Escuta de palavras e silêncios
Livro de Thaís Roque, que inspira a pausa voltada para a reconexão das pessoas consigo mesmas e com o mundo, será lançado no Recife, neste sábado
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A hiperconectividade de nossa época é contrastada com a necessidade da pausa que conduz ao reconhecimento de si, dos outros e do mundo. Para tanto, a parada requer silêncio – ou uma coleção de silêncios, preciosos como as palavras certas no momento oportuno. Ao passar por um burnout, a escritora Thaís Roque, Ph.D. em Engenharia Biomédica pela Universidade de Oxford e especialista em comunicação, inteligência artificial e desenvolvimento humano, traduziu um processo pessoal de recuperação em um livro infantil para todas as idades.
Em “O colecionador de silêncios”, ilustrado por Eric Farpa e publicado pela Ciranda na Escola, da Ciranda Cultural, um inventor que temia o silêncio cria um “dessilenciador” que transforma a realidade num caos. Daí vem a redescoberta do encanto e do sentido para os silêncios que nos preenchem. A autora lança a obra na capital pernambucana neste sábado, com sessão de autógrafos a partir das 4 da tarde na Livraria Jaqueira do Recife Antigo.
Na entrevista a seguir, ela conta como surgiu a obra, menciona a influência da poesia de Manuel de Barros e Ondjaki, conta quais alguns de seus silêncios preferidos, e fala da importância do silêncio para a conexão.
Antes das reflexões que resultaram no livro, o que levou a uma necessidade do silêncio, para você?
Thaís Roque - Depois da pandemia, como muitas outras pessoas, encontrar um silêncio - dentro e fora de mim - ficou cada vez mais difícil. Vivemos em um momento de muitos excessos, muitos estímulos, e de uma falsa ideia de que sucesso significa dar conta de tudo: do emprego, da casa, do filho, da escrita, dos amigos, dos hobbies, da saúde, da vida. Para mim, isso se traduziu em uma necessidade de estar sempre ativa, sempre produzindo, e de, assim, não me permitir estar em silêncio. E sem o silêncio não consegui escutar os sinais do meu corpo, até que ele gritou e pifou. Mas essa parada de emergência não necessariamente me levou ao silêncio. Mesmo com o corpo parado, a cabeça continuava a mil. Não conseguia sequer ler um livro sem me sentir exausta. Um sentimento de culpa por não estar ativa.
Como o silêncio apareceu?
Thaís Roque - Foi aí que reencontrei poemas de Manuel de Barros e de Ondjaki, que me ofereceram pequenos momentos de silêncio. Me relembraram do poder de pequenos momentos, como observar uma lesma e seguir seu ritmo. Aos poucos fui desacelerando, reaprendendo a andar ao invés de correr - o que em Paris provou-se ser muito difícil. Hoje, 3 anos depois da minha última crise de burnout, procuro abrir espaço para pequenos silêncios para que possa estar mais conectada comigo mesma, com as pessoas e com o mundo ao meu redor.
Pode identificar a principal inspiração de seu filho, na obra?
Thaís Roque - Mesmo que a teoria sobre a importância do silêncio e da verdadeira presença tenha vindo de livros, poemas, podcasts, e muita pesquisa, foi meu filho, Arthur, que me ensinou na prática a desacelar. Quando me permiti andar no seu passo, comecei a enxergar o mundo pelos seus olhos. O tempo da criança é outro. Eles não têm pressa. Porém, crianças podem facilmente entrar na nossa correria e ansiedade. Especialmente essa ansiedade gerada pelo acúmulo de estímulos e das redes sociais, e pelo nosso medo constante do ócio. Então, de uma certa forma, a obra surgiu também das várias conversas que tive com meu filho, onde tentava justificar o porquê de não o deixarmos ficar na tela. Conversas sobre a importância do tédio, do não fazer nada. O livro surgiu de uma brincadeira, até: imagine como seria o mundo sem o silêncio?
Na sua visão, qual a importância do silêncio para o desenvolvimento pessoal, seja na infância e adolescência, seja na idade adulta?
Thaís Roque - Sem o silêncio não podemos escutar nossos pensamentos, nosso corpo, o outro, ou o mundo. Sem o silêncio (a pausa, o tédio) estamos cheios, e quando estamos cheios não podemos dar espaço para o novo, o que chamamos de inspiração ou criatividade. Muitos dos nossos problemas, sejam eles na infância, na adolescência, ou na idade adulta, podem ser resolvidos quando estamos totalmente conectados conosco mesmos. Quando paramos para nos ouvir. E se ouvir, entender quem somos e quem queremos ser nesse mundo, é o primeiro passo para qualquer desenvolvimento - não só pessoal mas também em sociedade. Acho que no fundo estamos evitando esses silêncios por certo medo de termos que reavaliar nossos valores não só pessoais, mas principalmente sociais. Então seguimos correndo. Mas a conta chega, em forma de burnout, em forma de solidão e insônia coletiva, em forma de ansiedade e de muitas outras doenças.
O silêncio pode ser plural, e há silêncios bem diferentes. Quais os mais preciosos na sua coleção?
Thaís Roque - Amo o silêncio que a chuva traz. O silêncio com pessoas com quem não sinto necessidade de preencher o vazio. Amo ver o mundo pelos olhos do meu filho mais novo, Milo. O silêncio do seu olhar. Mas, para ser sincera, hoje, como mãe de dois, tenho dois silêncios que adoro: o da manhã antes de todos acordarem, eu e meu café, e o do final do dia, quando todos já dormem.
Além de isolamento, o silêncio pode ser conexão. Como um livro. O que a publicação de "O colecionador de silêncios" tem significado pra você?
Thaís Roque - Quando escrevi o livro não imaginei nada além dessa vontade de falar sobre algo tão importante que está sendo perdido e praticamente esquecido. Algo tão simples, porém tão poderoso. Mas quando comecei a conversar com as pessoas sobre o livro, e principalmente sobre minhas experiências pessoais de burnout, das tentativas de me conectar mais com meus filhos, das dificuldades que temos em educá-los em meio a tanto estímulo nessa era digital, da nossa dificuldade de parar, percebi que não estava só. O livro, incialmente pensado para o público infantil, tem ressoado muito com os adolescentes e adultos com quem tive o prazer de conversar em eventos como a CLIPE e a Bienal de Pernambuco. E com isso tenho tido muitos momentos de conexão profunda com esses leitores que - como eu há três anos - estavam precisando ser relembrados de que um pequeno momento de silêncio, uma pequena pausa intencional, pode ser o caminho mais simples entre suas memórias e seus sonhos, entre seu passado e o futuro que ainda podem desenhar. Tenho adorado colecionar esses silêncios e espero encorajar cada vez mais leitores a tornarem-se colecionadores de silêncios.
Mas há silêncios que não são bons, certo?
Thaís Roque - Existem tipos de silêncios que eu desgosto. Por exemplo, quando o silêncio é usado como arma, o tal do tratamento silencioso, ou o silêncio onde pessoas simplesmente não se têm mais nada a dizer. O silêncio da depressão. O silêncio que afasta. O silêncio do adolescente preso no quarto, que não é tão silencioso. O silêncio de pessoas silenciadas, pessoas que não são vistas, pessoas que não têm voz ativa. Esses silêncios podem ser perigosos. Por isso é preciso às vezes estar em silêncio para observar qual tipo de silêncio estamos vivenciando, e para poder agir de forma adequada. Ceder espaço, abrir espaço, integrar pessoas que no geral têm sido historicamente excluídas do debate social. Enfim, usar o silêncio para criar pontes e se conectar!