Economia | Notícia

Crise no mercado de trabalho, fé e conservadorismo reacendem o interesse dos jovens pela carreira militar no Brasil

Com desemprego de 12% entre jovens, 43,9% dos brasileiros de 16 a 26 anos veem na farda uma chance de estabilidade e ascensão social no País

Por Adriana Guarda Publicado em 10/10/2025 às 20:05 | Atualizado em 18/10/2025 às 11:24

Clique aqui e escute a matéria

Num país de mercado de trabalho imprevisível e futuro incerto, o uniforme militar voltou a representar segurança para boa parte da juventude brasileira. Um estudo inédito mostra que 43,9% dos jovens entre 16 e 26 anos consideram seguir carreira militar ou policial — um dado que reflete o peso do desemprego, da insegurança profissional e também o avanço de valores conservadores e religiosos entre as novas gerações.

A pesquisa, publicada na revista Armed Forces & Society, foi conduzida por pesquisadores do King’s College London, UFPE, UFMG, USP, UFSCar e Sciences Po, e coordenada pela cientista política Andreza de Souza Santos, professora e diretora do Brazil Institute no King’s College London, em Londres.

O pesquisador Dalson Figueiredo, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), explica que o estudo nasceu de uma rede internacional de cientistas políticos. “O projeto original foi idealizado por Andreza, que na época era professora na Universidade de Oxford e diretora do Programa de Estudos Brasileiros. Em 2022, com financiamento da Capes, fui fazer um estágio de pós-doutorado no Latin America Centre, em Oxford. Dessa interação surgiu o convite para participar da pesquisa que já estava em andamento”, relata.

A farda como alternativa de sobrevivência

ESTEVAM/ Exército/Divulgação
O desejo de "pertencer a algo maior" aparece como motivação entre jovens que associam a carreira à disciplina e ao prestígio naciona - ESTEVAM/ Exército/Divulgação

Os efeitos da crise continuam visíveis. Segundo a Pnad Contínua do IBGE, no segundo trimestre de 2025 o desemprego entre jovens de 18 a 24 anos chegou a 12%, mais que o dobro da média nacional (5,6%). É nesse cenário de desigualdade e incerteza que o estudo ganha força: mostra que os jovens que mais sentiram a crise foram também os que mais demonstraram disposição para vestir o uniforme — seja nas Forças Armadas ou nas polícias militares.

Para Dalson, a explicação é essencialmente econômica. “Dados recém-divulgados do IBGE, relativos ao Censo de 2022, indicam que mais de um terço dos trabalhadores brasileiros ganham até um salário mínimo. Cerca de 33% ganham entre um e dois salários. Juntos, esses percentuais se aproximam de 70% da população”, destaca. “O concurso público, seja ele para as Forças Armadas ou para a Polícia Militar, fornece um caminho financeiramente melhor, além do status subjetivo dos cargos.”

Andreza reforça que a vocação muitas vezes é substituída pela necessidade. “Quando a entrada na carreira é motivada por uma questão de sobrevivência, o compromisso com a profissão pode ser menor — e isso é corroborado por outras pesquisas”, afirma. “Quando as pessoas entram na carreira militar apenas por sobrevivência, elas podem usá-la como trampolim para melhores oportunidades.”

Dalson pondera, no entanto, que a evasão tende a ser baixa. “Em geral, quando um PM decide abandonar a força é porque foi aprovado em outro concurso considerado melhor, como o de delegado, por exemplo.”

Conservadorismo, fé e disciplina

Aeronáutica/Divulgação
Negros e pardos representam 30% dos jovens interessados na farda, sobretudo nas polícias, onde a carreira é vista como via de ascensão e respeito - Aeronáutica/Divulgação

O estudo revela que entre os jovens que consideram seguir carreira militar ou policial, 61% são homens, 30% negros ou pardos e 31% evangélicos — especialmente nas polícias. Já nas Forças Armadas, predominam homens brancos e conservadores, movidos por valores como ordem, hierarquia e patriotismo.

“As carreiras militares têm um componente religioso forte: há cultos, missas e uma socialização ligada à religiosidade dentro das instituições”, observa Andreza. “São carreiras conservadoras, nas quais, por exemplo, não se vê um movimento LGBT+ organizado. Existe uma espécie de profecia autorrealizável — quem tem um perfil menos heteronormativo ou mais alternativo tende a se autoexcluir dessas carreiras. Por consequência, elas acabam atraindo pessoas com um perfil mais conservador, o que reforça esse padrão.”

Dalson explica que essa correlação foi testada de forma objetiva. “Testamos a hipótese de que o jovem com perfil mais conservador seria mais propenso a seguir esse tipo de carreira. Os modelos estatísticos não só confirmaram essa expectativa, como também indicaram que existe um recorte de sexo, de religião e de raça”, detalha.

A pesquisa também mostra que ser cristão, especialmente evangélico, aumenta a propensão de o jovem escolher as polícias militares. Essa convergência entre fé, disciplina e moralidade cria uma identificação com a estrutura hierárquica das forças de segurança. “Entre os jovens mais conservadores, a questão socioeconômica não é tão relevante. Já entre os menos conservadores, o fator econômico é determinante. Em ambos os casos, a carreira militar oferece algo que falta em outras áreas: previsibilidade”, analisa Andreza.

Desigualdade e busca por status

DYANDHRA MONTEIRO/TV JORNAL
Cerimônia de formatura dos novos policiais militares, na Arena Pernambuco - DYANDHRA MONTEIRO/TV JORNAL

A cor da pele e a desigualdade social também são determinantes. O levantamento mostra que negros e pardos estão mais presentes nas polícias do que nas Forças Armadas — reflexo da falta de oportunidades civis e da busca por ascensão social.

“Outros estudos mostram que a carreira policial é um espaço onde esses jovens conseguem se sentir integrados socialmente”, afirma Andreza. “Há uma mudança simbólica — ‘eu não sou mais preto, agora sou azul’ — em referência à cor da farda e ao novo status que ela representa.”

Dalson complementa que essa percepção está enraizada em fatores históricos. “As carreiras militares sempre promoveram status e possibilidade de ascensão social — incluindo mobilidade econômica — a uma população de relativamente baixa escolaridade, principalmente entre as patentes inferiores, no caso da Polícia Militar. Uma carreira estável e com um salário que em média é superior ao de outras pessoas que não tinham o ensino superior completo sempre fizeram dessas carreiras muito atrativas.”

A estabilidade que resiste à crise

Montagem/JC
Pesquisa identificou perfil dos jovens que desejam seguir carreira militar ou policial no País - Montagem/JC

Além dos fatores econômicos e simbólicos, há o peso da confiança institucional. Dalson lembra que as Forças Armadas historicamente desfrutam de alto nível de confiança da população. “Em algumas regiões do país, as polícias militares também têm essa imagem. Onde não são vistas como confiáveis, ainda assim são sinônimo de estabilidade econômica e respeito”, explica.

Segundo ele, a atratividade dessas carreiras tende a crescer justamente nos momentos de incerteza. “O que muda em períodos de crise econômica é a oferta de oportunidades no mercado de trabalho civil, algo que não se reflete plenamente nas carreiras militares, que continuam em expansão”, observa.

Andreza concorda que as forças de segurança cumprem um papel legítimo de ascensão social, mas alerta para os limites. “É ótimo que os concursos militares representem uma possibilidade real de ascensão, sobretudo para o jovem negro e pobre. Mas isso não pode ser a única via”, afirma. “Precisamos de políticas públicas que facilitem a inserção dos jovens no mercado de trabalho, com estabilidade e propósito, fora da farda.”

Juventude, ordem e pertencimento

Mais do que um retrato sobre escolhas individuais, a pesquisa reacende o debate sobre o equilíbrio entre as carreiras civis e militares no Brasil e a influência crescente da farda na formação de valores da juventude.

“Nosso objetivo é compreender melhor o lugar da juventude num mundo em transformação”, resume Andreza. “Se os jovens buscam ordem, estabilidade e pertencimento nas forças militares, é porque esses valores estão em falta na vida civil. E isso é algo que deve nos fazer pensar.”  

Compartilhe

Tags