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A esquerda que se perdeu!

Em grande parte do mundo, a esquerda institucional tornou-se gestora do mesmo sistema que ferozmente combateu................................

Por PAULO ROBERTO CANINIZZARO Publicado em 21/01/2026 às 12:18 | Atualizado em 22/01/2026 às 9:46

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Pode parecer polêmico, extremo afirmar isso, mas não deixa de ser real. Muitos especialistas respeitáveis que interpretam a realidade brasileira são mais severos, e afirmam: A esquerda morreu, simples assim, resultado de uma descrição analítica da verdade e de um diagnóstico político. Não se trata do desaparecimento de partidos, símbolos ou militantes que se autodenominam “de esquerda”, mas da morte de um projeto histórico coerente, capaz de interpretar o mundo e transformá-lo.

A inspiração da esquerda nasceu como força de ruptura. Era o ideal da igualdade, da soberania popular. Da crítica do capitalismo cruel, da exploração do trabalho, das hierarquias herdadas, do poder concentrado. Sua identidade vinha do conflito: capital versus trabalho, elite versus povo, dominação versus emancipação. Hoje, esse conflito foi diluído, quando não invertido.

Em grande parte do mundo, a esquerda institucional tornou-se gestora do mesmo sistema que ferozmente combateu. Abandonou a ideia de transformação estrutural e se contentou com a administração “mais humana” do neoliberalismo. Privatizações “responsáveis”, austeridade “com sensibilidade social”, precarização do trabalho, com discurso progressista.

O resultado foi previsível: perdeu sua razão. A esquerda trocou a política material pela política simbólica. Questões identitárias — legítimas e importantes — passaram a ocupar todo o espaço, e temas de bandeiras como: salário, moradia, emprego, soberania econômica e poder das corporações foram empurrados para a teoria. Não porque deixaram de importar, porque são difíceis, conflituosos e exigem enfrentamento real em tempos difíceis.

É mais seguro disputar linguagem do que disputar propriedade. Essa mudança produziu um paradoxo cruel: a esquerda fala sobre marginalizados, mas dialoga pouco com eles. O trabalhador precarizado, o jovem sem perspectiva, o pobre endividado, não se reconhecem mais no discurso acadêmico, moralizante e frequentemente elitista que passou a dominar o campo progressista.

Quando essas pessoas expressam raiva ou frustração fora do vocabulário “correto”, são tratadas como ignorantes ou reacionárias — assim são oferecidos de bandeja à direita. Ela, a direita, por sua vez, entendeu algo fundamental: política é afeto, pertencimento. E aí a noção da ruptura passou a ser as falas que a direita roubou da esquerda, mas que transmite um discurso mais realista, mesmo que também minta descaradamente.

Além disso, um outro fenômeno real aconteceu: não existe mais a figura do centro democrático. Há neles a força do agro, políticos profissionais, fortes empresários, mas sem voz política de convencer o eleitorado. A política dirigiu-se, na maioria das nações, para os extremos, e assim a direita ganhou espaço. Ela se expandiu no mundo não porque ficou inteligente, encontrou um terreno abandonado. Esse avanço é resultado de uma combinação de falhas da esquerda, transformações econômicas profundas e uma leitura mais eficaz do funcionamento real da política contemporânea.
Enquanto a esquerda oferece diagnósticos e correções morais, a direita oferece visões mais fáceis de identidade, define os seus inimigos claramente e faz promessas mais simples. Não importa se são falsas; são mais compreensíveis. A esquerda, obcecada por pureza discursiva, esqueceu que política não é um seminário — é disputa de poder. Fala em solidariedade, mas onde estão as suas ações? A outra evidência é que a esquerda não compreendeu que 2026 não é mais 2004. Não existe mais aquele país, e a extrema direita nesse sentido se tornou mais perceptiva do real.

A direita ainda consegue oferecer nomes que nem são políticos tradicionais, gente mais leve, estrutura mais nova, mesmo que sejam ruins e despreparados, mas não é mais a velha direita oligárquica superada, o que não aconteceu na esquerda, que continua personificada na imagem de uma única bandeira, vencida, superada e desgastada: O Lulismo.

A esquerda foi quem bebeu a onda mais conservadora e inflexível, um contrassenso de origem. Não se pode desconsiderar outro fato inegável: a esquerda igualmente se corrompeu bastante no trajeto, e fez pouca crítica de ter se embriagado da luxúria depravada que sempre combateu. Desconheceu que o pacto social exitoso que construiu nos primeiros dias da sua administração, com o PT, de uma reconhecida mobilização popular, não existe tampouco, e se desorganizou por completo.

A política hoje é feita em redes sociais, com mensagens curtas, emocionais e repetitivas. A direita se adaptou mais rapidamente a esse ambiente. A esquerda insistiu em discursos longos, cheios de mediação e nuance — excelentes para artigos, mas péssimos para mobilização em massa.

A realidade do país é outra, muito pior, mais endividado, uma montanha de dívida pública, debilitado, uma classe média alienada, cansada de restrições no Serasa, e um Estado brasileiro precarizado em todas as suas ações. Isso não significa que os valores históricos da esquerda — igualdade, justiça social, solidariedade — estejam mortos. Longe disso, pelo contrário: nunca foram tão imprescindíveis.

O que morreu foi a esquerda como sujeito político capaz de encará-los. Morreu quando passou a temer o povo real. Morreu quando trocou organização por performance, militância por engajamento online, e conflito social por gestão de imagem. Evidentemente, mortes políticas não são cenários finais definitivos. São encerramentos de ciclo.

A esquerda pode renascer — mas não será uma continuação, nada suave do que existe hoje. Terá que romper com seus próprios dogmas, voltar a falar de classe sem medo, enfrentar o poder econômico de verdade e reaprender a escutar quem não fala sua língua.
Até lá, a frase permanece incômoda, difícil de ignorar: a esquerda, como a conhecíamos, morreu. O que existe é um corpo cambaleante que se move — mas já não convence que esteja vivo, além disso vai precisar trocar suas figuras messiânicas. Vai ganhar as próximas eleições? É provável que vença, mesmo assim completamente desfigurada de seu rosto original.

Paulo Roberto Cannizzaro,  escritor

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