O poder dos menos poderosos
Se a política internacional voltou a premiar o poder, a resposta não é se ajoelhar diante dele, nem se isolar solitariamente...............
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Com a União Europeia e a OTAN vivendo a ansiedade de guerras em duas frentes, fui tocado pelo discurso do primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, proferido durante a Conferência de Davos, nessa semana.
É inimaginável um líder de um país que, por anos, fez parte da elite política, tecnológica, cultural, militar e econômica do mundo se exponha de forma tão clara para iluminar sua crença sobre os debilidades e desafios a serem enfrentados nesse mundo sob acelerada desconstrução.
Para Carney, a ordem internacional que aceitamos e com a qual convivemos desde a Segunda Guerra Mundial implodiu e não por falta de discursos, cúpulas ou comunicados.
O pragmatismo da realpolitik voltou ao tabuleiro das relações internacionais grosseiramente. O que antes era disfarçado por fórmulas diplomáticas, cedeu lugar ao sentimento asfixiante da coerção fungando no cangote dos países mais debilitados em poder.
Nesse ambiente, a integração econômica passou a ser instrumento de pressão, sustentada, sem subjetivismo, pelo poder militar. Tarifas viram armas convencionais. A ocupação de territórios alheios volta a ser opção quando há recusa em ceder aos interesses dos poderosos.
Como consequência, as potências médias, e Carney "humildemente" incluiu o Canadá nesse grupo, percebem a impossibilidade de confiar apenas na previsibilidade do sistema.
Com isso, são empurradas para escolhas dicotômicas, como autonomia e dependência, acomodação e resistência, retórica e capacidade de sustentar princípios.
Em suas palavras, o primeiro-ministro questiona, diante da tempestade que desaba sobre as relações internacionais e com o antigo guarda-chuva se desfazendo sem conserto, como países intermediários podem preservar soberania e influência, sem abdicar de seus valores.
Quando a integração deixa de ser promessa de benefício mútuo e passa a funcionar como mecanismo de subordinação, a linguagem afável perde aderência. Insistir nela é ingenuidade.
O Diálogo Meliano (os forte fazem o que podem, os fracos o que devem) reapareceu como lei natural das relações internacionais. Cresce, entre os despreparados, a tendência de acomodar, evitar atrito e esperar que a conformidade compre segurança.
E ainda há a hipocrisia desvelada no fato de que muitos países se beneficiaram da previsibilidade de uma ordem baseada em regras, mesmo sabendo que ela era aplicada de modo assimétrico.
Sabia-se que, quando conveniente, os mais fortes "excepcionavam" regras. Sabia-se que o direito internacional variava de intensidade conforme o réu e a vítima. Sabia-se, também, que a retórica, muitas vezes, superava a prática.
Ainda assim, a ficção oferecia estabilidade para o prosperar.
A resposta instintiva de muitos países parece, agora, ser a busca por autonomia estratégica. Um Estado que não consegue se alimentar, produzir energia, crescer em benefício de seu povo ou se defender eficazmente tem pouquíssimas opções de sobreviver com honra.
Se as instituições multilaterais tradicionais enfrentam paralisia ou contestação, Carney propõe coalizões por tema, com parceiros que tenham espaço comum para agir. Nem ingenuidade multilateral, nem isolamento. Uma espécie de pragmatismo cooperativo.
As grandes potências, mesmo durante a tempestade, conseguem ainda caminhar abrigadas. Elas estabeleceram mercados, têm musculatura militar invejável e, portanto, capacidade de impor condições.
Potências médias, não. Quando negociam isoladas com imperialistas, negociam a partir da fragilidade. Quando competem entre si, ficam reféns do pacote surrado disponível.
A síntese de Carney: ou você está sentado à mesa ou você está no cardápio.
Sua proposta indica que potências médias têm mais força quando se combinam para formar um terceiro caminho. Não devem negar a realidade do poder, mas tentar reduzir a assimetria, ampliar opções e sustentar princípios com base alcançáveis.
Segundo ele, uma economia doméstica robusta reduz vulnerabilidades. A diversificação externa diminui o medo de retaliação. A combinação das duas devolve aos países o direito de agir por princípios, já que diminui o preço de demonstrar solitariamente sua coragem.
Se a política internacional voltou a premiar o poder, a resposta não é se ajoelhar diante dele, nem se isolar solitariamente. É combinar, antecipadamente, com agentes estatais de mesma competência, suas melhores capacidades - incluindo as militares - e enfrentar, com sabedoria, mas sem subserviência, a "esquadra de Atenas".
O discurso de Mark Carney é inspiração para muitos países. Pode servir inclusive ao Brasil.
Otávio Santana do Rêgo Barros, general de Divisão da Reserva