Literária | Notícia

Entidades unidas pela leitura

Convergência de propósitos e pregação da união para ampliar conquistas do setor marcam debate de representantes de entidades do mercado editorial

Por Fábio Lucas Publicado em 20/08/2025 às 18:41

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O 4º Encontro de Editores, Livreiros, Distribuidores e Gráficos teve início nesta quarta, 20, em Guarujá, São Paulo. Para abrir o evento, presidentes e representantes das principais entidades nacionais expuseram os maiores desafios atuais do setor – que se refletem, em largo prisma, nas políticas públicas voltadas à democratização do acesso ao livro e à leitura num país de leitores em redução, no ambiente de negócios para cada um dos integrantes da rede produtiva, ou até na disposição dos leitores abrirem um livro.
Além de Sevani Matos, presidente da Câmara Brasileira do Livro (CBL), organizadora do encontro, participaram do momento de abertura: o presidente da Associação Brasileira de Livros e Conteúdos Educacionais (Abrelivros), Ângelo Xavier; o presidente da Associação Brasileira da Indústria Gráfica (Abigraf) de São Paulo, João Scortecci; a presidente da Liga Brasileira de Editoras (Libre), Lizandra Magon; a presidente da Associação Brasileira de Difusão do Livro (ABDL), Patrícia Amorim; o diretor da Associação Nacional de Livrarias (ANL), Marcus Teles; e o diretor do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL), Renato Fleischner.
Para Sevani Matos – que concedeu entrevista à Literária, na edição de 20 de agosto – o evento proporciona a discussão de temas urgentes e estratégicos, que pela primeira vez pode ser acompanhada ao vivo pela internet, em conquista de inovação e inclusão. Quanto mais a informação chega a mais gente, de fato, melhor para o setor, seus integrantes e o público em geral, interessados na leitura e seu desenvolvimento no Brasil. De acordo com a presidente da CBL, a união das entidades convidadas não é um ideal, mas uma prática que tem trazido conquistas – em favor dos leitores e do mercado, como quando se conseguiu impedir que os livros fossem taxados, na reforma tributária.

 

Atrasos na educação

O presidente da Abrelivros chamou atenção para as dificuldades originadas dos atrasos em programas de compras governamentais, sobretudo para o ensino médio. Os sucessivos adiamentos geram atrasos que sobrecarregam o orçamento público, fazendo com que as compras sejam postergadas novamente.
O problema mencionado por Ângelo Xavier vem desde o governo Jair Bolsonaro, e não foi resolvido na gestão Lula. O comprometimento do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) afeta o planejamento das aulas, podendo significar defasagens no aprendizado e um grande prejuízo na formação intelectual, quando os estudantes são privados de ter contato com a literatura, além dos livros didáticos.

 

Organização é bom sinal

A mobilização em torno da aprovação da Lei Cortez – que limita por 12 meses o desconto que pode ser dado no preço de livros que acabaram de ser lançados – é um exemplo da organização do mercado, e isso é um bom sinal, na opinião de Marcus Teles, da rede de livrarias Leitura, representante da ANL no encontro. Apesar de somarem cerca de 6% dos livros comercializados, os lançamentos precisam ser preservados de grandes descontos, porque são os livros novos que levam as pessoas às livrarias, segundo Teles. “As livrarias são a porta de entrada da novidade”, define, lembrando que a Lei Cortez está há sete anos em tramitação no Senado, e ainda terá que passar pela Câmara dos Deputados. Mesmo sem a vigência da lei, segundo o diretor da ANL, muitas livrarias não dão descontos em lançamentos, por pelo menos seis meses da data de chegada ao mercado. “Estamos caminhando juntos. Estou feliz de ver essa unidade”, disse Marcus Teles.

 

Aproximação necessária

Dirigente da Associação Brasileira da Indústria Gráfica (Abigraf) de São Paulo, João Scortecci ressaltou a aproximação efetuada entre gráficas e editoras, nos últimos anos. “Durante muito tempo houve distanciamento”, afirmou. Para ele, a parceria entre os dois setores é crucial para o mercado. E eventos como o encontro promovido pela CBL servem de impulso a uma maior integração, a partir de conversas e trocas de experiências de lado a lado.

 

IA e direito autoral

O Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL) atualmente centra esforços na defesa do direito autoral diante do avanço da Inteligência Artificial (IA), especialmente a chamada IA generativa, de acordo com o diretor Renato Fleischner. Esse tipo de IA cria conteúdos a partir de gigantescas bases de dados, oferecendo textos e imagens produzidos pela reformulação de padrões textuais ou visuais, por exemplo. Em sintonia com diversos movimentos no mundo, o SNEL se posiciona a favor do direito dos autores, e tem levantado o tema junto a deputados e senadores no Congresso Nacional.

 

Criar um país leitor

Mais importante do que vender livros é ver um país leitor, disse Lizandra Magon, presidente da Liga Brasileira de Editoras (Libre). Nesse aspecto, a coordenação do governo federal pode ser vista como um avanço em prol da capilaridade e da discussão de demandas próprias nos estados e municípios, segundo ela. Vale recordar que essa coordenação se dá através do Ministério da Cultura, que conta com uma secretaria dedicada ao livro e à leitura, comandada por Fabiano Piúba. Lizandra Magon defende que o mercado deve buscar estar sempre mais próximo do leitor e da sociedade, pois “o público em geral não entende as peculiaridades do setor”. A dirigente da Libre sustentou ainda que os planos em execução para nortear políticas públicas para o livro e a leitura não podem ser apenas cartas de intenções – devem conter elementos que facilitem sua execução, e a regulamentação não deve demorar. De fato, as regulamentações podem demorar tanto que um novo plano precisa ser feito, por decurso de prazo.

 

Todos pela leitura

Foi a presidente da Associação Brasileira de Difusão do Livro (ABDL), Patrícia Amorim, quem sintetizou o espírito colaborativo que parece reunir, de maneira crescente, as entidades do mercado editorial no Brasil. “Cada entidade tem seu foco, mas todos os temas são pertinentes ao mercado do livro como um todo”, resumiu. Para Patrícia Amorim, um dos maiores focos deve ser intensificar a presença do livro na escola. Além disso, no arco de ações da ABDL, além do estímulo à venda no ambiente escolar, estão a participação em feiras literárias e o incentivo à abertura de livrarias.

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