Jeitinho brasileiro
Enquanto a transição não se consolida, o jeitinho seguirá como espelho das virtudes e contradições do país...................................

Clique aqui e escute a matéria
No Brasil, todos conhecem alguém que "consegue resolver" o que parecia impossível: uma vaga em uma escola pública lotada, um documento emitido em tempo recorde, uma burocracia vencida sem enfrentar filas. Esse tipo de solução rápida, que mistura cordialidade, improviso e influência pessoal, tem nome próprio — o famoso "jeitinho brasileiro". Admirado por uns como prova de criatividade e condenado por outros como raiz de problemas estruturais, o jeitinho é, acima de tudo, um reflexo profundo da cultura nacional — e daquilo que torna os brasileiros, ao mesmo tempo, tão criativos e tão contraditórios. Para a socióloga Lívia Barbosa, trata-se de uma maneira de preservar relações e alcançar objetivos, mesmo que, para isso, se flexibilizem regras e procedimentos.
O jeitinho não é, por essência, positivo ou negativo. Ele pode representar uma solução criativa diante de obstáculos injustos, mas também servir como instrumento para manter privilégios e corroer a igualdade. Joseph Page, em The Brazilians, vê nele uma expressão prática da cordialidade brasileira, da tendência a evitar confrontos diretos e a adaptar a norma às circunstâncias. Para muitos, a regra não é um muro intransponível, mas um ponto de partida para negociação.
Suas raízes históricas remontam ao período colonial, quando a administração portuguesa impunha leis distantes da realidade local, tornando sua aplicação literal impraticável. A diversidade cultural, resultante da mistura de indígenas, africanos e europeus, reforçou a adaptação e o improviso como modos de vida. A desigualdade crônica fez do jeitinho, para muitos, a única forma de acessar direitos ou serviços. Essa dimensão de sobrevivência, no entanto, convive com usos que favorecem quem já detém poder, ampliando injustiças.
O contraste é evidente. Um trabalhador pobre que, sem acesso rápido ao SUS, consegue uma consulta por meio de um conhecido recorre ao jeitinho como forma de inclusão. Já um empresário que usa influência para obter contratos públicos sem licitação perpetua desigualdades pelo mesmo mecanismo. A lógica é a mesma; o impacto ético e social, muito diferente. O professor Carlos Pereira, da Fundação Getulio Vargas, mostra que a tolerância cultural com o jeitinho se conecta à tolerância com a corrupção: muitos aceitam práticas ilícitas se percebem benefícios. É a mentalidade do "rouba, mas faz", que legitima desvios sob o argumento de funcionalidade.
Práticas semelhantes existem em outros países, como o arrangiarsi italiano, a palanca mexicana ou o jugaad indiano. Todas envolvem improviso e redes de apoio pessoal, mas o jeitinho brasileiro se destaca pelo grau de aceitação social e pela centralidade na identidade nacional. Para estrangeiros, pode soar encantador, como prova de engenhosidade; para outros, é sinônimo de improviso irresponsávelA confiança social sofre com essa cultura. Em sociedades onde as regras são claras e aplicadas igualmente, a confiança interpessoal e institucional é alta, favorecendo cooperação e desenvolvimento. No Brasil, a percepção de que as normas podem ser contornadas para alguns, mas não para todos, mina o senso de justiça. Isso afeta a economia, desestimula investimentos e desvaloriza o mérito. No setor privado, o jeitinho pode aparecer como "flexibilidade" para atender um cliente; no setor público, como "facilidade" para liberar um processo. Mas, em ambos os casos, a quebra do procedimento enfraquece a previsibilidade.
No cotidiano, ele está por toda parte: o médico que atende fora da agenda por indicação de um amigo, o servidor que agiliza um processo mediante "agrado", o motorista que estaciona em local proibido "só por um minutinho", o empresário que ajusta informalmente um contrato. Pequenos ou grandes, esses atos têm em comum a flexibilização de uma norma em nome de um objetivo imediato. Para uns, são gestos de solidariedade ou eficiência; para outros, injustiças que alimentam um jogo desigual.
Enfrentar o problema requer reformas institucionais que façam o caminho formal ser mais rápido e acessível que o atalho. Isso implica reduzir a burocracia, simplificar processos e garantir a aplicação uniforme das regras. Mas a mudança também precisa ser cultural, começando na educação básica, para que as novas gerações compreendam que respeitar normas é condição para a justiça social. Líderes e instituições devem dar exemplo, mostrando que é possível ser criativo e eficiente dentro da legalidade.
O desafio é transformar a energia criativa do jeitinho em inovação ética. Há exemplos inspiradores: startups que simplificam serviços sem burlar leis, movimentos sociais que resolvem problemas locais com transparência e participação, redes comunitárias que atuam dentro da legalidade. Essas iniciativas mostram que a flexibilidade e a adaptabilidade brasileiras podem ser motores de progresso quando voltadas ao bem comum. A habilidade de improvisar pode deixar de ser sinônimo de transgressão e se tornar marca de resiliência e competência.
Enquanto a transição não se consolida, o jeitinho seguirá como espelho das virtudes e contradições do país: prova da capacidade de adaptação e também da fragilidade institucional. Como alertam Barbosa, Page e Pereira, ele é parte inseparável da identidade nacional, mas o futuro do Brasil dependerá de qual face desse traço cultural — a que constrói ou a que corrompe — será fortalecida. É nessa escolha que reside, talvez, um dos maiores desafios da nossa história recente: aprender a transformar improviso em método, cordialidade em confiança e criatividade em ética aplicada.
Eduardo Carvalho, Autor do livro "Por um Brasil digno"