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Elefante de Olinda: como um biscuit virou tradição em Olinda

Fundado em 1952 e reconhecido como Patrimônio Vivo, o clube atravessa gerações entre música, improviso e resistência em um Carnaval mais disputado

Por Eduardo Scofi Publicado em 08/02/2026 às 6:00

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Ao som dos clarins de Momo, o Carnaval se aproxima e o povo aclama com todo ardor. O verso do hino do Clube Carnavalesco Misto Elefante de Olinda antecipa, há mais de sete décadas, a chegada de uma das agremiações mais tradicionais do Carnaval pernambucano.

Fundado em 12 de fevereiro de 1952 e reconhecido como Patrimônio Vivo de Pernambuco, o Elefante construiu sua trajetória entre a música, a rua e a memória popular. Seu hino, composto por Clídio Nigro em parceria com Clóvis Vieira, não canta apenas um clube, mas exalta Olinda, seus coqueirais, seu sol e seu povo.

Entre confetes e serpentinas, o Elefante atravessou gerações, períodos de apagamento e retomada, sem nunca deixar de sair às ruas. Mais do que um desfile, tornou-se uma forma de brincar o Carnaval e de afirmar a identidade cultural de Olinda.

Clube Elefante de Olinda
O Elefante de Olinda em desfile pelas ladeiras do Sítio Histórico - Clube Elefante de Olinda

O dia em que um biscuit virou clube

A história do Elefante de Olinda não começa com um estatuto, nem com um desfile organizado. Começa com uma casa, uma festa e um boneco. Na Rua do Bonfim, durante uma confraternização regada a bebida e riso, um pequeno elefante de biscuit desapareceu da casa de Dona Linda e do Português.

Foi parar nos Quatro Cantos, equilibrado na cabeça de um dos rapazes, o “gaiato” do grupo, como lembra Dora Nigro, filha de Clídio Nigro e irmã do Fernando, atual presidente do clube.

“Eu não sei o que ele pensou na hora, só sei que acho que botou ele na cabeça e veio-se embora para os Quatro Cantos. Lá, alguém deu falta, olharam um para o outro e viram que Cláudio não estava. Aí disseram que só pode ter sido o Cláudio”, relata.

O objeto foi devolvido, mas a ideia ficou. No ano seguinte, aquele grupo de amigos decidiu sair junto no Carnaval.

No início, não havia estandarte, era mais improvisado. As cores vieram da camisa do Bonfim Futebol Clube, vermelho e branco, e ficaram. A brincadeira cresceu, ganhou nome, corpo e som. “No primeiro ano, o Elefante saiu sem um estandarte mesmo, foi tudo improvisado”, explica Bruno Firmino, diretor do Elefante.

Clube Elefante de Olinda
As cores vermelho e branco do Elefante de Olinda foram inspiradas na camisa do Bom Fim Futebol Clube - Clube Elefante de Olinda

Antes das camisas padronizadas, o pertencimento vinha do gesto. Dora relembra que “todo mundo colocava um ‘E’ na testa para identificar que o Elefante estava chegando. Não tinha camisa, mas tinha amor ao clube”.

O que era espontâneo virou tradição e o Elefante passou a ocupar as ruas de Olinda como quem reivindica um lugar que sempre foi seu.

MARLON DIEGO
Antes das camisas padronizadas, brincantes do Elefante marcavam um "E" na testa para indicar que o bloco estava chegando - MARLON DIEGO

Quando a casa vira sede

A entrevista acontece na casa da família Nigro, em Olinda, espaço que hoje funciona, na prática, como um dos pontos de apoio do Elefante. O clube não possui sede própria e opera de forma dispersa pela cidade.

“Hoje em dia, a gente trabalha de maneira improvisada”, explica Bruno Firmino. “Os materiais ficam nas casas dos diretores. Fica alguma coisa aqui na casa de Dora, fica algo na casa do meu irmão, algo na casa de outro diretor. A gente espalha os materiais do clube pelas casas.”

Junior Souza/JC Imagem
Bruno Firmino, diretor do Elefante de Olinda, e Dora Nigro, filha do compositor do hino, durante a entrevista na casa da família Nigro - Junior Souza/JC Imagem

Segundo ele, essa condição interfere diretamente na organização do desfile. “Quando a gente tem um desfile, a gente agrupa isso e leva para o desfile. Hoje a gente tem uma sede que está no processo de reintegração de posse, mas, enquanto isso, a gente trabalha dessa forma.”

Uma canção para Olinda

Se o Elefante ainda não tem um endereço fixo, tem voz. O hino funciona como elo entre passado e presente, entre casa e rua. Dora fala do pai, Clídio Nigro, como quem conta sobre alguém que nunca separou arte e vida.

“Meu pai foi compositor não só de música carnavalesca, fazia música também sem ser carnavalesca, poesia”, lembra. “E, para ele, fazer música não tinha nenhuma arrogância. Era o amor que ele tinha à cidade de Olinda.”

Junior Souza/JC Imagem
O Carnaval de Olinda de 1982 homenageou Clídio Nigro, compositor do hino do Elefante e pai de Dora Nigro - Junior Souza/JC Imagem

Esse amor atravessou o tempo. “O hino do Elefante foi tocado bastante e se tornou praticamente o hino do Carnaval”, diz Dora. “Os turistas podem não saber cantar nada, mas o hino do Elefante eles cantam, fica gravado na cabeça.”

Para Bruno, essa força simbólica ajuda a explicar o que o Elefante representa hoje. “O Elefante é muito mais que uma agremiação. É um modo de enxergar a forma que a gente brinca Carnaval, a forma que a gente está na rua.”

Ele define essa identidade como uma escolha. “A ideia da gente é fazer uma brincadeira democrática, acessível, com o frevo como carro-chefe, uma brincadeira que todo mundo pode participar.”

Dora reconhece essa lógica na prática antiga do clube pois, segundo ela, “o Elefante tinha ala masculina e ala feminina, participada pelas pessoas da comunidade, pelos vizinhos e amigos. As moças da cidade se comprometeram a sair e fazer a festa ficar ainda mais bonita.”

Clube do Elefante de Olinda
Mulheres do Elefante de Olinda em registro antigo do bloco, representando a participação feminina na construção do Carnaval de rua - Clube do Elefante de Olinda

Um Carnaval em disputa

Ao falar do Carnaval atual, a fala de Dora Nigro desacelera e ganha incômodo. “O que eu sinto é uma coisa muito triste. O Carnaval de Olinda está tomando um rumo meio diferente.”

Para ela, o principal problema está na falta de organização e de controle por parte do poder público. “Há um descontrole geral. Muita gente, mas pouca estrutura. Isso faz com que as agremiações antigas e clubes de rua não consigam desfilar como saíam antes.”

A ausência de fiscalização aparece como um dos pontos mais sensíveis. “Se diz horário e o clube não sai no horário”, afirma. Segundo Dora, a ocupação irregular das vias inviabiliza o desfile, pois “a multidão é grande demais e tem carro na rua, que é proibido”.

Essa realidade interfere diretamente na rotina dos clubes tradicionais. “Fica interrompido, desarranjado, barulhento e sem andar porque outros clubes, principalmente os mais novos, não seguem a programação oficial.”

Bruno Firmino confirma que a mudança de horário do Elefante não é uma escolha estética, mas uma estratégia de sobrevivência. “Pelas dinâmicas do próprio Carnaval, a gente foi trazendo o horário para um pouco mais tarde. Se a gente sair mais cedo, não consegue desfilar pela quantidade de gente na rua e pelos obstáculos.”

Dora conta que a solução passa por um princípio básico de organização do espaço público. “Por que [a prefeitura de] Olinda não pode fazer isso? É isso que precisa, deixar a rua livre para o povo brincar no Carnaval.”

O resultado é um Carnaval cada vez mais disputado, em que clubes históricos precisam negociar espaço e tempo para continuar existindo. Entre a multidão e a tradição, o Elefante segue ajustando seus passos para não deixar de passar.

Entre memória, esforço e permanência

Manter o Elefante na rua, hoje, exige esforço contínuo e mobilização coletiva. “O maior desafio para a gente é viabilizar financeiramente”, explica Bruno Firmino. “Os custos são muito altos para garantir um desfile que seja bonito, confortável para quem brinca e adequado para quem trabalha.”

Para cobrir parte dessas despesas, o clube aposta na venda de camisas, bolsas e outros adereços, estratégia que transforma o apoio do público em condição concreta de existência do desfile.

“É um prazer enorme contribuir para uma instituição que ajudou a desenhar o Carnaval de Olinda e de Pernambuco”, diz Bruno, ao falar da responsabilidade de manter viva uma tradição que atravessa gerações.

Clube Elefante de Olinda
Símbolo do Carnaval olindense, o Elefante segue desfilando mesmo diante dos desafios - Clube Elefante de Olinda

Dora retorna à origem para explicar o sentido dessa continuidade. “Tudo o que meu pai fazia era em prol da comunidade. Meu pai dizia que, quando morresse, queria que aquilo permanecesse, assim como toda a minha família.”

Entre casas que viram sede, músicas que entram para a história e ruas cada vez mais disputadas, o grande Elefante segue passando. Não como lembrança de um Carnaval que já foi, mas como insistência viva de um modo de brincar que ainda resiste, sustentado por quem canta, compra, organiza e acredita que a rua continua sendo lugar de encontro.

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