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O Barão e Berbêlho

Vou ficando por aqui, antes que Cascudo, fulgurante, desça do céu e repita, brincando, o que dizia a meu pai: - Vá baixar noutro terreiro!

Por ROBERTO PEREIRA Publicado em 14/12/2025 às 0:00 | Atualizado em 14/12/2025 às 10:46

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Nos longes de 1982, durante uma homenagem in memoriam que organizei, como presidente da Fundarpe, ao mestre Luís da Câmara Cascudo (1898-1986), fizemos - seu filho Fernando, o querido Cascudinho, e eu - um dueto de recordações do tempo dos nossos pais. O meu, o escritor Nilo Pereira (1909-1992); o dele, o grande folclorista do Rio Grande do Norte.

Evocamos, então, que aqueles dois foram amigos-irmãos, fraternalmente ligados pelo afeto e pela intelectualidade. Lembramos as cartas que viajavam entre Natal e o Recife, em constante mão dupla.

Cascudinho contou que memorizara o endereço de Nilo no Recife, tantas vezes o via no espaço reservado ao remetente: Rua Bispo Cardoso Ayres, 481. Respondi-lhe, no pingue-pongue de ternuras: também fixei o endereço dele em Natal, Rua Junqueira Aires, 42.

"Ninguém se perde no caminho das cartas", dissemos em uníssono.

Já escrevi, certa vez, sobre a expressão de alegria que Cascudo e meu pai repetiam nos encontros e despedidas: "Larim, toré, babá!" A frase - também imortalizada entre Nilo e Marcos Vilaça, depois entre Vilaça e eu, e, agora, preservada entre mim e o escritor José Paulo Cavalcanti Filho - tornou-se senha de afetos familiares e literários.

Cascudo usava o humor, fino e dócil, como parte de seus estudos de folclore. Era múltiplo: antropólogo, poeta, historiador, jornalista, repórter. Pilheriador por natureza, recebia em sua casa pessoas simples e figuras pomposas, sempre com a mesma fidalguia.

Uma vez, ao receber mais uma visita, sua secretária pediu ao admirador que aguardasse. O homem, ansioso, comentou:

- Cascudo é, no meu entender, uma grande cultura.

Ao que ela respondeu, espontânea:

- Nem tanto. Ele vive lendo e estudando, mas parece que não aprendeu nada ainda…

Risos amarelos, e um Cascudo às gargalhadas quando soube da história.

Sua obra, feita sem sair da província, ganhou dimensão internacional. Brincava com o próprio nome: "Na Alemanha, sou Von Kaskudo; na França, Cascudô; em Portugal, Queiscudo."

Nos encontros com meu pai - fosse na rua, fosse em ambientes fechados -, a saudação inicial era a mesma: estiravam a língua um para o outro, trocavam pontapés e sopapos fraternais e terminavam com o infalível "larim, toré, babá", que Cascudo e Nilo também usavam no fecho das cartas.

Nas aulas de folclore, gostava de ilustrar ele mesmo os temas: dançava bumba meu boi, cantava as melodias populares, mostrava ao público que o "povo também é universidade," frase sua que ficou eternizada.

Numa solenidade em que era excessivamente elogiado, exclamou, com a graça habitual: - É mentira, mas é gostoso!

A sentença virou folclore nacional.

Costumava dizer que o folclore era o estudo da fixação do homem na terra-berço, o apego de cada comunidade à sua aldeia. E complementava, em tom filosófico:

"Quem não tiver debaixo dos pés da alma a areia de sua terra não resiste aos atritos da vida. Acaba incolor, inodoro e insípido, parecido com todos."

Para ele, "o melhor produto do Brasil é o brasileiro", frase consagrada pela força de seus estudos sobre o homem verde e amarelo - nós, filhos deste chão democrático, de liberdade tardia, mas persistente.

Meu pai nasceu em Ceará-Mirim, cidade da Grande Natal, fundada sobre a economia da cana-de-açúcar. Veio ao mundo no Engenho Verde-Nasce, de onde dizia, espirituoso: "Verde nasci."

Depois mudou-se, com a família, para o Engenho Guaporé, atual Museu Nilo Pereira - triste ruína hoje, abandonada pelo poder público incapaz de preservar a própria memória.

O solar do Guaporé foi construído pelo Dr. Vicente Ignácio Pereira, o segundo médico formado no Rio Grande do Norte e antigo presidente da Província na seca de 1877. Genro do Barão de Ceará-Mirim e avô de Nilo, deixou ao engenho a dignidade de um velho casarão com história.

Ceará-Mirim teve apenas um barão: Manoel Varella do Nascimento, militar agraciado por D. Pedro II em 1874. Mas Cascudo, achando pouco que meu pai não tivesse título, "outorgou-lhe" espiritualmente a honraria de Barão do Guaporé, chamando-o, com gosto, apenas de "Guaporé".

O grande amigo que concedeu a meu pai o título de Barão do Guaporé, mediante diploma por ele encomendado. Papel apergaminhado. Brasão. Sinete de Chancelaria da Ordem, que só tinha um agraciado - Nilo Pereira. Pra que mais, na vida? Provocava Cascudo.

Após o restauro do Solar do Guaporé, uma conquista do meu pai junto à Secretaria Nacional de Cultura, à época de Marcos Vilaça naquela Pasta, mas que o tempo, implacável, novamente defenestrou o velho Solar.

Cascudo, o Grão-Chanceler, promoveu Nilo a Conde. Por esta época, Nilo, pilheriando, dizia-se Cambiteiro Honorário do Engenho Verde Nasce, onde nasceu ou verde nasceu, repito.

O título de Conde não pegou, tão grande a magia do baronato, consagrado nas lides literárias, notadamente no Rio Grande do Norte e em Pernambuco.

Em retribuição, meu pai chamava Cascudo de Berbêlho, por causa de um episódio pitoresco. Um amigo comum, Antônio Barbalho, visitara o Rio de Janeiro nos anos 1930 e voltara encantado com o sotaque carioca. Às apresentações, dizia com ar sofisticado:

- Prazer, sou Antônio Berbêlho.

A história divertiu ambos, ainda jovens. Desde então, Nilo só chamava o amigo-irmão de "meu querido Berbêlho", e Cascudo recebia o apelido com ternura e irreverência.

Transcrevo aqui uma das cartas que ele enviou ao meu pai, em 5 de abril de 1982, citando Dahlia, sua esposa:

"Guaporé,

Envio incluso o pequenino relatório de Dahlia comunicando-me a impressão encantadora do seu discurso no Instituto Histórico. Constatei que o coração toma formas humanas e fala a eloquência do afeto.

Veja se lhe é possível, na Reitoria da Universidade, um exemplar do Gente Viva, de que não tenho nenhum.

Antecipo todos os agradecimentos.

Lembranças a você e todos os seus.

Larim, toré, babá!

Berbêlho"

Ao terminar estas linhas, reverencio Cascudo no infinito das coisas, o mestre provecto, o homem que jamais envelheceu. Sua juventude esplende no primeiro contato.

Vou ficando por aqui, antes que Cascudo, fulgurante, desça do céu e repita, brincando, o que dizia a meu pai:

- Vá baixar noutro terreiro!

Roberto Pereira, professor, ocupante da Cadeira 35 da Academia Pernambucana de Letras.

 

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