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Vencer a guerra antes da guerra

"Vive-se uma guerra sem fumaça, mas que intoxica profundamente a estabilidade dos Estados, dos Governos e o equilíbrio das sociedades".

Por OTÁVIO SANTANA DO RÊGO BARROS Publicado em 01/11/2025 às 5:00

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Há alguns meses, o Comandante do Exército da França, General Pierre Schill, conduziu uma multifacetada reunião com civis e militares interessados no tema defesa.

Ele atualizou a plateia sobre a estrutura que comanda, projetou a guerra do futuro, alertou sobre a necessidade de a força adaptar-se aos novos desafios e reafirmou o aforismo de que o campo de batalha envolve também valores, tradições e emoções.

Os reflexos do encontro foram longe, até porque o território da Europa, desde a Segunda Guerra Mundial, não hospedava confrontos como os que levaram a Ucrânia e a Rússia a uma guerra, que já dura mais de 3 anos, afetando vários atores direta e indiretamente.

A Europa parece ter despertado de um sono letárgico que durou mais de meio século. Alemanha, Polônia, Inglaterra, dentre outros países, correm para diminuir seus déficits de segurança como Estado, diante dos desafios que hoje se apresentam.

Para reforço das argumentações, o General Schill valeu-se de analistas geopolíticos, como o professor David Colon, do Instituto de Estudos Políticos de Paris, um expert em guerra informacional.

Como sociedade, precisamos pensar mais amiúde sobre esses temas. Não sejamos ingênuos, a guerra está à porta de nossa casa e talvez já tenha entrado sem que a percebamos.

Para o professor Colon, o espaço terrestre do campo de batalha é prioritário para o atingimento dos objetivos políticos e militares de uma nação.

Forças armadas fazem guerra usando o ar, o mar, o espectro cibernético, o espaço, mas só consolidam efetivamente a vitória com o coturno pisando no chão enlameado e ensanguentado que lhes foi imposto como objetivo.

Contudo, ele agregou ao campo de batalha físico, o campo de batalha mental, igualando-os em importância para a vitória.

Vencer uma guerra, segundo ele, exige triunfar tanto na terra, quanto nas ideias, impactando pessoas com as armas simbólicas do apelo emocional que viaja pelas opiniões das sociedades.

Esse processo (algumas vezes chamado de guerra psicológica) é arma eficaz ao espalhar dúvidas nas pessoas, corroendo a coesão social e a credibilidade de instituições, lideranças e da própria comunidade.

Junte-se à guerra psicológica, o advento das modernas tecnologias digitais e corremos o risco de sermos empurrados para a irracionalidade.

Seguem exemplos que ilustram esse fenômeno.

Há evidências de que a Rússia interferiu nas eleições americanas de 2016, usando perfis falsos, campanhas de desinformação e manipulação coletiva.

Igualmente, de que a China vem atuando com operações de influência sobre corações e mentes, espalhando conteúdo pró-Pequim e descredibilizando adversários em dezenas de países.

Essas ações não buscaram o domínio territorial. Visavam prioritariamente a substituir a força dos canhões pelo controle da emoção.

Para o emprego do poder militar efetivo, vale o mesmo raciocínio. Deslocamentos estratégicos, manobras no terreno e exercícios de simulação têm igual propósito psicológico de afetar comportamentos sem recorrer ao combate direto.

Nos últimos dias, os EUA deslocaram uma poderosa frota, aviões e fuzileiros navais ao Caribe, sob o pretexto de combater o narcotráfico, pressionando o regime de Nicolás Maduro.

Em 2017, aviões dos EUA e da Coreia do Sul sobrevoaram a península coreana, em uma demonstração de força destinada a advertir a Coreia do Norte e seus aliados a não ultrapassarem a linha tênue da paz instável.

Diante de tudo isso, ao verbo vencer, como ápice das campanhas militares, agregue-se a ideia do controlar narrativas, sentimentos e expectativas, impondo a própria versão da realidade.

Para Colon, a batalha da (des)informação se desenvolve em um continuum entre a paz e a guerra, o civil e o militar, o público e o privado, o verdadeiro e o falso.

Uma alegoria interessante do professor: “vive-se uma guerra sem fumaça, mas que intoxica profundamente a estabilidade dos Estados, dos Governos e o equilíbrio das sociedades”.

Há lições a serem guardadas da palestra do General Schill. Civis e militares precisam aprender a detectar esses sinais invisíveis, perceber o odor da fumaça, enxergar o fogo e debelar os incêndios emocionais que consomem o tecido social de nosso país e afetem nossa segurança como Estado.

É um vencer a guerra antes da guerra.

Otávio Santana do Rêgo Barros, general de Divisão da Reserva

 
 
 

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