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Tempo, tempo...

...Eu que li Paulo Freire, fico aqui na minha rede, livrinho na mão, "esperançando" e certo de que há um "inédito viável" chegando................

Por FLÁVIO BRAYNER Publicado em 30/12/2025 às 0:00 | Atualizado em 31/12/2025 às 9:58

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Em seu fabuloso "O labirinto da solidão", Octavio Paz (1914-1998) observou que a noção de "tempo cíclico" terminou por selar a sorte da civilização Azteca: o dia 21 de Março de 1519 (no calendário cristão) representava o fim de um "ciclo" e o "início" de outro, e foi exatamente nesse dia que Herman Cortèz invadiu o México. Essa coincidência trágica, interpretada pelas autóctones como um "sinal", não representava para eles nenhuma tragédia. Mas foi! Ali, naquele fatídico dia, terminava um Mundo e seus habitantes, e começava outro. Traídos pelo seu próprio tempo cíclico, eles foram "abandonados pela História"!

O historiador francês Michel de Certeau (1925-1986), em seu ensaio sobre a Revolução Francesa, afirmou que a decapitação de Luis XVI (em 1792) representava mais do que a execução pública do tirano: a separação da cabeça de seu corpo simbolizava a separação entre duas épocas: uma que acabava, outra que começava. E essa nova era que começava (que chamamos de "contemporânea") modificou, inclusive, os nomes dos meses do calendário revolucionário francês, tomados dos ciclos da Natureza (frio, calor, vento, flores...), como se um "retorno" à Natureza (Rousseau) pudesse garantir um anteparo contra a arbitrariedade voluntarista do Tirano.

A própria ideia de "Revolução" vinha da chamada "Mecânica Celeste" (Astronomia) e significava o movimento de um astro em torno de seu próprio eixo, e depois migrou, pelas mãos de Montesquieu, para a política: a "Revolução" significava um "retorno" a uma ordem natural -em que os homens tem "direitos naturais"- rompida pelo arbítrio.

Assim, a ideia de um tempo linear, progressivo, homogêneo e vazio, que precisamos "preencher" com ações, fatos, eventos, acontecimentos..., é uma ideia tipicamente moderna. Quer dizer, tem origem em Agostinho e seu tempo tripartite (lembrança, atenção e esperança. Confissões, Livro X) e se afirma em Condorcet (Quadro geral dos progressos do Espírito Humano) afirmando a ideia de um tempo progressivo no qual, no "final" (da História? Do juízo? Da consumação? Da Era Comum?) chegaríamos à liberdade, à sociedade sem classes, à auto-consciência, à autenticidade, à realização da Ideia Absoluta...

Continuamos, apesar da hegemonia do conceito de tempo progressivo, a repetir um mote que, lembra a noção de "inconsciente coletivo" de Jung: a ideia de que o último dia do ano (apesar de não ser o "último dia da vida", como lembrava Drummond) representa simbolicamente o "fim" de algo e o começo de outro (o "Ano Novo"!), como lugar das esperanças e realizações que não se cumpriram no ano que "passou". Como se precisássemos dessas fraturas do tempo individual (criança, adolescente...) e coletivo (colônia, império...) para adquirirmos a sensação de que é no FUTURO, ao contrário dos gregos e dos Aztecas, com seus tempos cíclicos, que seremos aquilo que precisamos ser.

O problema é que numa época "presentista", em que o futuro já não se apresenta tão alvissareiro ou grávido de utopias, um presente consumível, efêmero e evanescente, temos o direito de suspeitar de certos futuros prometidos pela modernidade e seu "progresso".

De qualquer forma, eu que li Paulo Freire, fico aqui na minha rede, livrinho na mão, "esperançando" e certo de que há um "inédito viável" chegando, cheio de "amorosidade" e de "boniteza"!

Feliz Ano Novo para meus leitores e leitoras.

Flávio Brayner, professor Emérito da UFPE

 

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