Dia Internacional da Mulher ajuda a expor desafios de se avançar no exercício de direitos conquistados, mas nem sempre praticados
Legisladores avançaram em países como o Brasil, mas em nenhum país o público feminino tem legislação com igualdade, persistindo barreiras culturais
Clique aqui e escute a matéria
No Dia Internacional da Mulher, o Banco Mundial divulga ao Brasil o estudo Mulheres, Empresas e Direito de 2026, elaborado pela instituição, no qual se mostra avanço no ambiente de negócios para o empreendedorismo feminino, mas que barreiras persistentes tornam o cenário ainda desigual e frágil.
A diretora do Banco Mundial para o Brasil, Cécile Fruman revela que dois de cada três países têm direitos legais entre homens e mulheres, mas em nenhuma das 190 nações abrangidas pelo estudo o público feminino desfruta da legislação com igualdade.
América Latina
A situação brasileira é melhor do que a global e a da América Latina. Mas menos da metade (48%) das mulheres têm acesso a crédito e 53% contam com serviços de cuidados infantis para ajudá-las.
Com 104,5 milhões de mulheres, o que representa 51,5% da população brasileira, de acordo com dados do Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil, assim como outras nações, ainda necessita de mudanças em relação aos direitos da mulher.
Lei Maria da Penha
Talvez a mais icônica seja a Lei Maria da Penha, sancionada em agosto de 2006, que viabilizou avanços estruturais no Poder Judiciário brasileiro e possibilitou a criação de juizados especializados em violência doméstica, implantação de delegacias especializadas de atendimento à mulher e redes interinstitucionais que envolvem o sistema de justiça, assistência social e políticas de saúde. Mas ela não diminuiu os números da violência, embora os tenha tornado mais visíveis.
Mas precisamos fortalecer políticas e práticas que considerem as desigualdades interseccionais, reconhecendo que as mulheres não vivenciam a discriminação da mesma forma. Mulheres negras, indígenas, mulheres com deficiência, mulheres em situação de pobreza, mulheres migrantes e refugiadas, bem como mulheres LGBTQIAP+ são as que mais sofrem.
Estrada da educação
Certamente, o caminho terá que ser pela estrada da educação. Mais escolarizadas, com presença crescente no mercado laboral e à frente de quase metade dos lares do País, as mulheres ampliam o protagonismo nas decisões econômicas — do consumo familiar ao empreendedorismo. Mas elas ainda carregam o maior percentual de insucesso exatamente por falta de crédito e acesso a assistência gerencial.
As mulheres já superam os homens em nível de escolaridade superior. Entre pessoas com 25 anos ou mais, 20,7% das mulheres têm ensino superior completo, contra 15,8% dos homens. Além disso, a proporção de mulheres com baixa escolaridade também é menor: 33,4%, frente a 37,3% entre os homens.
Mulheres CEOs
Mas o novo estudo da consultoria Bain & Company, entre 2019 e 2024, revela que o número de mulheres CEOs das 250 maiores empresas do Brasil dobrou, passando de 3% para 6%, e no conselho de administração, de 5% para 10%. No mesmo período, a presença feminina em cargos de gestão elevou-se de 23% para 34%. Mas não basta ter mais anos de educação; é preciso ter mais oportunidades dentro das empresas.
E não é porque elas não tentam ou se apresentam. Um estudo especial da Serasa Experian para o Dia Internacional da Mulher identificou mais de 2,6 milhões de mulheres, das quais 93% atuam como sócias de empresas, indicando um perfil majoritariamente formalizado, com participação societária ativa nos negócios.
Realidade financeira
Giovana Giroto, CMO e vice-presidente de Marketing Solutions da Serasa Experian, capturou uma realidade financeira apertada para uma parcela significativa dessas empreendedoras. Quase 40% (38,4%) das mulheres empreendedoras possuem renda de até R$ 2 mil mensais, enquanto mais de 11% possuem renda superior a R$ 10 mil. A capacidade financeira mensal de mais da metade do grupo é de até R$ 1 mil, e 47,3% apresentam alto nível de comprometimento da renda, entre 81% e 100%.
O estudo mostra ainda que 45,1% das empreendedoras utilizam o cartão de crédito como principal meio de pagamento, enquanto 32,6% apresentam forte afinidade com bancos digitais. Além disso, 84% desse grupo realiza compras online.
Motorista de aplicativo
É um dado preocupante: quase 64% apresentam afinidade com o perfil de motorista por aplicativo, o que revela identificação com modelos de renda flexível, gig economy, complementação financeira, além do uso de plataformas que permitem ajustar a dedicação conforme a sazonalidade do negócio.
Não é um dado bom. Ser motorista por aplicativo não está no topo da decisão de empreender; ser mulher nesse mercado é a precarização de sua vida pessoal e familiar pelos riscos que a atividade oferece.
Donas do caixa
O problema é que as mulheres brasileiras têm assumido papel cada vez mais central na organização financeira das famílias, acumulando responsabilidades econômicas e domésticas. A Serasa fez outro estudo em parceria com o Instituto Opinion Box, apurando que 34% das mulheres são as únicas responsáveis pelo sustento financeiro de seus lares.
O percentual é ainda maior entre mulheres com mais de 50 anos (36%) e nas classes D e E (45%), chegando a 43% na região Nordeste. Muitas delas, ao serem avós, assumem também as despesas dos netos.
O estudo apontou que o país registra mudanças na dinâmica financeira familiar: 85% das entrevistadas afirmam que as mulheres estão conquistando mais espaço nas decisões econômicas da casa e 87% consideram que essa contribuição é subestimada, mesmo sendo vital para o bem-estar familiar.
Elas negativadas
Mas elas representam metade do volume de pessoas em situação de inadimplência do país (50,4%), segundo o Mapa da Inadimplência do Serasa, não raro porque compraram para seus maridos e companheiros já negativados no mesmo cadastro.
De qualquer forma, mostram-nos que, apesar dos desafios, as mulheres ampliam sua participação econômica e fortalecem seu papel na sustentabilidade financeira das famílias brasileiras. E 67% dizem que seu trabalho é valorizado financeiramente pela própria família. O que é um enorme avanço dentro de sua casa. Mas temos um longo caminho para se fazer estrada com elas.
Mais mulheres líderes nos negócios
Um estudo global da Ipsos realizado para o Dia Internacional da Mulher revela que 56% dos entrevistados brasileiros acreditam que as mulheres (60%) não alcançarão a igualdade com os homens (52%), a menos que haja mais mulheres líderes nos negócios e no governo.
Na média de 29 países pesquisados, mais da metade das pessoas (54%) acredita que a igualdade depende da participação feminina em cargos de poder. A igualdade de gênero é uma questão importante para 67% dos brasileiros (72% das mulheres brasileiras).
Elas no comando
O novo estudo da consultoria Bain & Company, entre 2019 e 2024, revela que o número de mulheres CEOs das 250 maiores empresas do Brasil dobrou, passando de 3% para 6%. E no conselho de administração, de 5% para 10%. No mesmo período, a presença feminina em cargos de gestão elevou-se de 23% para 34%.
Botão de alerta
O botão do pânico - presente no Aplicativo SOS - transforma o celular da vítima em um dispositivo de emergência conectado diretamente à central de monitoramento já é utilizado por mais de 140 municípios brasileiros que adotaram a plataforma Muralha Digital Sentry.
O número pequeno de cidades com uso da tecnologia de alertas sobre segurança feminina no Brasil embute uma estatística alarmante: o país nunca registrou tantos feminicídios. Em 2025, foram 1.568 mulheres assassinadas – uma média de quatro mortes por dia, segundo dados levantados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Mulher voando
Um levantamento da aérea mostra a evolução da presença feminina em seus voos entre 2018 e 2025. Em 2018, 38% dos clientes eram mulheres e, no ano passado, elas representaram 46% do total. A faixa etária das viajantes entre 25 e 30 anos foi a que mais cresceu, praticamente dobrando desde 2018 e concentrando 22% das clientes em 2025.
Mulher na Fórmula E
As mulheres estão ampliando sua presença no Campeonato Mundial ABB FIA de Fórmula E, que, para expandir oportunidades no campeonato totalmente elétrico, fez este ano dois testes exclusivos para mulheres, dando a 21 mulheres-pilotos a oportunidade de conduzir o carro de corrida.
A iniciativa já levou sete participantes a garantir funções como pilotas novatas. Abbi Pulling: piloto novata e de simulador, Alice Powell: piloto de testes oficial da Envision Racing Formula E, Bianca Bustamante: piloto de desenvolvimento, CUPRA Kiro. Ella Lloyd: piloto novata da NEOM McLaren Formula, Jamie Chadwick: piloto oficial de testes oficial da Jaguar TCS Racing. Tatiana Calderón: piloto de Treino Livre da LOLA Yamaha ABT e Nerea Martí: embaixadora da equipe, Andretti Formula E.
Quem decide
Um estudo da plataforma digital especializada na intermediação de operações de crédito , feito pela plataforma Bext , revela que quando se trata da escolha do imóvel da família, a palavra final é quase sempre das mulheres. A pesquisa, que ouviu mais de 8 mil pessoas em todo o país, entre homens e mulheres, revelou que 80% das operações financeiras para compra de imóvel por pessoas físicas só avançam com o aval feminino.
Mulheres na bets
Dados do Painel das Bets, nova ferramenta do Aposta Legal para acompanhar o mercado, mostram que, em 2025, as mulheres passaram a representar 37% dos apostadores no país, considerando apenas as casas esportivas legalizadas. O aumento da participação feminina também traz à tona alertas sobre os impactos emocionais e financeiros das apostas. Em 2024, o Ministério da Saúde registrou 896 atendimentos relacionados à ludopatia no Brasil. Desse total, 515 foram de mulheres, o equivalente a 57% dos casos.
Mulheres na Tambaú
A empresa pernambucana Tambaú Alimentos tem 22% dos seus 800 colaboradores mulheres. Cargos estratégicos da indústria são ocupados por mulheres, como a diretoria industrial, gerências de P&D, marketing, RH, contabilidade, entre outras. Sua diretora industrial da Tambaú, Francisca Melo, diz que as mulheres transformam a indústria, mas o sucesso não tem gênero.
Artesanato digital
As mulheres têm transformado habilidades criativas em fonte de renda ao migrar do artesanato tradicional para o artesanato digital, movimento apoiado por ferramentas tecnológicas que ampliam a produtividade e profissionalizam a produção. Segundo levantamento realizado pela Cricut no Brasil em 2025, por meio de pesquisa sobre comportamento no mercado de artesanato criativo no país, quase 20% dos entrevistados afirmam produzir itens para venda.
Meu carro feminino
Como elas encaram a decisão de comprar ou trocar de carro? Levantamento da Vittória — “Dona Meu Destino” — ouviu participantes de diferentes regiões do país e indica que, para a maioria, esse processo ainda é marcado por insegurança e forte dependência de apoio externo na tomada de decisão.
Na mostra, 23,2% das mulheres afirmaram que pretendem fazer isso em até um ano, enquanto 12,6% em até dois anos e 8,9% projetam em até três anos.
Em relação à posse do carro, 62,1% afirmaram que têm veículo próprio e o utilizam sozinhas. Outros 23,07% disseram que o carro é da família e dividido com outros membros. Para 39,5%, a família é quem mais ajuda ou ajudaria no momento da compra. Outros 23,7% disseram contar principalmente com o parceiro ou parceira, enquanto 16,8% recorrem a pesquisas na internet. Apenas 10,5% afirmaram que tomam a decisão sozinhas.
Elas do comércio
No dia 25 de março, em Brasília, a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) realizou a edição de março da reunião da Câmara Brasileira das Mulheres Empreendedoras do Comércio (CBMEC). O encontro enaltece o protagonismo feminino nos espaços decisórios como ferramenta de inclusão e desenvolvimento.