CONIBEN 2025 começa em Lisboa com foco em convergência e desafios da transição energética do Brasil e Península Ibérica
Primeiro dia da 4ª CONIBEN aconteceu no Hotel Tivoli, em Lisboa, para discutir e novos modelos para garantir segurança e acelerar a descarbonização
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A quarta edição da CONIBEN abriu nesta quinta-feira (27) com uma série de debates que reforçaram a importância da convergência energética entre Brasil, Portugal e Espanha, dentro do tema central de 2025: Convergência Energética — Estratégias para Mitigação e Compensação. O evento, totalmente presencial, busca conectar lideranças do setor energético ibero-brasileiro e promover trocas técnicas e estratégicas para acelerar inovações essenciais à transição global.
“Vamos buscar verificar o que está sendo feito, qual a melhor tecnologia e por isso que nós reunimos aqui grupos de especialistas em planejamento, especialistas em aspectos regulatórios, especialistas em operação”, afirmou Reive Barros dos Santos, ex-secretário de Planejamento e Desenvolvimento Energético do Ministério de Minas e Energia e coordenador da Coniben. “É sobretudo um ambiente, ambiente de negócio”, completou.
A sessão solene de abertura contou com a participação do embaixador do Brasil em Portugal, Raimundo Carreiro, do Secretário Executivo do Ministério das Minas e Energia do Brasil, Arthur Valério, do ex-ministro das Minas e Energia do Brasil, Bento Albuquerque, do ex-ministro da Energia e Ambiente de Portugal, João Galamba, do secretário de Desenvolvimento Econômico de Pernambuco, Guilherme Cavalcanti e dos senadores Fernando Dueire e Laércio José de Oliveira.
“Brasil chega a esta conferência não apenas como participante, mas como um protagonista da transição energética global. Transição que ainda depende do uso responsável do petróleo e do gás, sem contar a energia nuclear que passa por um renascimento em nome da resiliência de nossos sistemas elétricos”, ressaltou o embaixador no discurso inaugural.
Transição justa marca abertura dos debates
Moderado por Marina Alves, diretora de Estratégias Políticas e Projeto da Agência Nacional de Energia de Portugal (ADENE), o painel inaugural abordou a necessidade de uma transição energética que inclua sociedade civil, proteja empregos e crie novas oportunidades. Maria Eduarda Paiva, secretária do Setor Político da Representação do Brasil na União Europeia, destacou mudanças nas dinâmicas de poder com a redução da dependência de combustíveis fósseis, especialmente após a guerra na Ucrânia.
Ana Gonçalves, Diretora de Operações S317 Consulting, trouxe o alerta da pobreza energética em Portugal, que atinge até 3 milhões de pessoas, e reforçou o papel das comunidades de energia. O painel concluiu defendendo participação multissetorial e maior presença de jovens e mulheres no setor.
Pragmatismo no planejamento e execução
O segundo painel revelou desafios entre o planejamento e a implementação. Luiz Piauhylino Filho, diretor-presidente da H2 Verde, apontou a falta de pragmatismo em projetos de hidrogênio e metanol, citando entraves como reconexão à rede que pode levar até 12 anos.
Thiago Ivanosky, diretor da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), destacou que 50% da matriz energética brasileira é renovável e apresentou perspectivas do Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE) 2035, que prevê R$ 3 trilhões em investimentos. Também ressaltou a urgência de erradicar a pobreza energética, que afeta 40% dos brasileiros.
Representando Portugal, Maria João Coelho, diretora geral da Associação Portuguesa das Empresas do Sector Eléctrico (ELECPOR), destacou a pressão do aumento global das temperaturas e a necessidade de previsibilidade regulatória e investimentos robustos até 2050.
“O que vemos é que a procura de eletricidade na União Europeia aumentou 1% entre 2023 e 2024 e ainda está 7% abaixo relativamente a 2021 e vemos que a taxa de eletrificação está por 23% e há 10 anos. Portanto, há aqui muito trabalho a fazer”, ressaltou.
Regulação em um cenário de complexidade crescente
No painel regulatório, Fernando Mosna, diretor da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), discutiu impactos do apagão de agosto de 2023 e a necessidade de revisar normas sobre curtailment e armazenamento.
Edvaldo Santana, ex-diretor da ANEEL, elogiou avanços na sinalização de preços, mas alertou para riscos à confiabilidade diante das mudanças climáticas.
Ricardo Loureiro, conselheiro da Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE), apresentou a evolução da regulação portuguesa, lembrando que o país alcançou 70% de renováveis em 2024 e que o biometano surge como oportunidade para descarbonizar o setor de gás.
Operação de sistemas elétricos e novos paradigmas
João Conceição, administrador das Redes Elétricas Nacionais (REN), destacou que Portugal passou de 230 para 59 mil agentes no setor elétrico, ampliando a complexidade da operação. Previu que o curtailment pode chegar a 65% até 2030 sem expansão do armazenamento.
No contexto brasileiro, discutiu-se o recorde de 93% de geração renovável em 2023, mas também riscos à confiabilidade. Marcelo Lopes, diretor executivo de Marketing, Comercialização e Novos Negócios da ENEVA, defendeu o papel estratégico das térmicas a gás e a adoção de um “redespacho inteligente” para evitar apagões.
Luíza Melcop, sócia da Cortez Pimentel & Melcop Advogados, reforçou a necessidade de mecanismos de preço, compensação, flexibilidade e mercados intradiários, que são plataformas para ajuste de programas energéticos que ocorrem após o mercado diário, destacando avanços como o futuro leilão de capacidade por baterias.
Eletrificação e descarbonização da economia
Fechando o primeiro dia, João Torres, diretor-geral da EDP, destacou a persistência de desigualdades no acesso à energia — 30 milhões de brasileiros ainda vivem sem eletricidade — e defendeu redes mais robustas e segurança energética.
Marcelo Alves, diretor de Licenciamento Ambiental do Estado do Pará, apresentou uma profunda reformulação do licenciamento ambiental no Pará, que reduziu prazos e ampliou o diálogo com comunidades, contribuindo para evitar a emissão de 240 mil toneladas de CO?.
Henrique Adorno, Key Account Manager LATAM da bse methanol GmbH, encerrou o painel detalhando soluções de Power-to-X para transformar excedentes renováveis em metanol, reduzindo cortes de energia e abrindo novas possibilidades industriais.
O primeiro dia da CONIBEN 2025, em Lisboa, consolidou o evento como principal ponte entre Brasil e Península Ibérica para debates estruturantes sobre a transição energética. Os painéis apontaram desafios, oportunidades e a urgência de decisões pragmáticas para que a transformação avance de forma justa, segura e competitiva.