Bloco lírico, suas cordas e seus retalhos de permanência
Com mais de duas décadas de história, o bloco Cordas e Retalhos reafirma o lirismo como prática cultural viva e espaço de transmissão de saberes
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Só quem já ouviu, em coro, acompanhado de trompetes, cordas e tambores, alguém cantar que o Recife tem o ‘carnaval melhor desse Brasil’, sabe que esse verso não é apenas uma afirmação festiva. Ele carrega memória, existência e uma forma muito particular de ocupar e pertencer à rua.
Há algo sutil, mas potente, que acontece quando as vozes cantam juntas, em cadência mais lenta, quase como se o tempo do cotidiano precisasse desacelerar para caber naquele instante.
É nesse momento específico que os blocos líricos se afirmam como linguagem viva do carnaval pernambucano. Sustentados pelo frevo de bloco, pelo chão, pela orquestra de pau e corda e pelo coral feminino, eles atualizam a tradição sem aprisioná-la ao conservadorismo.
Entre grandes exemplos, o bloco Cordas e Retalhos construiu, ao longo de mais de duas décadas, uma trajetória que reafirma o lirismo como prática cultural ativa, capaz de atravessar gerações e manter o carnaval como território de resistência, criação e continuidade.
O lirismo que se constrói no tempo
Os blocos líricos se distinguem pela forma como organizam som e presença na rua. Executam o frevo de bloco, também chamado de marcha de bloco, sustentado por orquestras de pau e corda e por um coral majoritariamente feminino, responsável por conduzir a melodia e o sentido da canção.
Diferente do frevo instrumental das troças e clubes, essa música é cantada, mais interpretativa e compassada, feita para ser compartilhada entre os foliões. O apito transporta para o local da execução musical, as vozes se sobrepõem, e as vielas passam a funcionar como espaço de vivência coletiva.
Fundado em 1998, no bairro do Engenho do Meio, o Cordas e Retalhos nasce dentro dessa tradição, mas cresce no contemporâneo, ajudando a atualizar a história. Inicialmente registrado como bloco carnavalesco misto, o grupo adotou oficialmente, a partir dos anos 2000, a denominação bloco carnavalesco lírico, em um movimento pioneiro e pensado.
Para um de seus fundadores, Julio Vila Nova, o “bloco carnavalesco lírico e bloco carnavalesco misto são exatamente a mesma coisa, são dois nomes para identificar a mesma realidade”.
Ao longo de mais de duas décadas, passou a ser reconhecido não apenas como agremiação carnavalesca, mas como espaço de pesquisa, formação e salvaguarda cultural. A escolha dos temas, o cuidado com as fantasias, o repertório que dialoga com diferentes momentos da história do frevo e a atuação contínua durante todo o ano reforçam a ideia de que o lirismo ali não é sinônimo de passado.
“Existe uma leitura de que o bloco lírico é essencialmente passadista, mas a gente sempre tentou desconstruir isso”, diz Júlio. “O carnaval fala do presente, da vivência, daquilo que está sendo vivido agora.”
Ao atualizar a tradição sem descaracterizá-la, o bloco reafirma que o lirismo não é sinônimo de passado, mas uma forma específica de estar no presente, cantando a cidade e suas transformações.
O feminino no nome e na presença
A presença majoritária de mulheres é uma das marcas mais evidentes dos blocos líricos. Para Julio Vila Nova, a manifestação nasce justamente em um contexto em que o carnaval de rua era visto como “uma coisa violenta e perigosa”, o que afastava a participação feminina. A criação dessas agremiações mistas, ainda pelos anos de 1920, abriu caminho para que as mulheres também pudessem ocupar a rua e brincar o carnaval, transformando essa presença em elemento estrutural, e não exceção.
Essa ocupação é lembrada e atualizada por quem hoje sustenta o canto do bloco. Para Ana Pottes, coralista do bloco, a presença feminina nos blocos líricos representa uma conquista histórica. “As ruas eram, no passado, um espaço masculino, principalmente no carnaval, com brigas constantes. As meninas não brincavam nas ruas. O surgimento dos blocos líricos trouxe as filhas, as esposas, as primas e as meninas para a rua”, afirma. Segundo ela, “as vozes femininas dos corais daquela época representaram a ocupação de um espaço, de um território, que hoje a gente mantém essa conquista”.
Não por acaso, o Cordas e Retalhos optou por não adotar a denominação tradicional de bloco carnavalesco misto. A inscrição do “M”, de misto, comum no início do século passado, servia para indicar que uma agremiação congregava homens e mulheres em um espaço antes dominado por homens. No caso do bloco lírico, essa distinção perde sentido. “Não apenas há espaço para as mulheres, como elas são a grande maioria”, observa o fundador.
No Cordas e Retalhos, essa configuração é visível em qualquer desfile. A ala masculina é reduzida, enquanto o coral feminino assume o papel central de conduzir a canção e a emoção coletiva. “Elas estão representadas no coral feminino, que é exatamente a voz dos blocos”, afirma Júlio. É por meio dessas vozes que o lirismo se expande e, além da saudade, incorpora crítica, humor e presença no tempo presente.
“Representar a voz do bloco enaltece essa força. Assim como a figura do abre-alas, a flabelista que carrega o flabelo é sempre uma figura feminina. As vozes do coral e a flabelista, representadas por mulheres, confirmam um espaço público conquistado no passado. É história e luta pelos nossos direitos”, diz Pottes.
Nesse movimento, o lirismo se afirma como política cultural. Ao ocupar a rua com canto coletivo feminino, o bloco ressignifica a ideia de delicadeza e a transforma em permanência. O que se ouve é uma tradição que segue viva porque continua sendo cantada.
Carnaval lírico como salvaguarda e futuro
O carnaval pernambucano se constrói como espaço de disputa desde a origem. Muito antes de ser vitrine ou produto turístico, ele nasce do confronto social, da ocupação da rua por trabalhadores e por uma população negra lançada à marginalidade no período pós-abolição.
“O frevo é construído em um ambiente de disputa, de confronto, de uma classe trabalhadora excluída” e da necessidade de marcar presença em um espaço que, historicamente, tentou ser regulado e contido. “Depois da abolição, essas pessoas foram largadas à própria sorte, sem política pública”, afirma. É dessa experiência social que nasce a força simbólica da festa, não apenas como um espetáculo. Mas sim, a partir desses povos periféricos e marginalizados, que o carnaval segue vivo.
Os blocos líricos, muitas vezes lidos de forma equivocada como manifestações distantes dessa realidade, também integram esse processo histórico. A permanência deles depende de um trabalho contínuo, que ultrapassa os dias oficiais carnavalescos. “Manter um bloco na rua é um trabalho árduo”, diz Júlio. “É um trabalho que não acaba com o carnaval.” Ensaios, pesquisa de repertório, escolha de temas, produção de fantasias e articulação com músicos, costureiras e artistas compõem uma engrenagem que se move o ano inteiro.
Essa continuidade se conecta diretamente à ideia de salvaguarda, ou seja, de proteger e garantir. Para Julio, preservar o frevo não significa congelá-lo. “A gente está dando nossa contribuição para a manutenção e para a continuidade de uma história que nos pertence”, afirma.
O repertório que mistura canções dos anos do início do século 20 com composições contemporâneas, a escolha de temas ligados à cultura popular e à memória urbana e o diálogo com outras agremiações revelam um esforço consciente de manter o frevo em circulação e em transformação.
Nesse processo, o carnaval também se afirma como espaço educativo. “O carnaval é um grande teatro”, diz Julio, “e é também uma grande sala de aula”. Aprende-se cantando, ensaiando, escutando e estando na rua. A transmissão cultural acontece no corpo, na voz e na experiência compartilhada, longe de qualquer ideia de preservação abstrata.
Tudo começa e termina na rua
Antes do desfile, o bloco se organiza. Instrumentos sendo afinados, fantasias ainda em ajuste, vozes que se aquecem entre uma conversa e outra. O apito atravessa o ar e convoca. A orquestra responde, o coro se forma, e a música começa a ocupar o espaço.
É nesse instante que tudo se confirma: a rua se transforma novamente em território de expressão, de encontro e de permanência. O canto coletivo abranda o passo e suspende o tempo cotidiano. “A gente não perde de vista que o carnaval é maior do que qualquer tentativa de controle”, afirma Júlio.
Nada ali é estático e o que se vive é continuidade em movimento. “A gente segue firme porque sabemos quem somos, sabemos o patrimônio que carregamos”, diz Júlio. A tradição não se mantém porque foi preservada intacta, mas porque segue sendo vivida, cantada e atualizada.
Enquanto houver poesia, apito e coro, o bloco segue. E, com ele, o carnaval divinal permanece existindo onde sempre existiu: na rua.
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