Hidrogênio Verde ganha protagonismo na corrida global por energia limpa
CONIBEN 2025 debate US$ 570 bi em investimentos e o papel da Península Ibérica e do Brasil no futuro global do setor
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Com o mundo batendo recordes de calor e sob pressão para cortar emissões, o hidrogênio verde tem ganhado força como solução-chave: um combustível limpo e versátil, capaz de substituir petróleo, carvão e gás em indústrias difíceis de descarbonizar. Para os investidores, é um prenúncio de grandes oportunidades. É o que aponta a Agência Internacional de Energia (IEA), que estima em 180 milhões de toneladas/ano a demanda global por hidrogênio de baixo carbono até 2050, exigindo investimentos anuais superiores a US$ 1 trilhão a partir da próxima década.
O hidrogênio verde também será um do pilares das discussões da Conferência Ibero-Brasileira de Energia – CONIBEN 2025, que ocorrerá nos dias 27 e 28 de novembro no Hotel Tivoli, em Lisboa, Portugal, que vai reunir os principais especialistas e líderes do setor para discutir estratégias de desenvolvimento sustentável e consolidação de um mercado de energia.
“Mais do que uma conferência, o evento se firma como um ambiente de negócios. É ali que as conversas sobre marcos regulatórios ganham tração, onde modelos de financiamento inovadores (como green bonds e fundos climáticos) são apresentados e onde, principalmente, produtores brasileiros e investidores europeus se sentam à mesma mesa. É o lugar para transformar potencial em projetos, e projetos em contratos”, aponta Luiz Piauhylino Filho, presidente da H2 Verde e um dos palestrantes da Coniben 2025
Chamado de “verde” quando produzido a partir da eletrólise da água usando energia renovável (solar, eólica ou hídrica), o hidrogênio tem como único subproduto o oxigênio. Diferentemente do chamado hidrogênio “cinza”, obtido de combustíveis fósseis, sua pegada de carbono é praticamente nula. Essa característica torna o H? verde peça-chave para atingir as metas do Acordo de Paris e para garantir a segurança energética num contexto de crises geopolíticas.
Segundo o relatório Hydrogen Insights 2024, do Hydrogen Council em parceria com a consultoria McKinsey, o pipeline global de projetos de hidrogênio ultrapassou US$ 570 bilhões em investimentos anunciados. Desse total, cerca de US$ 150 bilhões já têm financiamento confirmado e cronogramas definidos até 2030. A Europa lidera com mais de 30% dos projetos, impulsionada pelo pacote climático “Fit for 55” e pela meta de neutralidade de carbono em 2050. Japão e Coreia do Sul apostam no H? para mobilidade e geração elétrica, enquanto Arábia Saudita e Emirados Árabes planejam mega plantas para exportação. Nos Estados Unidos, o governo alocou US$ 8 bilhões em “hydrogen hubs” pelo programa Bipartisan Infrastructure Law.
Na Península Ibérica, Portugal e Espanha surgem como grandes motores da produção europeia. Com abundância de sol e vento, além de portos estratégicos para o Atlântico e o Mediterrâneo, os dois países já anunciaram mais de € 20 bilhões em investimentos em hidrogênio verde até 2030. O governo espanhol aposta no Corredor do Hidrogênio Verde ligando o porto de Sines, em Portugal, a Marselha, na França, criando um eixo de exportação para toda a União Europeia. Portugal, que tem uma das matrizes mais limpas do continente, planeja transformar Sines em hub de produção e distribuição, atraindo empresas alemãs, francesas e japonesas. Analistas veem a região como a Arábia Saudita do hidrogênio, com potencial de se tornar fornecedora central para o norte da Europa, onde a geração renovável é mais limitada.
A VOCAÇÃO DO BRASIL
O Brasil reúne condições privilegiadas para se tornar um dos maiores exportadores mundiais de hidrogênio verde: matriz elétrica 93% renovável no Nordeste, abundância de água e posição estratégica para envio à Europa. De acordo com o Ministério de Minas e Energia, mais de US$ 30 bilhões em projetos já foram anunciados no país, com destaque para os estados do Ceará, Bahia e Rio Grande do Norte, que firmaram memorandos com investidores estrangeiros. O Complexo do Pecém (CE) e o Porto de Suape (PE) querem se consolidar como hubs de exportação para a União Europeia, que busca diversificar fornecedores. A Petrobras avalia projetos-piloto de produção em refinarias, enquanto empresas privadas como Casa dos Ventos, Fortescue e Qair planejam plantas de larga escala.
Estudos da Confederação Nacional da Indústria (CNI) apontam que o hidrogênio verde pode gerar R$ 150 bilhões por ano em exportações e criar mais de 300 mil empregos diretos e indiretos até 2040, caso o país consiga destravar marcos regulatórios e infraestrutura de escoamento.
Segundo Piauhylino Filho, a jornada para se tornar um fornecedor mundial de H2V e derivados é uma maratona numa pista com muitas barreiras a serem superadas. “O primeiro grande desafio é material. A infraestrutura elétrica do país, com suas redes de transmissão já tensionadas, simplesmente não comporta a avalanche de energia que os novos projetos demandarão. A expansão precisa ser rápida e coordenada”, afirma.
De qualquer forma, a transformação já começou. Portos brasileiros firmam parcerias com Rotterdam e Antuérpia para exportação; fundos de investimento climático destinam bilhões a novas plantas; e universidades aceleram a formação de mão de obra especializada. Para a Agência Internacional de Energias Renováveis (IRENA), o Brasil pode responder por cerca de 10% da produção mundial de hidrogênio verde até 2040.
A BARREIRA DO CUSTO
Apesar do entusiasmo, o hidrogênio verde ainda é caro: o custo médio mundial varia de US$ 4 a US$ 6 por quilo, mais que o dobro do hidrogênio cinza. A meta é reduzir para US$ 1-2/kg até 2030. Para isso, será necessário ampliar a oferta de energia renovável, baratear eletrolisadores e garantir redes de transporte e armazenamento seguras. No Brasil, especialistas alertam também para a necessidade urgente de um marco legal específico, que defina regras de certificação, incentivos fiscais e padrões de exportação. O Senado discute um projeto de lei que cria a “Estratégia Nacional do Hidrogênio”, com metas de produção e estímulos à pesquisa.
O hidrogênio verde não é solução única, mas é peça indispensável para descarbonizar setores como siderurgia, transporte marítimo e fertilizantes. Com investimentos recordes e políticas públicas consistentes, o Brasil tem a chance de se posicionar como potência global, fornecendo combustível limpo para o mundo. Transformar esse potencial em realidade depende de decisões rápidas em regulação, infraestrutura e financiamento. Em meio à emergência climática, cada ano perdido pesa.