Em greve, estudantes de Medicina da UPE realizam ato contra corte de alimentação de estagiários nos hospitais universitários

O Governo informou que retomou a alimentação, mas estudantes irão manter a greve por garantia de alimentação em todo o complexo hospitalar

Por Mirella Araújo Publicado em 30/01/2026 às 18:17 | Atualizado em 03/02/2026 às 16:49

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Após iniciarem uma greve nesta sexta-feira (30), em protesto contra a determinação de retirada da alimentação gratuita dos internos no Centro Universitário Integrado de Saúde Amaury de Medeiros (CISAM), estudantes da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade de Pernambuco (UPE) vão realizar um ato nesta segunda-feira (2), em frente ao Palácio do Campo das Princesas, às 15h.

O diretor-geral do Diretório Acadêmico Josué de Castro, Arthur Godê, informou nas redes sociais que, embora o Governo de Pernambuco tenha entrado em contato após a mobilização dos estudantes, informando o retorno do fornecimento da alimentação no Cisam, a categoria decidiu manter a greve, uma vez que a principal demanda ainda não foi atendida, que é a garantia de alimentação em todo o complexo hospitalar, e não apenas em uma unidade.

Segundo os estudantes, a reivindicação também se insere em um contexto de demandas históricas que exigem soluções efetivas e permanentes, como a criação de um Restaurante Universitário na UPE.

"O secretário executivo de Ciência, Tecnologia e Inovação de Pernambuco [Kenys Bonatt] entrou em contato conosco e solicitou que voltássemos às atividades, mas isso é algo que está sendo deliberado coletivamente e, até então, está todo mundo de acordo em a gente continuar a greve. Porque nossa pauta é muito maior que a alimentação no Cisam; é a alimentação dentro do complexo hospitalar inteiro. E, para além disso, existe uma demanda histórica e estrutural da UPE por alimentação”, explicou Arthur.

Segundo a entidade representativa, os estudantes em internato cumprem longas jornadas, sem remuneração, e não podem ser privados de condições básicas para permanecer nos campos de prática e cuidar dos pacientes.

“Já existem unidades em que os estudantes não recebiam alimentação há um tempo. A nossa crítica é que, por parte do Governo do Estado, existe uma política sistemática, de anos, de tratar a UPE com austeridade fiscal e corte de gastos. Isso não é novo, e várias gerações já lidam com essa falta de alimentação”, afirmou Arthur Godê, em entrevista à coluna Enem e Educação.

Entenda o caso

O internato médico é a etapa final do curso de Medicina, marcada pela realização de atividades práticas e estágios obrigatórios em unidades de saúde. Nesse período, os estudantes passam a maior parte da formação em campo, atuando em hospitais universitários e na rede estadual de saúde, com carga horária integral. Anualmente, diferentes turmas de internato se revezam nos campos de prática, tanto no complexo hospitalar da UPE quanto em outras unidades da rede pública.

A universidade estadual possui três complexos hospitalares: o Cisam, localizado no bairro da Encruzilhada, na Zona Norte do Recife; o Hospital Universitário Oswaldo Cruz (Huoc); e o Pronto-Socorro Cardiológico Universitário de Pernambuco Professor Luiz Tavares (Procape), localizados no bairro de Santo Amaro. Nas duas últimas unidades, os estudantes já não contavam com o fornecimento gratuito de alimentação.

Nesta segunda-feira (26), foi distribuída uma circular informando que, em atendimento às orientações da Secretaria da Controladoria-Geral do Estado (SCGE), foi estabelecido, como medida de “controle de despesa”, que os discentes de graduação em atividades práticas e estágios não possuem direito à alimentação nos refeitórios dos hospitais universitários. O documento foi assinado pela diretora da Unidade de Educação e Saúde, Maria Benita Spinelli.

“Quando a gente foi discriminar esse cálculo, era um valor irrisório de R$ 4 mil por mês para o orçamento público. É só mais uma medida em que se coloca austeridade para quem tem menos, mas que impacta diretamente quem já paga transporte, passa o dia inteiro em um curso de período integral e agora ficaria sem alimentação”, relatou Arthur.

Diante da situação, o Diretório Acadêmico Josué de Castro realizou uma assembleia, na última quarta-feira (28), com a participação de mais de 100 estudantes do curso de Medicina, quando foi aprovada, por unanimidade, a greve por tempo indeterminado.

“Muitas vezes existe um discurso direcionado aos alunos de que somos parte do serviço e precisamos estar no atendimento e cuidado do paciente, mas há momentos em que somos tratados, nessa narrativa, como algo descartável”, criticou o estudante.

A coluna Enem e Educação entrou em contato com o Governo de Pernambuco e a Universidade de Pernambuco (UPE), mas, até a publicação desta matéria, não houve pronunciamento oficial. Caso haja retorno, o texto será atualizado.

 

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