Cartão de crédito: como fazer uso consciente e contornar o rotativo
Transações com cartões de crédito cresceram 9,3% no primeiro trimestre de 2025, atingindo a marca de R$ 1,1 trilhão, de acordo com a Abecs

Clique aqui e escute a matéria
A inadimplência das famílias no crédito com recursos livres aumentou de 6,3% para 6,5% de junho para julho, segundo o Banco Central (BC). O acréscimo eleva a inadimplência ao maior patamar desde maio de 2013 (6,6%), ou seja, um recorde de mais de 12 anos.
Os dados também apontam o maior vilão do cenário: o cartão rotativo. O juro médio total cobrado pelos bancos no rotativo do cartão de crédito subiu 6,1 pontos percentuais entre junho e julho, de 440,5% para 446,6% ao ano, ainda de acordo com o BC.
“O crédito rotativo é acionado quando a pessoa não paga o valor total da fatura do cartão e quita apenas o mínimo. A diferença entre o valor total e o que foi pago entra automaticamente no rotativo. O juro é alto porque funciona como um empréstimo sem garantia. O banco se arrisca a não receber esse valor, então coloca um juros alto para compensar esse risco”, explica o consultor e planejador financeiro Hélio Mota.
O consultor afirma que o spread - diferença percentual entre a taxa de juros que o banco cobra dos tomadores de crédito e a taxa de juros que ele paga aos depositantes e investidores para captar recursos - no Brasil é um dos maiores do mundo. “Justamente porque os bancos embutem nas taxas de juros a inadimplência e margem de lucro. O juros sobre crédito rotativo pode chegar a 300% por ano. Uma dívida de R$ 500 chegaria a R$ 2 mil em 12 meses”, acrescenta.
Hélio também orienta evitar o uso do cartão até quitar a dívida para interromper o efeito “bola de neve”, que consiste no acréscimo do saldo devedor com o tempo por não conseguir pagar o valor total. “Caso não seja possível evitar o uso do cartão, tentar pagar sempre mais que o mínimo, diluindo o montante no rotativo a médio prazo. E o principal, buscar um profissional da área para montar um orçamento equilibrado”, complementa.
Vale a pena usar o cartão de crédito?
Dados da Associação Brasileira de Cartões (Abecs) revelam que as transações com cartões cresceram 9,3% no primeiro trimestre de 2025, atingindo a marca de R$ 1,1 trilhão. Esse volume mostra a relevância do cartão como meio de pagamento no país. Diante desse cenário, surge a pergunta: o cartão de crédito é um aliado das finanças pessoais ou uma armadilha?
O consultor financeiro lista alguns benefícios do cartão de crédito, como a “segurança nas compras, por conseguir estorno com mais facilidade em caso de fraude”. Ele também destaca vantagens adicionais: “Alguns cartões possuem seguro-viagem, e até seguro proteção de compra, que permite a você receber um estorno parcial de um produto caso encontre o mesmo mais barato em um período curto. Além do acesso a salas VIP em aeroportos e acúmulo de milhas”.
De acordo com Hélio, o principal benefício do cartão é a possibilidade de concentrar todas as despesas em um único lugar, facilitando a visualização de como o dinheiro está sendo gasto. “Hoje, vários cartões permitem categorizar as despesas. Isso é fundamental para ter um maior controle e consequentemente poupar mais dinheiro”, afirmou.
Ele alerta para os riscos de usar o crédito como uma extensão de renda. “É preciso ter um limite compatível com o que você ganha”. E exemplifica: “Se o indivíduo gasta mais do que ganha no cartão de crédito ou parcela em excesso - o que pode acarretar um problema futuro, um efeito cascata - ou parcela a sua fatura, o que significa que está pagando juros abusivos. Aquela função de pagar o mínimo da fatura, o crédito rotativo, pode acarretar 300% de juros no ano.”
Hélio ressalta que a junção de parcelamentos em excesso, juros abusivos e consumo impulsivo leva a situações de dívida a longo prazo. “O endividamento com cartão no Brasil nasce da combinação de juros altíssimos, baixa educação financeira, crédito fácil e consumo impulsivo. Na prática, o problema não é o cartão em si, mas a forma como ele é usado”.
Utilizar vários cartões é um exemplo de uso com potencial problemático. E, de acordo com um estudo feito pela Visa, o cartão de crédito é o método escolhido em 47% das ocasiões de compra, seguido pelo Pix (28%), débito (20%) e dinheiro (5%). O levantamento também revela que apenas 25% dos consumidores utilizam um único cartão de crédito - isso significa que 75% usam dois ou mais.
Dicas para planejamento financeiro
O especialista também elenca dicas para ajudar no planejamento financeiro do cartão:
- Utilizar um único cartão emissor;
- Solicitar cartões de dependentes para os membros da família;
- Estabelecer o limite do cartão 10% menor que a renda familiar;
- E concentrar todos os gastos e categorizar.
Hélio destaca a importância da criação de um planejamento financeiro e a procura de um profissional da área para montar um orçamento equilibrado.
Pix parcelado
Consolidado como meio de pagamento preferido no País em 2024, o Pix contará ainda em 2025 com parcelamento de compras. De acordo com Hélio, a novidade pode afetar o uso do cartão de crédito por ter taxas menores.
“Para aqueles consumidores que costumam ficar inadimplentes ou usar o crédito rotativo pode ser uma boa saída. Mas para aqueles que já fazem uso do cartão de forma correta, as vantagens do cartão com os programas de benefícios como milhas são um atrativo maior”, explica.
O consultor ressalta a importância de um planejamento financeiro para evitar a má gestão dos gastos e o endividamento “bola de neve”, que só cresce com o decorrer do tempo.