Atriz explica por que o final de 'O Agente Secreto' está deixando o público desconfortável: 'É real, cru'
Estreando nos cinemas, Laura Lufési vive uma pesquisadora que se dedica a investigar arquivos ligados ao passado de Marcelo (Wagner Moura)
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A mineira radicada em São Paulo Laura Lufési, 26 anos, está estreando nos cinemas em grande estilo. Ela integra o elenco de "O Agente Secreto", novo longa-metragem de Kleber Mendonça Filho, que chega às salas brasileiras nesta quinta-feira (6).
A atriz define a oportunidade de participar de um filme duplamente premiado em Cannes como algo "raro" na profissão. "Sorte, ou axé", resume.
Laura foi selecionada pelo produtor de elenco Gabriel Domingues, conhecido por buscar rostos novos no mercado audiovisual. "Recebi um e-mail convidando para um teste. Topei só para ver se era verdade e não uma brincadeira", conta, entre risos.
No filme, que tem maior parte situada em 1977, Lufési interpreta Flávia, uma pesquisadora de universidade privada situada na linha temporal atual da história. Ela se dedica a investigar arquivos ligados ao passado de Marcelo (personagem de Wagner Moura), perseguido por empresários associados ao regime militar.
Flávia aparece na cena final, uma sequência que tem gerado debates por seu tom anti-catártico, que desperta reflexões (ou incômodo) sobre o esquecimento no Brasil.
Da literatura ao cinema
Natural do interior de Minas Gerais, Laura Lufési é atriz, aluna da Escola de Arte Dramática da USP e bacharel em Letras/Literatura pela UFMG.
Atuou na Cia. São Jorge de Variedades, no espetáculo "Festa dos Bárbaros". Em 2024, participou das séries "Sintonia" (Netflix), como Samira, e "Colônia" (Canal Brasil).
"É um sonho para qualquer ator fazer um filme do Kleber. É muito louco porque não trilhei um caminho específico buscando por isso, mas, quando sonhamos, tudo caminha para acontecer se for para ser. Não tem outra explicação se não for o axé e o trabalho do Gabriel", afirma.
Ela conheceu o cinema de Kleber Mendonça Filho através de "Aquarius" (2016), principalmente após o protesto do elenco contra o impeachment de Dilma Rousseff no tapete vermelho de Cannes.
"Ver um cinema de autor, com uma puta direção de arte, um protagonismo da Sônia Braga, que tanto vi no Vale a Pena Ver de Novo… Vendo aquilo, fui procurar O Som ao Redor. Sou fã de Recife Frio e Vinil Verde. A sessão de Bacurau foi a com mais catarse da minha vida", recorda.
Memória, esquecimento e o peso das gerações
Em "O Agente Secreto", a personagem de Lufési funciona como um elo narrativo para uma das discussões centrais do longa: o que fazemos com a nossa memória, individual e coletiva.
Ao lado da colega Daniela (Isadora Ruppert), Flávia escuta fitas de áudio gravadas em 1977. Nas cenas, o público também acompanha os momentos dessas gravações.
(Atenção: os parágrafos a seguir contêm spoilers)
No desfecho do filme, as pesquisadoras são obrigadas a encerrar as investigações por ordens superiores. Ainda assim, movida pela curiosidade, Flávia decide procurar Fernando, filho de Marcelo, para lhe entregar as fitas.
Mas Fernando mal se lembra do pai, evita o assunto e sequer confirma se ouvirá o conteúdo. Se ouvir, talvez nem compreenda o emaranhado de informações ali contidas.
"O final causa um incômodo proposital. É real, cru. 'Mas é assim que termina?' É. Acho que ele é sobre memória, mas talvez seja muito mais sobre o esquecimento. E isso é muito cruel, porque atinge não só a história do Marcelo, como de seu filho e das demais gerações que virão", comenta.
O tema do esquecimento toca pessoalmente a atriz, que perdeu a mãe aos três anos. "Tem uma cena em que o Fernando, ainda pequeno, diz ‘acho que estou começando a esquecer a mamãe’, e para ele isso é bom. Quando deveria ser exatamente o contrário. Acho uma das cenas mais tristes. Temos uma cultura de que é difícil lidar com o trauma, mas só vamos entender algo, coletivamente ou individualmente, encarando-o."
Entre o real e o simbólico
Lufési lembra que Kleber Mendonça pediu para que a cena final fosse filmada sem excessos. "Ele pediu que não fosse melodramática, sem causar grande catarse. Quando vejo a reação ao filme, entendo que ele provocou o que queria."
Houve também um cuidado para evitar que a personagem caísse num clichê da heroína que detém informações do passado. "Ela faz apenas o que é certo. Aquele é o trabalho dela, literalmente: fazer o que puder de mais ético e interessante com as informações", explica.
"Existe ainda um certo distanciamento, pois ela não viveu a ditadura. Ela tem aquele material, mas não tem atravessamento direto. Ela traz a memória que a gente, geração atual, tem da nossa própria época", finaliza a atriz, que visitou o Recife pela primeira vez paras as gravações.
Filme chega aos cinemas
Após passar por mais de 50 festivais internacionais e realizar sessões especiais lotadas em várias capitais desde setembro, "O Agente Secreto" estreia nesta quinta-feira em mais de 700 cinemas de 370 cidades brasileiras, tornando-se o filme nacional com o circuito de lançamento mais amplo de 2025.