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"Sem o Carnaval do Recife, não seríamos tão felizes", diz Elba Ramalho

Em entrevista ao Jornal do Commercio, cantora fala sobre saudade, pertencimento e afirma que a perda da festa seria um luto para o Brasil

Por Eduardo Scofi Publicado em 13/02/2026 às 12:24 | Atualizado em 13/02/2026 às 12:33

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Fevereiro não é apenas um mês no calendário de Elba Ramalho. É território simbólico, memória coletiva e celebração que atravessa décadas. Quando perguntei a Elba Ramalho se fevereiro ainda era capaz de transformar saudade em alegria, ela, com firmeza, respondeu que sim.

Falou de afeto, de memória e da força coletiva que atravessa o Carnaval pernambucano. Não tratou a festa como espetáculo, mas como experiência que se vive em conjunto, mesmo quando se parece estar sozinho.

Na entrevista que fiz com a artista, a palavra identidade apareceu com naturalidade. Cidadã pernambucana por título e por escolha, Elba falou do orgulho do recifense, do arrepio ao ouvir os primeiros acordes de “Leão do Norte” e do momento em que o palco deixa de ser dela para pertencer à multidão.

Por fim, ao provocar a hipótese de um Brasil sem o Carnaval do Recife, recebi uma resposta direta: seria luto. Para ela, a festa não é apenas tradição. É uma das expressões mais fortes de quem somos como povo, como nação.


Entrevista com Elba Ramalho

Jornal do Commercio - Quando fevereiro chega, a saudade realmente deixa de doer ou ela se transforma? O Carnaval para você é cura, reencontro ou também é um exercício constante de memória? Você sente que hoje canta para lembrar ou para construir novas lembranças?

Elba Ramalho: Saudade é a lembrança de um amor, é recordar um carinho, é resgatar um afeto. O carnaval é uma manifestação popular incrível. Você pode até brincar sozinho, mas você é parte integrante de um bloco e tudo acontece em função da música. Sua pergunta tem muitas camadas e cada um vive a experiência de um jeito, com sua maturidade, ou não. Eu diria que é um pouco de tudo. Tem saudade, tem memória, tem alegria e pode ter cura também.

JC - Se a saudade te puxou pelo braço tantas vezes, o que é que ainda te chama de volta ao Carnaval pernambucano? É a multidão, é a rua, é a tradição ou é algo que não se explica? Existe um Recife que só aparece no Carnaval?

Elba Ramalho: Só tem pergunta difícil, risos. Minha relação com a cultura pernambucana é muito próxima. Me sinto cidadã, tenho o título de cidadã, gravei DVD no Marco Zero, produzi vários discos com produtores pernambucanos e me sinto acolhida aqui. Sim, o carnaval aqui é diferente. Cada cidade tem suas características e seus méritos. O recifense tem orgulho da cidade e do seu carnaval. E eu também.

JC - Quando você canta “Frevo Mulher” em pleno Carnaval, você sente que está fazendo um show ou conduzindo uma espécie de celebração popular onde a fé não é necessariamente religiosa, mas é fé na cultura, na resistência e na própria alegria?

Elba Ramalho: Eu sinto que estou levando alegria. A minha fé é inabalável e tenho a minha religião. A música é a mais universal de todas as artes. A união em função da alegria e da música são muito importantes.

JC - Depois de tantos palcos no Brasil e no mundo, o que ainda faz você sentir que está de volta ao aconchego quando canta no Carnaval pernambucano? Existe um momento específico do show em que você percebe que está em casa?

Elba Ramalho: Na verdade são muitos momentos. Os primeiros acordes de Leão do Norte ainda me fazem arrepiar. De imediato a plateia identifica e chega junto. Eu me sinto em casa quando o papel se inverte. Eu estou no palco, mas quem está fazendo o show é a multidão. Parece que eu apresento apenas o caminho e o povo é que realmente faz o show.

JC - Elba, se o Carnaval pernambucano deixasse de existir amanhã, o que você acha que o Brasil perderia que ainda não percebeu que tem? O que mudaria em você como artista?

Elba Ramalho: Ainda bem que não existe esta possibilidade, mas certamente seria um luto. O Brasil não conhece o Brasil e temos muito que evoluir em diversos aspectos. Perder o carnaval do Recife seria perder a identidade de um povo, seria um retrocesso em todos os aspectos. Sem o carnaval do Recife, certamente não seríamos tão felizes.

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