Antônio Carlos Sobral Sousa: "O Lugar Onde o Tempo Folheia"
Fundada quando o mundo ainda se iluminava à luz de velas e o Iluminismo florescia na Europa, a Livraria Bocca atravessou impérios, guerras, revoluções
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Há lugares que não se visitam apenas com os pés, mas com a memória, a imaginação e uma certa reverência silenciosa. A Libreria Bocca, fundada em 1775, é um desses raros espaços onde o tempo não passa — ele se deposita. Cada ano ali não apaga o anterior; soma-se a ele como uma nova camada de significado, como as páginas de um livro antigo que, ao contrário do que se pensa, não envelhece: amadurece.
Almoçando com minhas duas filhas e a netinha Maria, no tradicional Restaurante Biffi, do simpático brasileiro Tarcísio Bacco, situado ao lado da icônica livraria, no coração da Galleria Vittorio Emanuele II, em Milão, fiquei imaginando que entrar na Bocca é cruzar um limiar invisível entre a pressa do mundo moderno e a cadência lenta do pensamento. Do lado de fora, o vaivém apressado de turistas, vitrines luminosas, o eco dos passos sob a cúpula monumental. Do lado de dentro, o sussurro das ideias, o perfume do papel, o silêncio que não oprime — acolhe. Ali, o tempo se comporta de outra maneira. Ele se senta, observa, folheia.
Fundada quando o mundo ainda se iluminava à luz de velas e o Iluminismo florescia na Europa, a Livraria Bocca atravessou impérios, guerras, revoluções, mudanças de regimes, modas literárias e tecnológicas. Sobreviveu ao século XVIII, dialogou com o XIX, resistiu às tragédias do XX e chega ao XXI com uma dignidade rara: a de quem não precisou se reinventar, apenas permanecer fiel à própria essência.
Ao longo de mais de dois séculos, suas estantes viram passar gerações de leitores — artistas, filósofos, arquitetos, poetas, estudantes e curiosos ocasionais. Alguns buscavam respostas; outros, perguntas melhores. Muitos talvez tenham entrado sem saber exatamente o que procuravam, mas saíram levando algo que não se compra: um silêncio fecundo, uma inquietação criativa, um convite à reflexão.
A Bocca especializou-se em livros de arte, pensamento estético e cultura visual. Não é uma livraria de excessos; é de escolhas. Cada volume parece ali estar por mérito próprio, como se tivesse sido convidado a ocupar aquele espaço. Não há alarde, nem empilhamentos agressivos. Há uma curadoria silenciosa, quase ética, que respeita o leitor e confia na inteligência de quem folheia.
Folhear um livro na Bocca não é um gesto banal. É um pequeno ritual. As mãos tocam o papel com cuidado instintivo, como se soubessem que ali repousa algo mais do que tinta e imagens. Talvez por isso a livraria sobreviva numa era de telas, algoritmos e leituras apressadas: porque oferece exatamente o que falta — presença.
A cada prateleira, percebe-se que aquele espaço não vende apenas livros; preserva valores. Preserva o tempo lento da leitura, o prazer do encontro casual com uma ideia inesperada, o direito de se perder entre páginas sem a obrigação de chegar rapidamente a lugar algum. Em um mundo obcecado por produtividade, a Bocca ensina a importância do ócio criativo, da contemplação, do intervalo.
Há também algo profundamente humano na permanência da Bocca. Ela nos lembra que a cultura não é descartável. Que o conhecimento não deve ser consumido com a voracidade das modas, mas cultivado como se cultiva um jardim antigo, respeitando estações, ciclos e raízes. Cada livro ali parece dizer, em silêncio: “Fui escrito para durar.”
Antônio Carlos Sobral Sousa é professor Titular da Universidade Federal de Sergipe e membro das Academias Sergipanas de Medicina, de Letras e de Educação