio funcionam os relacionamentos sociais, os lobbies, as técnicas para influenciar decisões, as negociações, os mais diversos privilégios e até certas licitações.

De acordo com os códigos, não é apropriado, por exemplo, que o médico receba favores ou gentilezas desproporcionais. É aceitável que receba informações sobre um novo medicamento, desde que em ambiente próprio para comunicação científica, com simplicidade, sendo razoável que sejam acompanhadas de um suco ou salgadinho. É normal que a indústria informe o lançamento de seus produtos e que o médico tome conhecimento deles no melhor interesse dos pacientes. Por outro lado, se a apresentação de uma droga destinada ao tratamento de enxaqueca vier acompanhada de passagens e hospedagem para um final de semana prolongado na Patagônia, com aulas de Ski, havendo um intervalo de 30 minutos para o informe científico e o restante dedicado às montanhas e vinhos, seria considerado inapropriado. Só se o médico transcendesse da sua natureza humana para não tentar retribuir tamanha gentileza e generosidade. A maneira direta de fazê-lo seria prescrever mais vezes o tal medicamento, quem sabe até dissociado da real necessidade do paciente. Por isso o código considera tal relacionamento inadequado.

Regras e códigos existem de sobra, o que não quer dizer que sejam cumpridos.

Na política, apesar da lei eleitoral, ainda funcionam o saco de cimento, a buchada com cerveja, a dentadura e dinheiro vivo que elegem tantos dos que acabam contribuindo para o atraso do país. Eleitores carentes trocam sacos de cimento pelo voto certo na urna. Com os não carentes a troca é maior, as vezes também envolve cimento, mas através de superfaturamento de estradas e outras obras, além de cargos, é claro. Toma lá dá cá, enquanto a educação, o saneamento, a saúde, ficam para depois.

É triste saber que até no supremo de notório saber e conduta ilibada, se fez necessário escrever uma cartilha com regras para o comportamento dos ministros. Isso pode, aquilo não. Inimaginável chegar ao ponto de precisar escrever um código de conduta para quem deveria estar acima de todas as dúvidas, ilibados que, por natureza, é esperado que sejam. É deprimente se dar conta de que, depois de atuar na defesa da democracia e da constituição como é sua destinação, ao invés de reconhecimento e prestígio como exemplo de dever cumprido, recebam um puxão de orelhas da sociedade por motivos, envolvendo jatinhos, sigilos, filhos, esposas, escritórios, conflitos de interesses, vantagens, partidarismo político e até religioso. A sociedade ficou confusa, sem saber se são constitucionais ou chaveiros do presídio, se uma paixão clubística é suficiente para justificar uma carona em tais companhias. De onde veio essa gente que depois de escolhida para o mais alto cargo da justiça, precisa voltar para repassar o dever de casa de como seguir regras básicas de comportamento. É embaraçoso testemunhar a necessidade de uma cartilha de bons modos onde deverá constar: "Sr. Ministro, agir assim não pode em lugar nenhum, muito menos no supremo".

Sérgio Gondim, médico

 

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