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A velhice pede desculpas

O "Último Azul", filme brasileiro, é cinema-poesia ou poesia inspiração. Ele consegue provocar sem agredir...........................

Por DAYSE DE VASCONCELOS MAYER Publicado em 01/02/2026 às 0:00 | Atualizado em 02/02/2026 às 11:17

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O velho Leon Tolstoi inicia a obra Anna Karenina com uma frase icônica: "Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira". Eu inverteria a frase: a maioria dos casais são infelizes; cada família feliz é feliz à sua maneira isto é, precisam de formas reinventadas de coexistência.

A crônica associa a frase ao último livro de Patrícia Reis - "O lugar da incerteza". Nela a família surge como "locus" da supremacia da violência da razão, da zona de guerra e como oásis de salvação. Embora a família seja considerada, historicamente, um porto seguro, um espaço de resiliência e um lugar onde se cultiva o amor, o perdão e o suporte para lidar com o imprevisível, tudo poderá se transformar, de repente, no instante em que a porta da verdade é escancarada. Ultimamente, tenho demonstrado enorme interesse não só pela família, mas pela instituição do casamento no mundo capitalista. Mas nada que possa invadir, confesso, a seara do desembargador e jornalista Jones de Figueiredo.

Sem adentrar na medula do grupo familiar, vamos identificar as grandes fortunas e a decisão dos pais de deserdarem os filhos, deixando a herança para as instituições ou fundações, fato que a legislação brasileira não permite. Acontece, grosso modo, quando os casais, no final do seu roteiro de vida, descobrem que não foram amados pelo que eram, mas por sua utilidade ou pelas benesses que ofereceram. Eis aí um outro significado para a expressão "valorização utilitária".

Há poucos dias, os jornais divulgaram a morte de Brigitte Bardot. Saiu de cena ainda jovem e passou a se dedicar aos animais. Teve um filho - Nicolas -Jacques Charrier mas confessou, sem pudor e sentimento de culpa, que não havia nascido para ser mãe e que a gravidez foi um "tumor". Tudo havia sucedido por obra do acaso e de circunstâncias alheias à sua vontade. Afinal, segundo confessou em autobiografia, não possuía estabilidade emocional para a maternidade. Mas temos que admitir que a artista foi verdadeira quando revelou que o "instinto materno" não é um impulso inato e universal. É mais um constructo social. Com a família acontece algo diferente, embora esse registro pareça um tanto paradoxal.

Zygmunt Bauman, o filósofo polonês e autor da obra "amor líquido" e da expressão "modernidade líquida", registrou que os laços familiares e amorosos foram convertidos em relações frágeis e superficiais, semelhantes a "mercadorias descartáveis". O que costumamos definir como "o outro" tende a se confundir com o objeto de satisfação e não com a pessoa real. Uma das frases do intelectual revela extremo pessimismo: "as relações humanas escorrem pelo vão dos dedos". Faz recordar o livro "Náufragos", de Sophie Elmhirst. Não é uma obra de ficção é o relato jornalístico do casal Maurice e Maralyn Bailey e do projeto que conceberam de construção de um barco para uma viagem à Nova Zelândia. No Pacífico Sul, o barco é alcançado por uma baleia e o casal fica à deriva durante 118 dias. A partir desse momento, a relação conjugal se comprime. São dois seres que precisam se redefinir continuamente num exercício permanente de preservação emocional. A meio do oceano, amor e intimidade ficam limitados a um pequeno bote salva-vidas e talvez, quem sabe, a uma "zona de guerra" restrita ou a um oásis de salvação como diria Veronesi no livro "Setembro Negro".

E os velhos? Que sucede com eles? Sabia que a velhice é acima de tudo um rito de passagem? Lembro-me de uma festa onde uma senhora idosa foi convidada pela neta para uma foto e recusou. De forma imperativa, a jovem fala alto: " eu estou mandando. E mostre um lindo sorriso de alegria". A moça desconhecia que apenas os estados de felicidade têm o poder de iluminar o rosto dos velhos, do contrário, a foto manifesta, unicamente "um vulto na neblina". Algo que se assemelha à amargura, tristeza de uma vida interrompida por fraturas e inquietações. Pior. A qualquer momento, as cicatrizes emocionais podem se arrebentar. Por isso, as pessoas velhas se isolam cada vez mais como forma última de preservação ou salvaguarda. Embora ainda exista afeto e desejo de convivência e aproximação familiar, os traumas jamais são dizimados. Estamos adentrando, aos bocadinhos, na questão da velhice e do etarismo com molduras diferentes.

Envelhecer! É um problema que todas as famílias encaram. Algumas de forma saudável, outras de maneira abjeta ou difícil. Por isso é fácil dizer que os idosos, embora integrem todas as famílias, não são visíveis a olho nu.

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