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'IA não pode nos tirar a imaginação': Bienal PE discute desafios da Inteligência Artificial na literatura

Lançamentos, mesas e oficinas abordam a influência da tecnologia sobre a criatividade, a leitura e a escrita; Feira ocorre de 3 a 12 de outubro

Por Emannuel Bento Publicado em 02/10/2025 às 14:48

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A Bienal Internacional do Livro de Pernambuco chega aos 30 anos sem deixar de lado um dos temas mais desafiadores do presente na literatura: o impacto da Inteligência Artificial na escrita, na leitura e na produção literária. A edição de 2025 será realizada de sexta-feira (3) até 12 de outubro, no Centro de Convenções de Pernambuco, em Olinda.

O assunto tem mobilizado debates em todo o mundo. Autores processam gigantes da tecnologia, como a OpenAI e a Microsoft, por utilizarem obras literárias sem autorização no treinamento de ferramentas como o ChatGPT e o Copilot. No Brasil, uma editora do Paraná chegou a cancelar um concurso literário após constatar que metade das inscrições apresentava sinais de uso de IA.

Na programação da Bienal, estão previstos lançamentos de livros que dialogam com a questão, como "Redefinindo a humanidade na era da Inteligência Artificial", de André da Silva, e "Memórias digitais: quem escolhe o que devemos lembrar?", de Amanda Valéria Silva. Ambos serão apresentados no espaço Conexão Petrobras, na segunda-feira (6).

Além disso, mesas e oficinas discutirão a influência da IA sobre a criatividade, os hábitos de leitura e a escrita, incluindo uma oficina dedicada à criação de e-books com o uso da tecnologia.

"Quem escreve o futuro somos nós, humanos"

Para Alex Sandro Gomes, professor do Centro de Informática (CIn) da UFPE e integrante da Associação Brasileira de Educação a Distância (ABED), a leitura corre riscos diante da forma como a IA tem sido utilizada. Ele será mediador da mesa Inteligência Artificial e leitura", com Vinicius Cardoso Garcia e Paulo André da Silva, no dia 10/10, na Conexão Petrobras.

"A IA tem impactado negativamente na leitura, pois exige muito pouco esforço das pessoas. Estão resumindo PDFs, links. Isso tira a possibilidade do exercício da imaginação. A IA não é ruim por si só, é ruim porque algumas pessoas não leem e não irão exercitar a imaginação", afirma.

Carla Vidal/Pipa Comunicacao
Alex Sandro Gomes - Carla Vidal/Pipa Comunicacao

Segundo ele, a neurociência mostra como o hábito de ler fortalece o cérebro. "O exercício de leitura cria cenários, possibilidades e exercita o cérebro. Com esse uso inicial da IA, estamos delegando às máquinas o necessário esforço individual de construir a sua capacidade de imaginação."

"Quem escreve o futuro somos nós, humanos, pois a IA consegue escrever em cima apenas do que ela sabe do passado. Não podemos deixá-la escrever o futuro. Precisamos de uma mobilização enquanto sociedade, independente de idade, para não ficarmos vulneráveis a perder a capacidade de imaginar."

"Precisamos saber ponderar e como fazer o uso"

Divulgação
Paula Lourenço - Divulgação

A jornalista e diretora de Programas Sociais do Sesc Pernambuco, Paula Lourenço, participa da mesa Criatividade natural em tempos de Inteligência Artificial, na terça-feira (7), ao lado de João Guilherme Peixoto e Diego Pinheiro.

Autora do livro "Da pisada do barro ao streaming: um estudo do samba de coco de Arcoverde-PE como indústria criativa para o desenvolvimento local", seminalista do Jabuti, Lourenço avalia que a tecnologia deve ser entendida como ferramenta de apoio, mas sempre com responsabilidade.

"Evidentemente, é preciso ter um uso ético. Precisamos saber ponderar, como fazer o uso. No jornalismo, por exemplo, pessoas que chegam em uma redação num intervalo de 30 anos de diferença pegam momentos completamente diferentes. Mas o insumo intelectual, o capital humano, continua sendo estratégico no uso da IA e de suas ferramentas. Isso também serve para a literatura e outras linguagens artísticas, como artes visuais e música", diz.

Feira conectada com as transformações

Para Rogério Robalinho, produtor da Bienal, o debate tecnológico se conecta à proposta central da feira de formar leitores e estimular o mercado editorial. "A IA está impregnada em todos os ambientes de negócios do mundo, então apostamos no talento individual do brasileiro, que tem uma identidade tão mesclada, com referências de tantas vertentes do mundo inteiro, para que esse potencial seja traduzido em texto, seja para o uso da IA, da internet, das redes sociais", conta.

Ele destaca que o maior desafio, nos 30 anos da Bienal, é manter a "capacidade de encantamento": "Fazemos um esforço na Bienal para estimular as pessoas a consumir livros e gerar bons negócios no mercado livreiro e editorial do País. Estimulamos empresários do ramo, seja de grandes editoriais do Sul ou independentes, a fazer bons negócios e estabelecer compromisso. O público existe e é preciso ser estimulado."

Mais destaques

Alonso Laporte/Verbo Assessoria
Imagem panorâmica da Bienal PE 2023 - Alonso Laporte/Verbo Assessoria

A programação reúne grandes editoras, como Companhia das Letras, Grupo Autêntica e Aleph, além de selos independentes, coletivos e editoras temáticas, ampliando a bibliodiversidade e garantindo espaço para múltiplas vozes.

Entre os autores confirmados estão Itamar Vieira Junior, Aline Bei, Micheliny Verunschk, Socorro Acioli, Jeferson Tenório, Raimundo Carrero, Mia Couto, Clarice Freire, Mary Del Priore, Andrea Nunes, Raphael Montes, Natalia Timerman, Rogério Pereira, Octávio Santiago e Adelaide Ivánova.

A cena literária pernambucana e nordestina também marca presença, com nomes como Cida Pedrosa, Wellington de Melo, Schneider Carpeggiani, Cristhiano Aguiar, Bell Puã, Bione, Ágnes Souza, Ana Tomazelli, Eduardo Cavalcanti, Adriano Portela, Roberto Beltrão, Sidney Nicéas e Josué Limeira.

Funcionamento

  • Sexta-feira: 14h às 21h
  • Sábados e domingos: 10h às 21h
  • De segunda a sexta: 9h às 21h

Confira a programação completa no site da Bienal PE.

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