Preocupado eu estou é com 2027!

As contas do setor público não têm preferência partidária, e os números revelam que o próximo mandato começará sob a sombra de asfixia orçamentária

Por Ecio Costa Publicado em 03/10/2026 às 23:50

Clique aqui e escute a matéria

Siga o JC no Google e acompanhe
tudo o que você precisa
Seguir no Google

As urnas logo definirão o próximo presidente da República, mas quem entende um pouco de economia já antecipa a única certeza de 2027: independentemente de quem suba a rampa do Palácio do Planalto, o Brasil enfrentará um ano duríssimo de ajuste fiscal.

A fatura do descontrole das contas públicas, impulsionado por um expansionismo irrefreável em ano eleitoral, chegou mais cedo e com uma voracidade assustadora. As contas do setor público não têm preferência partidária, e os números revelam que o próximo mandato começará sob a sombra de uma asfixia orçamentária quase sem precedentes na nossa história recente.

Eleições 2026

Selecione um cargo e uma UF para buscar.

Os dados divulgados nesta semana pelo Banco Central não deixam margem para otimismo ou retóricas amenas. A Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) atingiu o seu maior ritmo de crescimento e o patamar mais elevado desde a crise da pandemia do Covid-19. Apenas neste ano, entre os meses de janeiro e agosto, o endividamento do Estado brasileiro saltou em um valor impressionante de R$ 1,1 trilhão.

É fundamental frisar a gravidade absoluta deste cenário: diferentemente do período pandêmico, em que o mundo inteiro precisou emitir dívida para sustentar economias paralisadas por uma emergência sanitária global, a atual escalada da nossa dívida é fruto exclusivo de desequilíbrios internos, aumento desenfreado de gastos correntes e políticas de estímulo artificial.

Esse salto trilionário na dívida em apenas oito meses cobra um preço imediato e silencioso de toda a sociedade produtiva. Quando o governo se endivida de forma acelerada e contínua, a percepção de risco do país dispara. Para conseguir financiar esse rombo, o Tesouro Nacional é obrigado a pagar juros cada vez mais altos aos investidores.

Como consequência direta, o Banco Central é obrigado a manter a taxa Selic em níveis restritivos. Na prática, o Estado concorre com a iniciativa privada pelos escassos recursos disponíveis na economia, provocando o nocivo efeito de crowding out: o crédito fica proibitivo para o empresário que deseja expandir a sua fábrica, para o agronegócio e para a família que precisa financiar um imóvel ou tentar renegociar as suas dívidas.

O cenário para 2027 será, inegavelmente, de contenção e remédio amargo. O novo governo — seja ele de continuidade ou de oposição — herdará um Orçamento completamente engessado e uma relação Dívida/PIB que flerta com níveis insustentáveis para uma economia emergente.

A ilusão de que é possível induzir o crescimento do país indefinidamente via gasto público esbarra de forma violenta no teto da realidade fiscal. Para evitar um rebaixamento generalizado da confiança institucional, uma fuga aguda de capitais, a disparada do dólar e o descontrole da inflação, o ajuste estrutural será a única saída possível.

Isso significará, obrigatoriamente, a adoção de medidas que exigirão forte capital político. O corte rigoroso de despesas, a revisão sistemática de subsídios ineficientes, o passo atrás em inúmeros programas lançados em ano eleitoral e o congelamento de expansões na máquina pública deixarão de ser uma mera opção de política econômica para se tornarem uma imposição de sobrevivência do Estado.

O efeito sobre a economia poderá ser forte, com um freio muito brusco de arrumação, mas que poderá fazer com que o país volte a ter uma previsibilidade na trajetória da sua dívida, ajudando a baixar a taxa de juros.

O Brasil precisa abandonar de vez a cultura do improviso e dos atalhos que comprometem as gerações futuras. A estabilidade econômica, a geração de empregos de qualidade e a queda sustentável dos juros só ocorrerão quando o país demonstrar, com ações concretas e transparência, que é capaz de gastar menos do que arrecada.

Compartilhe

Tags