Entre a queda e a consciência
Há episódios em que o corpo, de súbito, decide fazer uma pausa. Não é sono, não é distração, tampouco fraqueza moral...............
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....É um desligamento breve, inesperado, quase sempre assustador para quem presencia — e, paradoxalmente, silencioso para quem o vivencia. A síncope é exatamente isso: uma perda transitória da consciência, acompanhada de queda do tônus postural, com recuperação espontânea e completa. Um apagão momentâneo, provocado pela redução súbita do fluxo sanguíneo cerebral. Apesar de frequente, a síncope ainda é cercada de mitos, interpretações equivocadas e, não raro, de condutas inadequadas. Muitos a confundem com convulsão, outros a tratam como “nervosismo”, e há quem banalize o evento, ignorando que, em determinados contextos, pode ser o primeiro sinal de uma condição potencialmente grave. Do ponto de vista médico, a síncope não é uma doença, mas um sintoma, uma manifestação final comum a diferentes mecanismos fisiopatológicos. Entender suas causas é essencial para definir a conduta correta — tanto imediata quanto preventiva.
A forma mais comum é a síncope neurocardiogênica, também chamada de vasovagal. Trata-se de um reflexo exagerado do sistema nervoso autônomo, que leva à dilatação dos vasos sanguíneos e à redução da frequência cardíaca. O resultado é uma queda abrupta da pressão arterial e, consequentemente, do fluxo cerebral. Emoções intensas, dor, calor excessivo, longos períodos em pé ou mesmo a visão de sangue podem ser gatilhos. Geralmente, é precedida por sinais de alerta: sudorese fria, náuseas, tontura, escurecimento da visão, sensação de calor ou zumbido nos ouvidos. Embora impressionante, costuma ter prognóstico benigno.
Outra categoria importante é a síncope ortostática, que ocorre ao se levantar de forma abrupta. Nessa situação, o sistema cardiovascular não consegue se adaptar rapidamente à mudança de posição, levando à queda da pressão arterial. É comum em idosos, em pessoas desidratadas ou em uso de certos medicamentos, como diuréticos e anti-hipertensivos. Aqui, mais do que um evento isolado, a síncope pode refletir fragilidade clínica ou efeitos adversos do tratamento.
Mais preocupantes são as síncopes de origem cardíaca. Elas podem decorrer de arritmias — quando o coração bate rápido demais, lento demais ou de forma irregular — ou de doenças estruturais, como estenoses valvares e cardiomiopatias. Diferentemente das formas reflexas, essas síncopes muitas vezes ocorrem sem aviso prévio, durante esforço físico ou em repouso, e estão associadas a maior risco de morte súbita. Por isso, exigem investigação criteriosa e rápida. Há ainda as síncopes de causa neurológica ou metabólica, menos frequentes, mas que entram no diagnóstico diferencial, como nos casos de hipoglicemia, distúrbios eletrolíticos ou doenças cerebrovasculares.
Independentemente da causa, a conduta imediata diante de uma pessoa que desmaia deve ser simples, objetiva e segura. A primeira medida é colocá-la em posição horizontal, preferencialmente com as pernas elevadas, facilitando o retorno do sangue ao cérebro. Afrouxar roupas apertadas, garantir ventilação adequada e observar a respiração são atitudes fundamentais. Não se deve oferecer líquidos ou alimentos enquanto a pessoa estiver inconsciente, nem tentar “acordá-la” com estímulos bruscos. Na maioria dos casos benignos, a recuperação ocorre em poucos segundos ou minutos.
Após o episódio, a avaliação médica é indispensável. Uma boa anamnese — ouvindo o relato do próprio paciente e de quem presenciou o evento — costuma ser mais esclarecedora do que exames sofisticados. O eletrocardiograma é obrigatório. A partir daí, decide-se a necessidade de exames adicionais, como monitorização cardíaca, testes de inclinação postural ou exames de imagem.
Mais do que tratar o episódio, é fundamental educar. Reconhecer sinais premonitórios, manter hidratação adequada, evitar longos períodos em pé e aprender manobras físicas simples — como cruzar as pernas e contrair os músculos ao sentir os primeiros sintomas — pode prevenir recorrências, especialmente nas síncopes reflexas. A síncope, portanto, não deve ser encarada com pânico, mas tampouco com descaso. Ela é um lembrete de que o cérebro depende, a cada segundo, de um delicado equilíbrio hemodinâmico. Quando esse equilíbrio falha, mesmo que por instantes, o corpo cobra atenção.
Em um mundo acelerado, acostumado a ruídos constantes, talvez a síncope nos ensine algo essencial: há momentos em que o organismo se cala para ser ouvido. E cabe a nós — profissionais de saúde e sociedade — saber interpretar esse silêncio, oferecendo resposta rápida, humana e tecnicamente correta. Segundo o filósofo e escritor francês, Blaise Pascal: “O coração tem razões que a própria razão desconhece”.
Antônio Carlos Sobral Sousa, professor titular da UFS, membro das Academias Sergipanas de Medicina, de Letras e de Educação