Câncer de colo do útero: prevenção e vacinação contra HPV são armas contra aumento de casos no Brasil
Inca aponta crescimento de 14% na incidência da doença; cobertura vacinal e exames de rotina seguem como pilares fundamentais para salvar vidas
Clique aqui e escute a matéria
SÃO PAULO – O caminho para a erradicação de uma doença que vitima cerca de 20 mulheres por dia no Brasil passa, invariavelmente, pela informação.
Durante o lançamento do Março Lilás, da MSD Brasil, na última quinta-feira (26), especialistas, comunicadores e influenciadores dialogaram sobre o objetivo da campanha: dar visibilidade ao câncer de colo do útero e seu principal causador, o vírus HPV.
Embora o Brasil possua ferramentas eficazes de prevenção — como a vacina e o rastreamento — os números ainda revelam um cenário de urgência que exige atenção imediata de toda a sociedade.
A oncologista clínica Rachel Cossetti, responsável por iniciar a campanha em 2016 no Maranhão, relatou a experiência de lidar com casos avançados que poderiam ter sido evitados.
"Quando voltei para o Maranhão após minha formação, já sabia que a realidade do câncer de colo do útero era intensa, com muitos casos, mas não tinha a noção da dimensão. Precisávamos de algo que chamasse a atenção para a prevenção", recorda a médica sobre a origem da campanha que hoje ganha contornos nacionais.
Crescimento dos casos
Dados recentes do Instituto Nacional de Câncer (Inca) acenderam um alerta para o triênio 2026-2028. A projeção é de que surjam mais de 19 mil novos casos de câncer de colo do útero (também chamado de cervical) por ano no País.
O número representa um salto de aproximadamente 14% em relação às estimativas do período anterior (2022-2025), que previam 17 mil casos anuais.
Este é, atualmente, o terceiro tipo de câncer mais incidente entre as mulheres brasileiras. No recorte por idade, o dado é ainda mais alarmante: é a neoplasia que mais mata mulheres de até 35 anos no Brasil.
Quase a totalidade desses casos (99%) está diretamente relacionada à infecção persistente por subtipos oncogênicos do papilomavírus humano (HPV).
Mitos e verdades sobre a transmissão do HPV
Um dos maiores obstáculos no combate à doença é o estigma e a desinformação sobre como o vírus é contraído. Diferente do que o senso comum propaga, a transmissão não ocorre exclusivamente por meio da penetração sexual, mas sim pelo contato pele a pele na região genital ou oral.
Durante o evento, especialistas reforçaram que a infecção por HPV é uma das mais comuns do mundo, atingindo a maioria das pessoas sexualmente ativas em algum momento da vida.
"Para você ter infecção por HPV, você precisa ter atritos entre superfícies. São esses atritos que vão formar microtraumas, e esses microtraumas vão criar a porta de entrada para o vírus", explicou a ginecologista Susana Aidé, presidente da comissão nacional especializada de vacinas da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo).
Outro ponto crucial é a impossibilidade de determinar a cronologia da infecção. "Não tem como saber de quando, nem de quem, nem onde [a contraiu]. O vírus pode estar latente, o teste dar negativo agora e ele reaparecer no organismo anos depois. O médico precisa saber explicar isso muito bem para não gerar conflitos desnecessários ou estigmas sobre o comportamento do paciente", completou a especialista.
HPV: prevenção, diagnóstico, tratamento e vacinação
A vacina como barreira primária
A vacinação é considerada a forma mais eficaz de prevenir o câncer de colo do útero antes mesmo que as lesões apareçam. Atualmente, o imunizante distribuído pelo sistema único de saúde (SUS) protege contra os principais subtipos de HPV responsáveis pelo câncer e por verrugas genitais.
Fernando Cerino, diretor de Vacinas na MSD Brasil, destaca o potencial de mudança desse cenário através da imunização:
"Acredito que um futuro em que o câncer de colo do útero não exista esteja próximo de nós, pois temos uma vacinação que ajuda na sua prevenção. Hoje, o câncer de colo do útero mata cerca de 20 mulheres por dia no Brasil, e esse cenário pode ser mudado por meio da vacinação, dos exames de rotina e do tratamento das lesões pré-cancerígenas."
Prevenção secundária: o papel do Papanicolau
Mesmo com a vacina, o rastreamento através do exame citopatológico, também conhecido como Papanicolau, continua indispensável na rotina de saúde das mulheres.
Ele permite identificar lesões precursoras que, se tratadas precocemente, evitam a evolução para o câncer. O movimento Março Lilás, inclusive, nasceu dessa necessidade de interiorizar o acesso e a informação.
Estratégias para um futuro sem a doença
A campanha deste ano, desenvolvida em parceria com o IPG Health Brasil, foca em ampliar a conscientização por meio de canais digitais e presença em serviços de streaming e mobilidade. João Consorte, presidente do IPG Health Brasil, reforça o papel estratégico da comunicação:
"Falar sobre a prevenção do câncer de colo do útero é tratar de uma questão de grande importância social. Essa campanha que desenvolvemos para informar, mobilizar e engajar a população na conscientização contribui diretamente para a promoção da saúde pública."
Para a população, as recomendações das autoridades de saúde permanecem claras e acessíveis em qualquer região do País:
- Vacinação: fundamental para meninas e meninos na faixa etária indicada pelo Ministério da Saúde (geralmente entre 9 e 14 anos).
- Exames de rotina: mulheres devem realizar o Papanicolau periodicamente a partir do início da vida sexual ou conforme orientação médica.
- Uso de preservativos: embora não confira proteção total contra o HPV devido ao contato com áreas não cobertas, o preservativo reduz significativamente o risco de transmissão de diversas infecções sexualmente transmissíveis.
Para mais informações sobre a prevenção e os mitos em torno da doença, a campanha disponibiliza o portal oficial.
*A repórter cobriu o evento a convite da MSD Brasil