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Onde mora a solidão

Seu sonho era colaborar mensalmente com ensaios no suplemento literário do Jornal do Commercio e do Diário de Pernambuco, mas não conseguia.

Por ARTHUR CARVALHO Publicado em 21/01/2026 às 0:00 | Atualizado em 21/01/2026 às 9:37

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Ele era um senhor respeitado, sorumbático, calado, introvertido e humilde. Sempre sério, vestia-se de terno escuro de casimira, colete, gravata marrom, com laço impecável. Não se comunicava bem com os colegas, funcionários do cartório onde trabalhava, somente com o tabelião e alguns clientes, que atendia com atenção.

Anacleto Jorge, seu nome, refratário a farras e bebedeiras, nunca foi visto com mulher, embora não tivesse trejeitos e maneirismos femininos. No seu tempo, era permitido fumar em locais fechados e ele fumava charutos Suerdieck e Dannemann fabricados no Recôncavo baiano e vendidos numa loja térrea do Edifício Sulacap, bairro de Santo Antônio. Sim: quando estava escrevendo seus poemas, dava umas tragadinhas numa cigarrilha Talvis, presenteada por Dr. Orlando Corrêa. Mas seu convívio social era restrito.

Seu sonho era colaborar mensalmente com ensaios no suplemento literário do Jornal do Commercio e do Diário de Pernambuco, mas não conseguia. Tímido, não frequentava as rodas boêmias de Renato Carneiro Campos, Tomás Seixas e Jomard Muniz de Brito, nem o restaurante D. Pedro, na rua do Imperador, em almoços e cafés com Edson Mouri Fernandes e Esmaragdo Marroquim. Sem pistolão para publicar sua obra na ingrata imprensa provinciana, quis até abordar a pintora e jornalista Ladjane Bandeira, coeditora da Revista Nordeste onde cometi meu primeiro conto, cujo nome esqueço. O que fazer? Não adiantava tentar a APL pois não era sócio do Country para se tornar imortal daquele vetusto sodalício e sim do Clube das Pás, em Campo Grande. Dos 40 anos em diante, em profunda depressão, passou a frequentar a Zona e distribuir seus poemas entre colegas de trabalho e fregueses do tabelionato. Foi pior: as pessoas que liam sua poesia gentilmente presenteada , passaram a zombar dela, principalmente os vates da praça. Mas ele não desistiu de versejar e um dia escreveu um poema cujos versos finais terminaram assim: "...Lá, onde mora a solidão e sonha a garça..."

Perplexos, despeitados e invejosos, nunca mais os beletristas debocharam de Anacleto Jorge. Mario Helio, Og Fernandes, Antônio Jayme da Fonte, Mário Moutinho, Dirceu Rabelo, Raimundo Carrero, Antônio Campos, Admaldo Matos, Frederico Pernambucano de Melo e Ivanildo Sampaio, adoram essa estória.

Arthur Carvalho, do Sindicato dos Escritores do Rio de Janeiro.

 

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