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Marlan Cotrim provoca com obras de cloro e carvão em exposição no Recife

Artista faz sua primeira individual no Recife na Galeria Amparo 60, com 13 trabalhos que usam cloro e carvão sobre tecido de algodão

Por Emannuel Bento Publicado em 26/11/2025 às 18:22

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Goianense radicada no Recife, Marlan Cotrim começou sua trajetória na dança aos 9 anos e, hoje, figura entre os jovens nomes promissores das artes visuais no país. O movimento, que a acompanhou desde o início, permanece como eixo central de sua produção.

Em suas telas, tremores, rastros e borrões dão forma a espécies de corpos e horizontes que surgem e se desfazem, sempre em construção.

A Galeria Amparo 60, na Zona Sul do Recife, recebe a primeira exposição individual da artista na cidade, intitulada "C", com 13 trabalhos em exibição. A abertura acontece nesta quinta-feira (27), às 19h.

Robson Lemos/Divulgação
Obra de Marlan Contrin, que expõe na Amparo 60, no Recife - Robson Lemos/Divulgação

O recorte parte do mergulho de Marlan em uma nova pesquisa, na qual ela utiliza cloro e carvão sobre tecido de algodão. A escolha dos materiais nasce de processos e temas próprios ao seu universo criativo.

"O cloro veio como lembrança das lavanderias de tecido. Se usa muito cloro para branquear tecidos. Algo que está ligado a diversas violências desde o século 18 com os processos de alvejar algodão massivamente, poluição de rios, até a relação do uso do carvão mineral como combustível fóssil, acelerando a indústria, a queima e emissão de carbono na atmosfera. O carvão vem como essa matéria cheia de memória que inscreve sobre o apagamento. Devolvendo cor e vingando o algodão de processos anteriores", detalha Marlan.

Cloro e carvão

No sentido físico, o cloro caminha para o branco; o carvão, para todas as outras cores, aproximando-se do modelo ideal de corpo negro físico.

“Marlan passa a trabalhar com esse corpo que absorve toda a radiação e só devolve luz conforme a temperatura e coloca isso em diálogo com o corpo negro como construção histórica e política. O cloro tem uma história pesada: foi usado para branquear tecido, para impor um padrão de limpeza e pureza que vem junto com colonialismo, higienismo e controle. Na obra dela, esse alvejamento não é limpeza, e sim fricção. É revelar o que foi apagado”, afirma a curadora Ariana Nuala.

O gesto como estilo

DANILO GALVÃO/DIVULGAÇÃO
Obra de Marlan Contrin, que expõe na Amparo 60, no Recife - DANILO GALVÃO/DIVULGAÇÃO

Ainda segundo a curadora, os traços da artista são bastante corporais: o cloro não é aplicado de forma técnica, mas com curvas, tremores, um gesto quase dançado.

Na série de pintura a óleo "Corpografias em trânsito", a pesquisa sobre os materiais encontra a questão do movimento, evocando um "tremor das travessias".

“Levo essa coreografia para as telas em cloro e carvão, mas aqui esse traço toma outra densidade — é como pintar em infravermelho. No cloro é por subtração da cor, um processo de oxidação do pigmento preto do tecido de algodão, que gera um rasgo visual químico”, explica Marlan.

O título “C” deriva justamente da repetição da letra presente em seus elementos-base: cloro, carvão, corpo. A mostra permanece em cartaz até 23 de janeiro, na Amparo 60.

SERVIÇO
C, de Marlan
Onde: Galeria Amparo 60 (3º andar da Dona Santa, na Rua Professor Eduardo Wanderley)
Quando: de 27 de novembro até 23 de janeiro
Visitação: segunda a sexta, das 10h às 19h, e sábados das 10h às 15h

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