Brasil dobra consumo de ultraprocessados em 40 anos e eleva risco de doenças crônicas

Participação desses produtos na dieta saltou de 10% para 23%; especialistas alertam que alimentos industrializados impulsiona obesidade

Por Maria Clara Trajano Publicado em 13/02/2026 às 16:59

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O padrão alimentar do brasileiro passou por uma transformação drástica e preocupante nas últimas quatro décadas. De acordo com uma coletânea de artigos publicada recentemente na revista científica The Lancet, a presença de alimentos ultraprocessados na dieta nacional mais que dobrou, saltando de 10% para 23%.

O fenômeno não é isolado: o estudo aponta uma tendência global de substituição de refeições caseiras e alimentos frescos por produtos industrializados prontos para o consumo.

Os ultraprocessados são formulações industriais que contêm pouco ou nenhum alimento inteiro. Eles são fabricados com ingredientes extraídos de alimentos (como óleos, gorduras, açúcares e amidos) ou sintetizados em laboratório (corantes, aromatizantes e realçadores de sabor) para torná-los hiperpalatáveis e com longa vida de prateleira.

O impacto direto na saúde da população

A ascensão desses produtos no prato dos brasileiros está diretamente correlacionada ao aumento de enfermidades não transmissíveis.

Segundo o Ministério da Saúde e órgãos internacionais como a Organização Mundial da Saúde (OMS), o consumo excessivo de sódio, açúcares e gorduras saturadas — pilares da indústria de ultraprocessados — é o principal combustível para a crise de doenças crônicas.

O nutricionista Abelardo Lima, professor da Estácio, reforça que o cenário exige atenção imediata das autoridades e da sociedade.

“O aumento do consumo de alimentos ultraprocessados representa um desafio significativo para a saúde pública no Brasil. Essa tendência se manifesta em um aumento crescente de casos de obesidade, doenças cardiovasculares, diabetes e hipertensão crônica, além de distúrbios do trato digestivo", afirma.

"Tal cenário está intimamente ligado ao consumo elevado de aditivos alimentares, corantes, conservantes, alto teor de sal, açúcares simples adicionados e gorduras saturadas presentes nesses produtos”, analisa.

Tendência global e a realidade brasileira

O estudo da The Lancet contextualiza o Brasil em um movimento mundial de "transição nutricional". Embora o aumento brasileiro seja expressivo, outros países apresentam números ainda mais alarmantes.

Na Espanha, o consumo quase triplicou em 30 anos, atingindo 31,7% da dieta. No Canadá, em oito décadas, os ultraprocessados passaram a ocupar 54,9% do que a população consome. Enquanto no Brasil, houve uma evolução de 10% para 23% em 40 anos.

A principal preocupação dos pesquisadores é que esses produtos possuem alta densidade calórica, mas baixíssimo valor nutricional, carecendo de fibras, vitaminas e minerais essenciais para o funcionamento do organismo.

Desembalar menos e descascar mais

Para reverter esse quadro, especialistas defendem o retorno às bases do Guia Alimentar para a População Brasileira, documento oficial do Ministério da Saúde que é referência mundial.

A recomendação principal é que alimentos in natura (como frutas, legumes e carnes) ou minimamente processados (grãos, leite, farinhas) sejam a base da alimentação.

Abelardo Lima destaca que a praticidade dos industrializados é o maior obstáculo para uma vida saudável, mas que pode ser vencido com organização.

“Essa abordagem, resumida na expressão ‘desembalar menos e descascar mais’, promove o consumo de alimentos com maior valor nutricional, ricos em nutrientes essenciais e com menor densidade calórica, favorecendo uma melhor distribuição de carboidratos, proteínas e gorduras e, consequentemente, um impacto positivo na saúde", explica o nutricionista.

"Dedicar tempo ao planejamento semanal das refeições é essencial para garantir escolhas alimentares conscientes e promover a saúde a longo prazo”, aconselha.

O planejamento alimentar doméstico permite que o consumidor fuja das armadilhas do mercado informal e das gôndolas de conveniência, onde os produtos ultraprocessados dominam pela facilidade de acesso e baixo custo imediato, embora gerem custos elevados para o sistema de saúde futuramente.

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