De festa para cachorro a clínica de estética, histórias mostram força dos negócios liderados por mulheres em Pernambuco
Negócios liderados por mulheres já representam 26,7% dos pequenos empreendimentos no estado. Entre 2024 e 2025, o crescimento foi de 37%
Clique aqui e escute a matéria
As irmãs Adriana Oliveira e Ana Isa Celestino nem imaginavam que o primeiro aniversário do chihuahua Baião viraria negócio. Organizada em casa, a festa atraiu os PETs da vizinhança e chamou atenção. Depois os amigos começaram a pedir: "Faz pra mim, faz pra mim". "Foi ali que a luzinha do empreendedorismo acendeu como ideia para fazer uma renda extra", conta Adriana.
Assim surgiu a Dog Festa, especializada em aniversários para cães. No início funcionou na cozinha da casa da família e hoje conta com um ponto físico no bairro de Campo Grande, no Recife. A empresa começou informalmente em 2017 e se formalizou alguns anos depois. Primeiro como MEI e, com o crescimento do faturamento, passou a operar como ME.
Histórias como a de Adriana ajudam a explicar um movimento maior no estado. Mais de 294 mil empresas em Pernambuco têm mulheres como donas ou sócias, dentro de um universo de cerca de 1,1 milhão de CNPJs ativos. Isso significa que elas já lideram 26,7% dos pequenos negócios pernambucanos.
Desses pequenos negócios, 54% estão formalizados como microempreendedoras individuais (MEI). A presença feminina aparece de forma equilibrada entre os setores — Comércio (45,5%), Serviços (45,1%) e Indústria (44,9%) —, mas se destaca especialmente nas áreas de Saúde e Bem-estar (19,2%), Moda e Confecção (14,2%) e Serviços de Alimentação (9,1%).
A abertura de empresas comandadas por mulheres também vem ganhando ritmo no estado. Em apenas um ano, o número de novos negócios liderados por elas saltou de 34,9 mil, em 2024, para 47,9 mil em 2025 — um avanço que reforça o crescimento do empreendedorismo feminino no estado.
Festas para cães e novos mercados
No caso da Dog Festa, a empresa se especializou em eventos para pets. O cardápio inclui bolos, brigadeiros, pirulitos e kits completos de aniversário preparados com ingredientes adaptados para a alimentação dos animais. Os kits variam de cerca de R$ 98 a R$ 425, dependendo da quantidade de itens e da personalização. Em alguns casos, o investimento vai muito além disso.
Adriana lembra de um cliente que gastou cerca de R$ 5 mil em uma festa para o cachorro, com decoração e buffet para receber dezenas de animais convidados.
A empresa também investe em alimentação natural para pets e desenvolveu uma linha chamada “tal humano, tal pet”, em que tutores podem compartilhar a experiência da festa com os animais. “Se o bolo do cachorro é em formato de osso, o do humano pode ser também”, explica Adriana.
A pandemia acabou impulsionando o crescimento do negócio. Com mais pessoas em casa convivendo intensamente com os animais, a procura aumentou. Segundo Adriana, o faturamento da empresa praticamente dobrou naquele período.
O negócio hoje tem duas frentes. Além da confeitaria, Adriana oferece cursos online de confeitaria pet, voltados principalmente para mulheres que desejam empreender nesse mercado. Mais de 5 mil alunas já participaram das capacitações em todo o Brasil e de países como Portugal e Estados Unidos.
“Muitas vezes a gente não consegue atender um cliente e indica uma aluna. Tem espaço para todo mundo", afirma.
Empreender desde cedo
A história de Lairlane (Lane) Costa dos Santos começou muito antes de abrir o próprio negócio. Ainda criança, ela observava a rotina da mãe, Maria Lúcia, como cabeleireira. Entre clientes e conversas de salão, aprendeu a dinâmica de um pequeno empreendimento. “Empreender sempre esteve na minha vida”, costuma dizer.
Hoje ela comanda a Amar a Si, negócio de estética e cuidados pessoais voltado ao fortalecimento da autoestima feminina. O espaço oferece serviços como limpeza de pele, design de sobrancelhas e outros procedimentos estéticos.
Na clínica Amar a Si, Lane costuma dizer que estética vai além da aparência. Para ela, o autocuidado também é uma forma de transformação pessoal. A ideia aparece até na logomarca da empresa. “São dois rostos de perfil que juntos formam uma borboleta”, explica. “Eu acredito que quando a pessoa se enxerga, se dá atenção, uma transformação acontece.”
Assim como muitas empreendedoras, Lane começou pequena e estruturou o negócio aos poucos. A empresa também passou por processos de formalização e organização financeira. Para ela, empreender exige coragem e persistência. “Quem empreende precisa entender que não existe crescimento sem aprendizado", diz. “Empreender é decidir todos os dias que você não vai desistir", completa.
Entre os planos para o futuro está ampliar o negócio e criar programas de formação para outras mulheres que desejam empreender, compartilhando experiências acumuladas ao longo da trajetória. Também está no radar a criação de uma iniciativa social.
Aprender a gerir
As histórias de Adriana e Lane se cruzam em outro ponto. As duas buscaram capacitação no Sebrae para estruturar melhor os negócios. Adriana conta que procurou apoio quando percebeu que a empresa estava crescendo mais rápido do que sua experiência em gestão.
“Quando a empresa começou a crescer muito, a gente viu que precisava organizar a gestão financeira e entender melhor o negócio", revela. Lane também passou por processos de capacitação e diz que o aprendizado foi decisivo.
Segundo Adriana, o apoio recebido teve impacto direto no amadurecimento do negócio. “O Sebrae foi uma mãe para a gente. Ajudou a amadurecer como empreendedoras", reconhece.
Redes que fortalecem empreendedoras
Histórias como essas fazem parte do universo acompanhado pelo Sebrae Delas, programa voltado ao fortalecimento do empreendedorismo feminino.
Segundo Maria Eduarda Rocha, gestora estadual da iniciativa em Pernambuco, a proposta é apoiar as mulheres desde o momento em que a ideia de negócio surge até a fase de expansão da empresa.
“O Sebrae Delas é estruturado em três pilares que chamamos de eu, o meu e o nós. O primeiro trata do desenvolvimento pessoal. "O eu envolve o que a mulher precisa desenvolver na vida, na carreira, na família e na saúde". O segundo se concentra no negócio. "O meu envolve a ideia, o projeto e o crescimento da empresa". Já o terceiro busca fortalecer conexões entre empreendedoras. “O nós envolve a comunidade feminina e o networking entre essas mulheres", detalha Eduarda.
O crescimento e seus desafios
Apesar do avanço do empreendedorismo feminino, desafios permanecem. Entre eles está a sobrecarga enfrentada por muitas mulheres que acumulam responsabilidades dentro e fora do negócio. “A mulher geralmente tem uma dupla jornada de trabalho”, observa Maria Eduarda.
Mesmo assim, o número de empreendedoras continua aumentando. Segundo dados do Sebrae, o Brasil passou de 8,9 milhões para 10,4 milhões de mulheres donas de negócio desde 2020, crescimento de 42%.
Mais empresas de mulheres
Empresas nascem de formas diferentes. Às vezes de uma festa improvisada para um cachorro.
Às vezes da infância passada observando a mãe trabalhar em um salão. Entre receitas para pets e tratamentos de estética, Adriana e Lane seguiram caminhos distintos para transformar pequenas ideias em negócios.
Histórias que ajudam a explicar por que o empreendedorismo feminino continua crescendo em Pernambuco — empresa por empresa.