Buraco no SUS: milhões precisam de cirurgia bariátrica, mas rede pública não dá conta

No Brasil, só 0,2% dos pacientes com indicação de cirurgia bariátrica chega a ser operado pelo SUS, o que mostra grave lacuna no atendimento público

Por Cinthya Leite Publicado em 09/09/2025 às 23:10 | Atualizado em 10/09/2025 às 0:23

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A obesidade ainda esbarra na dificuldade de ser reconhecida como uma doença. Para muitos, o excesso de peso é visto como descuido, falta de disciplina ou falta de força de vontade. Essa visão distorcida, além de injusta, mascara a realidade: obesidade é uma condição crônica, com causas diversas e completa, com alto impacto na saúde. Ela limita movimentos, corrói autoestima, multiplica riscos de câncer, diabetes e hipertensão, além de encurtar vidas.

Enquanto pacientes lidam com o estigma no trabalho, nos consultórios e até dentro de casa, o sistema público de saúde falha em oferecer tratamento adequado. No Brasil, milhões têm indicação de cirurgia bariátrica, mas apenas uma fração ínfima consegue acesso pelo Sistema Único de Saúde (SUS). No caso da obesidade severa, o procedimento é a alternativa indicada.

Caminho eficaz

"Após certo ponto, o tratamento clínico fica difícil. Mesmo se fizer tudo certinho, com exercício, dieta e medicação (incluindo as injeções conhecidas popularmente como 'canetas emagrecedoras'), menos de 0,5% dos pacientes com obesidade severa conseguirá perder o peso que precisa. Nesses casos, a cirurgia é o único tratamento eficaz", diz o cirurgião Álvaro Ferraz, chefe do Serviço Cirurgia Geral do Hospital das Clínicas (HC) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Mas infelizmente um universo muito pequeno de pacientes com esse tipo de obesidade consegue passar pela bariátrica. O resultado é uma fila que segue à margem do tratamento, enquanto a doença avança.

Os números ilustram essa realidade. A população adulta, no Brasil, é formada por cerca de 170 milhões de pessoas. Entre eles, 23% vivem com obesidade. O percentual corresponde a um universo de 34 milhões de indivíduos, em média, segundo dados do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan), do Ministério da Saúde.

"Se estratificarmos ainda mais, olhando só para a obesidade grave, são 5,75 milhões com indicação cirúrgica. Entre eles, cerca de 22% têm algum tipo de seguro ou tratamento privado. Mas 77%, ou seja, quase 4,5 milhões, dependem única e exclusivamente do SUS", diz o cirurgião Álvaro Ferraz, chefe do Serviço Cirurgia Geral do Hospital das Clínicas (HC) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

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"Mesmo se fizer tudo certinho, com exercício, dieta e medicação, menos de 0,5% dos pacientes com obesidade severa conseguirá perder o peso que precisa. Nesses casos, a cirurgia é o único tratamento eficaz", diz o cirurgião Álvaro Ferraz, do HC-UFPE - JAILTON JR/JC IMAGEM

Em audiência pública realizada, no último dia 4, pela Comissão de Saúde da Câmara dos Deputados, Álvaro Ferraz evidenciou que, por ano, há um aumento em torno de 293 mil pacientes que passam a contar só com o SUS como opção. "Realizamos menos de 80 mil bariátricas anualmente no Brasil, das quais apenas 7,3 mil são pelo SUS. Ou seja, atendemos menos de 0,2% dos pacientes que realmente necessitam do procedimento. A gente não está dando conta do tratamento cirúrgico de pacientes com obesidade severa", lamentou Álvaro, durante o debate, que foi solicitado pelo deputado Coronel Meira (PL-PE).

"Prejuízo" de R$ 5 mil por cirurgia que devolve vidas e clama por novo financiamento

Os dados trazidos pelo médico nos levam a refletir o que faz essa matemática ser tão excludente. Nesse ponto, não podemos deixar de discutir o fato de o SUS enfrentar restrições de recursos, burocracia e subfinanciamento.

O HC-UFPE é um hospital-escola 100% SUS que realiza cirurgia bariátrica desde 1997. Ao lado de instituições de São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná, ele foi um dos primeiros a fazer esse tipo de procedimento pelo SUS. "Somos o único hospital do Brasil que tem uma residência médica em cirurgia bariátrica, credenciada pelo Ministério da Educação, há oito anos. Temos uma equipe multiprofissional e, para cada bariátrica que fazemos no HC, determinamos um prejuízo entre R$ 3 mil e R$ 6 mil. Alguém tem que pagar essa conta."

Para criar alternativas que possibilitem a realização do procedimento na rede pública, Álvaro conta que médicos têm se mobilizado para conseguir apoio. "Buscamos parcerias, emendas parlamentares, recursos federais, recursos estaduais."

THIAGO LUCAS/DESIGN SJCC
Informações e dados sobre obesidade e cirurgia bariátrica - THIAGO LUCAS/DESIGN SJCC

Grande gargalo

Atualmente, no HC-UFPE, a fila pela bariátrica é de 364 pessoas. Desses, 50 estão prontas para passar pelo procedimento. E entre elas, 36 estão no quadro de superobesidade - aquelas com índice de massa corporal (IMC) acima de 50. São pacientes que, logo após a cirurgia, precisam ser encaminhados para a unidade de terapia intensiva (UTI). Mas os leitos são escassos: apenas oito, que são compartilhados aproximadamente 20 especialidades cirúrgicas no HC, incluindo cardíaca e câncer, o que exige uma seleção rigorosa.

"Esse é o nosso grande gargalo. Diante dessa situação, às vezes, programamos um paciente com superobesidade para a cirurgia e deixamos outro em retaguarda. Se não houver vaga, o outro é operado. Essa prática faz com que a fila dos que não têm superobesidade avance muito mais rapidamente. Esse é um cenário recorrente."

Essa situação traz indignação porque, para a obesidade grave e doenças associadas (hipertensão, diabetes, problemas nas articulações, apneia do sono e outras), a bariátrica é comprovadamente o procedimento mais eficaz e duradouro.


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"A cirurgia bariátrica é reconhecida, cada vez mais, como a ferramenta mais eficaz, duradoura e custo-efetiva no controle da obesidade e de suas complicações metabólicas", diz o presidente da SBCBM, Juliano Canavarros - SBCBM/DIVULGAÇÃO

Bariátrica reduz mortalidade, devolve qualidade de vida e dignidade

O estudo Mortalidade a curto e longo prazo após cirurgia bariátrica: uma revisão sistemática e meta-análise (em tradução livre), publicada no periódico Diabetes, Obesity and Metabolism, mostra que a cirurgia bariátrica está associada a uma redução de 41% na mortalidade por todas as causas, em comparação com pessoas com obesidade não operadas. Além disso, houve diminuições significativas nas mortes relacionadas a doenças cardiovasculares e câncer.

"Esses resultados estão associados à perda de peso sustentada e à remissão (controle) de comorbidades como diabetes tipo 2 e hipertensão arterial", conta o médico Juliano Canavarros, presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM).

"Em 2024, o HC-UFPE fez algo em torno de 200 cirurgias. A gente poderia fazer mais de 300. Tem equipe, tem estrutura, tem tudo, mas falta dinheiro. A nossa briga constante é em busca de recurso para poder expandir essa opção de tratamento da obesidade severa", frisa Álvaro.

Apesar de liberada pelo Ministério da Saúde, a bariátrica por videolaparoscopia (com pequenas incisões no abdome) ainda não é maioria no SUS. Muitos serviços ainda realizam cirurgias abertas, que exigem maior tempo de recuperação e de internação. "Não há mais cabimento oferecer bariátrica sem ser por videolaparoscopia."

Embora o SUS tenha regulamentado a cirurgia por vídeo desde 2017, a Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS) não atualizou a tabela de pagamento. "A videolaparoscopia é mais cara e requer mais tecnologia do que a convencional. Mas o SUS paga o mesmo valor para cirurgia por vídeo e aberta. Isso determina um prejuízo para o HC-UFPE de até R$ 6 mil por cirurgia", completa.

A virada de Maria Lucineide: saúde e dignidade reconquistadas

No HC-UFPE, o Ambulatório de Bariátrica recebe pacientes às segundas e sextas-feiras à tarde. A depender do dia, são pessoas que chegam para o primeiro atendimento, encaminhadas pela atenção primária (postos de saúde), e que retornam para avaliação pós-operatória.

 

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"Minha vida mudou muito, e para melhor", conta Maria Lucineide da Silva Leite, operada há 10 meses - JAILTON JR./JC IMAGEM

Moradora de Petrolina, no Sertão de Pernambuco, a dona de casa Maria Lucineide da Silva Leite, 57 anos, esteve no HC, na última segunda-feira (8), para uma consulta de retorno. No hospital, ela foi submetida à cirurgia bariátrica há 10 meses, após dois anos na fila de espera e preparo para o procedimento.

"Foi o pneumologista que me encaminhou para cá. Eu estava muito pesada e sentia um cansaço intenso, com suspeita de asma. Antes da cirurgia, eu pesava 152 quilos. Agora, estou com 114 quilos. Minha vida mudou muito, e para melhor. Senti uma melhora significativa, especialmente no cansaço", conta. 

Ela acrescenta que, antes do procedimento, a taxa de glicose chegava a 400 mg/dL (o ideal é abaixo de 100 mg/dL). "Eu vivia sendo socorrida e levada para o hospital. E olha que eu tomava insulina várias vezes por dia. Agora, a minha diabetes está normalizada. Minha pressão arterial, que era 18 por 17 e não baixava, hoje está normal."

Com mais disposição e mobilidade, Maria Lucineide tem uma vida feliz porque agora consegue fazer com facilidade atividades que antes evitava, como caminhar. "Antes, eu era sedentária e ficava em casa, mas agora ando e saio para onde quero."

Assim como outras milhares de pessoas que vivem com obesidade, Maria Lucineide recorda que, antes da bariátrica, ela sofria muito com o preconceito das pessoas.

"Quando eu chegava em algumas casas, escondiam as cadeiras. No ônibus, não conseguia passar pela roleta e precisava entrar por trás. E, às vezes, o motorista não queria me deixar entrar, mesmo pagando a passagem. Quando ia caminhar, as pessoas me chamavam de "dona da estrada", e eu chegava em casa chorando. Hoje em dia, caminho tranquila e não escuto mais nenhuma piada."

O lado invisível da obesidade

O depoimento de Maria Lucineide nos leva a refletir que, além dos impactos físicos e metabólicos, a obesidade traz consigo o peso do estigma social, que acrescenta uma pressão psicológica significativa aos pacientes.

"Ninguém chega ao peso da obesidade porque quer. Afinal, ninguém deseja ter tantas complicações que essa doença traz. É uma condição que mexe muito com o emocional das pessoas, levando-as, muitas vezes, a não acreditar mais na possibilidade de mudança", salienta a psicóloga Luciana Gropo, que atua com ênfase em terapia cognitivo-comportamental (TCC).

"O desenvolvimento da obesidade não é uma escolha. Ninguém escolhe fazer mal a si mesmo, querer não ficar bem ou se colocar em uma condição que pode levar a problemas graves de saúde", complementa.

O preconceito contra pessoas com obesidade atravessa diferentes esferas da vida (do mercado de trabalho às relações pessoais), mas se torna ainda mais problemático quando parte do próprio sistema de saúde. Muitos pacientes relatam ter consultas reduzidas a recomendações superficiais, sem acolhimento ou investigação adequada de suas condições clínicas.

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Informações e dados sobre obesidade - THIAGO LUCAS/DESIGN SJCC

"É o começo de dias melhores", diz paciente ao iniciar caminho para cirurgia

A visão limitada, que encara a obesidade apenas como "falta de disciplina", atrasa diagnósticos, compromete tratamentos e reforça o isolamento social de quem já convive com uma doença crônica e complexa.

"Às vezes, a gente se sente meio triste. Queremos ser aceitos, mas as pessoas não enxergam a gente. Quando vou a uma loja comprar algo, as pessoas me olham e não me atendem como se não houvesse nada que eu pudesse comprar. É como se fosse descartada. Percebo isso até de alguns profissionais de saúde, que acham que não emagrecemos porque não queremos, pois na cabeça deles é simples. Mas não é", relata a operadora de telemarketing Amália Gomes Meira, 44 anos.

Moradora de Olinda, cidade do Grande Recife, ela falou com lágrimas nos olhos sobre o sentimento de exclusão que sente por viver com obesidade. Na segunda-feira (8), ela foi ao Ambulatório de Bariátrica do HC para a primeira consulta. Está confiante na trajetória que percorrerá nos próximos meses: consultas, exames, pareceres e a cirurgia.

"Quero fazer a bariátrica pela minha saúde, que vem piorando a cada dia. E seria mentira dizer que não quero me sentir melhor comigo mesma, mas a saúde é a prioridade. Gostaria de poder fazer coisas simples, como ir a um parque de diversões com minha filha, algo que hoje é complicado", diz Amália.

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Amália Meira passou, nesta semana, pela 1ª consulta pré-operatória. "Quero fazer pela minha saúde" - JAILTON JR/JC IMAGEM

Quase sempre fora das estatísticas

Nem sempre a experiência cotidiana de julgamento associada à obesidade aparece nas estatísticas, mas explica por que tantas pessoas que vivem com a condição relatam como a dor emocional pesa. "Tenho um problema na coluna, e todos os médicos que eu fui antes de chegar aqui colocavam sempre o meu peso na frente, dizendo 'você tem que perder peso', como se fosse uma coisa que dependesse só de mim", recorda Amália.

Ela diz que tem taxas de glicose e colesterol alteradas, além de esteatose hepática (gordura no fígado). "Não durmo bem, tenho apneia do sono e ronco. Acordo várias vezes à noite. Tudo isso por causa do sobrepeso. Já tentei várias dietas e passei por alguns nutricionistas. Mas é difícil perder e manter o peso para mim."

Agora, ao chegar pela primeira vez no HC encaminhada pelo médico do posto de saúde perto de casa, ela está otimista para começar o percurso que a levará à bariátrica. "Hoje é o primeiro dia de dias melhores. Se eu pudesse dizer algo à sociedade sobre as pessoas com obesidade, diria que ninguém escolhe ser gordo. A pessoa não é gorda porque quer. Não come muito porque quer. Tem várias coisas por trás."

"Gordofobia velada" em consultórios: assédio atrasa tratamento da obesidade

No depoimento de Amália, vemos o quanto ela se sentiu julgada também por profissionais de saúde. Isso é grave: a consulta, que deveria ser espaço de cuidado, transforma-se em mais uma fonte de sofrimento e, muitas vezes, de abandono do tratamento.

Uma pesquisa sobre obesidade e gordofobia, feita pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e pela Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso), divulgada em 2022, mostrou que o assédio que a pessoa com obesidade recebe é alarmante.

Cerca de 72% dos obesos relataram ter sofrido algum tipo de assédio dentro de casa, por parte de familiares. Já 60% deles afirmaram ter passado por assédio dentro de consultórios de profissionais de saúde: médicos, nutricionistas, psicólogos e assistentes sociais. Além disso, aproximadamente 50% sofreram algum tipo de assédio no trabalho.

"Isso acontece porque a obesidade ainda carrega o estigma de ser apenas um problema comportamental: muitos acreditam que o paciente, se quiser, basta 'fechar a boca', fazer dieta e exercício para emagrecer. Isso, porém, não é verdade. Depois de um certo ponto, o tratamento clínico se torna cada vez mais difícil", enfatiza Álvaro Ferraz.

Na obesidade severa, só a bariátrica é eficaz

É nesse contexto que entra a indicação da cirurgia. "Na obesidade severa, a bariátrica é atualmente o único tratamento eficaz", diz Álvaro. Negar isso, na visão do médico, significa retardar o tratamento do paciente, o que agrava suas comorbidades, como diabetes, hipertensão, problemas articulares e respiratórios, além de aumentar o risco de câncer. "A obesidade eleva significativamente a chance de mais de 13 tipos de câncer."

Quando o tratamento é retardado, a saúde do paciente fica comprometida. "Já está comprovado que o paciente com obesidade tem quatro vezes mais chance de morrer do que aquele que passa pela cirurgia. Esses dados são fatos: obesidade não é um problema comportamental; é uma doença séria, mutilante, que precisa ser tratada, considerando os múltiplos fatores envolvidos", acrescenta.

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"É importante entender: ninguém escolhe estar nessa condição (da obesidade). O paciente chega a uma consulta inicial sobrecarregado, carregando o peso dos julgamentos, dos dedos apontados. Mas ele precisa é de apoio", diz a nutricionista bariátrica Uyara Lima - JAILTON JR./JC IMAGEM

Quatro hospitais cobrem só uma pequena fração de pacientes

Em Pernambuco, há quatro serviços de referência para realização da cirurgia bariátrica, segundo a Secretaria Estadual de Saúde (SES).

Além do Hospital da Clínicas (HC) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), são habilitados para o procedimento: o Hospital Agamenon Magalhães (HAM), o Hospital Universitário Oswaldo Cruz (Huoc) da Universidade de Pernambuco (UPE) e Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (Imip). Todos estão localizados na capital, Recife.

Com base no último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil tem, segundo o cirurgião Álvaro Ferraz, cerca de 6 milhões de pacientes com indicação de cirurgia. "Em Pernambuco, são 400 mil pessoas com obesidade severa. E no SUS, a gente não consegue operar 0,3% desses indivíduos."

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Ambulatório do HC recebe pacientes, encaminhados pela atenção primária, às segundas e sextas-feiras - JAILTON JR/JC IMAGEM

Concentração na capital 

No Estado de Pernambuco, a centralização dos serviços evidencia uma desigualdade geográfica no acesso ao tratamento cirúrgico da obesidade: pacientes de municípios do interior precisam se deslocar centenas de quilômetros, muitas vezes enfrentam dificuldades financeiras, logísticas e de tempo, para serem avaliados ou aguardarem a cirurgia.

Além disso, a concentração na capital sobrecarrega os serviços, o que gera filas maiores e atrasos ainda mais significativos para quem depende do SUS.

Hospital Agamenon Magalhães 

"No Hospital Agamenon Magalhães, realizamos de seis a oito cirurgias bariátricas por mês, mas ainda é um número bem menor do que a população precisa. O acesso se dá por encaminhamento do posto de saúde, após consulta médica. O paciente, ao chegar para o primeiro atendimento no Agamenon, recebe as orientações e solicitações para exames e pareceres", explica o cirurgião bariátrico Servio Fidney, chefe do Serviço de Cirurgia Geral e Bariátrica do HAM.

Ao iniciar o caminho de assistência no Agamenon, o paciente aguarda de três meses a um ano para ser submetido à bariátrica, segundo Servio. "A maioria conclui esse processo pré-operatório em menos de um ano."

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"Realizamos de 6 a 8 bariátricas por mês, mas é um número bem menor do que a população precisa", diz o cirurgião Servio Fidney, do HAM - GLEYSON RAMOS/DIVULGAÇÃO

A alta do serviço do HAM ocorre dois anos após a cirurgia. "Mas as portas permanecem abertas, especialmente se ocorrer reganho de peso. Se o paciente percebe isso, recomendamos que volte para atendimento o quanto antes para os ajustes necessários." O HAM é um hospital da rede estadual de saúde e, de acordo com a SES, há dez pacientes em espera prontos para ser operados na unidade.

Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira

Já o Imip, instituição filantrópica 100% SUS, sem fins lucrativos, está sem receber novos pacientes para a cirurgia bariátrica há cerca de um ano e meio.

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"Só conseguimos fazer quatro bariátricas por mês. Se conseguirmos realizar mutirões que estão previstos para 2026, talvez consigamos voltar a receber pacientes novos", diz a cirurgiã Danielle Teti, do Imip - DIVULGAÇÃO

"Quando assumi o serviço, dois anos atrás, havia mais de 200 pessoas na fila para o procedimento. Agilizamos os processos, os exames e os pareceres. Atualmente ainda há 100 em espera e, por isso, não fazemos mais novas admissões, pois não dá para deixarmos pacientes esperando três anos", diz a cirurgiã bariátrica Danielle Teti, chefe do Serviço de Cirurgia Bariátrica do Imip.

A médica informa que há equipe capacitada e infraestrutura, mas o Imip não tem o material para realizar as cirurgias em maior volume. Entre as principais tecnologias, estão grampeadores cirúrgicos, pinças de energia e torres de vídeo. "Tudo isso tem um custo alto. Por isso, só conseguimos fazer quatro bariátricas por mês. Se conseguirmos realizar mutirões que estão previstos para 2026, talvez consigamos voltar a receber pacientes novos."

Hospital Universitário Oswaldo Cruz

Por outro lado, o Hospital Universitário Oswaldo Cruz (Huoc) consegue atender a demanda de pacientes que chegam com indicação de tratamento cirúrgico, mas apenas aqueles com IMC até 45. "Para esses, a fila é praticamente nula. O grande desafio está nos pacientes com superobesidade, que têm IMC acima de 50. Antes da cirurgia, eles precisam perder entre 15% e 20% do peso por meio de tratamento clínico. Mas é difícil, pois o SUS não disponibiliza os novos medicamentos (injetáveis como tirzepatida e semaglutida) que favoreçam essa perda de peso pré-operatória, nem recursos como o balão deglutível", diz o chefe do Serviço de Cirurgia Bariátrica do Huoc, Pedro Cavalcanti.

Com isso, o Huoc tem atualmente cerca de 150 pacientes com superobesidade que não conseguem avançar na fila, porque não conseguem completar o tratamento pré-operatório. "Muitos deixam de voltar ao ambulatório por vergonha ou frustração. Já as pessoas entre 35 e 45 de IMC conseguem perder peso e realizar a cirurgia."

Isso evidencia uma lacuna grave: aqueles com superobesidade ficam à margem, sem acesso adequado ao tratamento clínico ou às novas medicações que poderiam ajudá-los a perder peso antes do procedimento cirúrgico.

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"A fila da bariátrica para pacientes com IMC até 45 é praticamente nula no Huoc. O grande desafio está nos pacientes com superobesidade, com IMC acima de 50. Antes da cirurgia, eles precisam perder entre 15% e 20% do peso", diz o cirurgião Pedro Cavalcanti, do Huoc - DIVULGAÇÃO

"Ao longo dos 27 anos de bariátrica no SUS, venho solicitando a criação de um Ambulatório de Endocrinologia ou Clínica Médica voltado ao tratamento da obesidade no Oswaldo Cruz. Sem esse serviço, é praticamente impossível que os pacientes com superobesidade consigam perder peso e avançar para a cirurgia", lamenta Pedro.

Ele ainda frisa que a Endocrinologia não assume esses casos porque a taxa de sucesso do tratamento clínico é mínima: apenas cerca de 5% respondem bem. Os outros 95%, segundo Pedro Cavalcanti, são pacientes que realmente precisam da bariátrica. O Huoc realiza, em média, quatro cirurgias por semana, todas por videolaparoscopia. Mas, para quem tem superobesidade, sem um tratamento clínico estruturado pré-operatório, a realidade continua extremamente difícil.

HC da UFPE dá suporte especial a casos de superobesidade

No Hospital das Clínicas (HC) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), há uma assistência voltada especialmente para pacientes com superobesidade. Eles permanecem internados por períodos determinados, recebem suporte multiprofissional, acompanhamento nutricional e psicológico, além de incentivo à prática de atividades físicas.

O objetivo é possibilitar a perda de peso inicial, fundamental para reduzir riscos cirúrgicos e preparar o organismo para a realização da cirurgia bariátrica.

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Nayanne Soares de Lima está internada há 24 dias para se preparar para a bariátrica: "perdi 9 quilos" - JAILTON JR./JC IMAGEM

A dona de casa Nayanne Soares de Lima, 35 anos, é uma das pacientes que estão internadas no HC-UFPE para perder peso e, dessa maneira, passar pelo procedimento. Ela mora em Caruaru, no Agreste de Pernambuco, e já está há três anos no serviço. "Vim para ser internada no dia 17 de agosto. Desde então, perdi nove quilos. Estou seguindo uma dieta de 1.300 calorias por dia e descendo para a academia do hospital", conta Nayanne.

Ela relata que, durante o auge da pandemia e covid-19, ganhou bastante peso. "Foi por ansiedade, porque eu não podia mais trabalhar na feira. Fiquei muito ansiosa. Tenho três filhos e sou mãe solo. Então, ficar parada, sem ganhar dinheiro, me angustiou."

Agora, ela está confiante de que terá condições de passar pela bariátrica. "Depois dessa cirurgia, espero estar saudável para buscar várias coisas boas para a minha vida. Já vivi preconceito por causa do meu peso várias vezes, mas nunca deixei isso abalar minha autoestima. Não tenho previsão de quando será a cirurgia, mas espero que seja logo, porque a saudade de casa é grande. Estou no hospital há mais de 20 dias", diz Nayanne, com a certeza de que dá os primeiros passos para conquistar uma nova rotina, com mais saúde, dignidade e qualidade de vida.

Governo de Pernambuco avalia habilitar novos hospitais

Procurada pelo JC para comentar sobre o cenário do tratamento cirúrgico da obesidade em Pernambuco, a Secretaria Estadual de Saúde (SES) falou sobre a possibilidade de ampliar os centros de tratamento da obesidade. "Temos analisado habilitar outros hospitais com perfil e capacidade instalada para realizar a bariátrica. Estamos estudando quais unidades poderiam ser habilitadas como centros completos de tratamento da obesidade junto ao Ministério da Saúde", diz a diretora-geral de Articulação Estratégica da SES, Noemy Gomes.

Questionada sobre a viabilidade de a SES investir nos hospitais já habilitados para diminuir a fila, Noemy explica que precisa avaliar se cada estabelecimento tem efetivamente capacidade de ampliar o que já existe. "O Imip é filantrópico, o HC-UFPE pertence à EBSERH (Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares), o Oswaldo Cruz é da UPE, e o Agamenon é o único próprio da SES. Cada caso precisa de análise para verificar a estratégia de expandir a capacidade na estrutura existente."

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"Estamos estudando quais unidades poderiam ser habilitadas como centros completos de tratamento da obesidade junto ao Ministério da Saúde", diz a diretora-geral de Articulação Estratégica da SES, Noemy Gomes - SES/DIVULGAÇÃO

Enquanto o governo de Pernambuco estuda caminhos, milhares de pacientes vivem com uma doença cujas complicações avançam. "Para solicitar habilitação ao Ministério, precisamos comprovar que a capacidade atual já atingiu o limite máximo. Essa análise detalhada da necessidade faz parte do planejamento, e estamos resolvendo várias questões prioritárias dentro desse processo", informa Noemy.

Paraíba lidera no Nordeste

Enquanto Pernambuco ainda estuda qual caminho seguir para ampliar a oferta de cirurgias bariátricas, a Paraíba já colhe resultados concretos. Em 2024, o Estado vizinho liderou o ranking de procedimentos realizados pelo SUS no Nordeste, com cerca de 600 cirurgias, segundo dados do Tabwin e do Sistema de Informações Hospitalares do Datasus.

O avanço é fruto do Programa Opera Paraíba, que incluiu a bariátrica no rol de cirurgias eletivas, garantiu planejamento, financiamento e ampliação da rede de atendimento.

A comparação escancara o contraste de estratégias: de um lado, Pernambuco ainda avalia viabilidade de habilitar novos centros ou reforçar os já existentes; de outro, a Paraíba apostou em uma política pública clara, com repasse de recursos e prioridade definida.

"A Paraíba realizou um número bastante expressivo de cirurgias porque o governo do Estado financiou e aumentou o repasse do valor da cirurgia. Isso estimulou hospitais, tanto públicos quanto privados, a realizarem cirurgias bariátricas pelo SUS. A Paraíba deu um salto impressionante e mostrou que, quando há boa vontade, a gente pode ter ideias muito efetivas", sublinha o cirurgião Álvaro Ferraz, chefe do Serviço Cirurgia Geral do Hospital das Clínicas (HC) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Ele destaca o caso da Paraíba como um "modelo de justiça social" e "justiça em prática", onde o aumento do investimento público no tratamento demonstra a possibilidade de combater a obesidade não apenas com medicina, mas com vontade política e distribuição de recursos.

Não há milagre: mudança duradoura exige acompanhamento contínuo

A bariátrica não é apenas uma cirurgia que reduz o estômago para perda de peso. É um tratamento que começa antes da operação, continua indefinidamente, exige disciplina e acompanhamento profissional. O procedimento envolve preparo, acompanhamento psicológico, mudanças de hábitos e vigilância clínica ao longo da vida. É fundamental os pacientes compreenderem que a bariátrica não é um atalho, mas abre caminhos para uma nova forma de viver.

"A obesidade é uma doença que envolve questões emocionais, hormonais e comportamentais. O paciente não pode caminhar sozinho. Ele precisa de uma equipe e da família ao lado para oferecer suporte contínuo. Muitos acreditam que basta seguir a dieta no pré e no pós-operatório imediato, mas não é assim. O acompanhamento é para a vida inteira, seja na suplementação ou nos ajustes da rotina alimentar", explica a nutricionista bariátrica Uyara Lima.

Ela ressalta que o mesmo vale para o cuidado psicológico. "Sempre pergunto se os pacientes estão indo a sessões de terapia, porque essa parte do comportamento é essencial."

Especialistas destacam ainda a importância da atividade física na assistência a quem passou ou passará por cirurgia bariátrica. No Hospital das Clínicas (HC) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), profissionais de educação física orientam os pacientes na incorporação de exercícios aeróbicos e de força, a fim de melhorar a capacidade cardiorrespiratória, a saúde cardiovascular e a manutenção do peso a longo prazo.

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Pacientes são acompanhados na academia de ginástica do HC-UFPE - JAILTON JR./JC IMAGEM

Campanha de conscientização

Recentemente a Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM) lançou a campanha Cirurgia bariátrica - a melhor escolha, com o objetivo de ampliar o acesso à informação sobre o tratamento cirúrgico da obesidade como uma alternativa eficaz, duradoura e custo-efetiva.

Um estudo apresentado na Reunião Científica da Sociedade Americana de Cirurgia Metabólica e Bariátrica (ASMBS, na sigla em ingês), em junho deste ano, mostrou que a cirurgia tem resultados até cinco vezes superiores aos alcançados com medicamentos injetáveis como semaglutida e tirzepatida.

Quem quiser pode saber mais sobre a campanha no site sbcbm.org.br/amelhorescolha.

Assista ao episídio #33 do videocast Saúde e Bem-Estar, do JC, sobre cirurgia bariátrica 

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