Artista que criou identidade visual de Olinda como Patrimônio da Humanidade ganha livro sobre sua obra
Obra de Petronio Cunha é celebrada em 'Recorte Gráfico', da Cepe Editora, lançado junto com exposição no Mercado Eufrásio Barbosa
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Radicado em Olinda desde 1978, o artista plástico Petronio Cunha, 84 anos, é um nome essencial da arte brasileira e nordestina. Paraibano de Campina Grande, ele construiu uma trajetória marcada pela experimentação de múltiplas técnicas, do papel e das gravuras aos azulejos, cartazes e escrituras.
Durante o período em que trabalhou na Prefeitura de Olinda, Petronio foi o responsável por criar a identidade visual da cidade como Patrimônio da Humanidade, título concedido pela Unesco em 1982. Por isso, sua marca gráfica tornou-se parte da memória afetiva e cultural da cidade.
Toda essa trajetória agora é tema do livro "Recorte Gráfico – Petronio Cunha", lançado pela Cepe Editora nesta sexta-feira (21), no Mercado Eufrásio Barbosa. O evento também contará com a exposição "Gráfica pernambucana – Um episódio", reunindo 16 telas do artista.
O projeto editorial tem coordenação de Júlio Cavani, curadoria de Antônio Paes e idealização e diagramação de Germana Freire.
Páginas de arte e design
A publicação reúne mais de 400 imagens e sete textos críticos, em 300 páginas. Segundo o editor da Cepe, Diogo Guedes, o livro "dimensiona o trabalho de Petronio na arte e no design, revelando o esmero e a complexidade de seus traços, escrituras, gravuras, recortes, azulejos e cartazes".
Entre os textos, há artigos que tratam de sua produção gráfica e da relação com a arte da azulejaria.
A pesquisadora e professora da UFPE Isabella Ribeiro Aragão, que assina um dos artigos, defende que Petronio deve ser lembrado também como letrista e designer gráfico. "Seu trabalho tem um valor primordial para a área tipográfica pelos processos manuais que geraram diversas formas de letras", afirma
Diálogo com a cidade
O arquiteto e urbanista Luiz Amorim dedica o texto “Alumbrar, verbo transitivo mais-que-direto” à produção de Petronio na arte dos azulejos. Segundo ele, essa vertente é tão expressiva quanto as demais, mas se diferencia por sua natureza urbana e arquitetônica.
"Ela se faz interior e exterior, arquitetônica e urbana; imbricada a superfícies e volumes de bordas definidas, mas também de bordas livres ou em fragmentos", escreve o autor.
Ateliê transformado em caverna da memória
Para o historiador e arqueólogo Plínio Victor, o ateliê de Petronio em Olinda é um verdadeiro abrigo de tesouros, como uma caverna. O pesquisador o chama de "Caverna do Varadouro", em referência à sua localização e ao caráter quase arqueológico do espaço.
"Por toda parte nas paredes da caverna há muitos recados de festas da cidade. Ela tem a agitação agoniada, neurastênica, de um tempo e de uma aldeia diferente das outras, mas, ainda assim, é uma caverna como as outras", descreve.
Segundo Júlio Cavani, a ideia da publicação nasceu de uma parceria entre a Cepe Editora e o Museu de Arte Contemporânea de Pernambuco (MAC-PE), localizado em Olinda.
"Petronio foi o artista que criou a marca do MAC, mas ainda não havia uma publicação capaz de transmitir a grandiosidade de sua obra", afirma o editor.
Trajetória entre o Brasil e o mundo
Nascido em Campina Grande (PB), em 1941, Petronio dos Santos Cunha formou-se em Arquitetura pela UFPE (1964–1968). Em 1969, mudou-se para Brasília para aprofundar-se em Comunicação Visual e, no mesmo ano, para São Paulo, onde se dedicou à área gráfica e começou a desenhar artisticamente.
De 1971 a 1973, viveu em Paris, período em que desenvolveu técnicas de recorte em papel, semelhantes à xilogravura. Desde 1978, vive em Olinda, cidade que adotou como lar e inspiração.
Em 1996, seu talento foi reconhecido internacionalmente com o CorelDraw International Design Contest, promovido pela empresa canadense de software.