O "risco do companheiro de chapa" na disputa pelo Senado Federal
A exigência de dividir palanque força alianças desconfiadas e pode transformar parceiros em rivais diretos por vagas na Casa Alta.

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Candidato a senador em eleição com duas vagas só pode confiar desconfiando.
Porque ter duas vagas significa que você precisa de um companheiro na mesma chapa, usando os mesmos benefícios, a mesma estrutura e dormindo todo dia debaixo do mesmo guarda-chuva que você.
Em resumo, você precisa de alguém que não tenha condições de usar as mesmas armas que você, com a mesma habilidade que você.
Por isso, sempre que você perceber que um candidato ao Senado, neste período pré-eleitoral, está fazendo elogios demais a um possível companheiro de chapa, tenha certeza de que ele apenas considera o sujeito fraco o suficiente para não ameaçá-lo.
Contexto histórico
É diferente quando você tem na cabeça da chapa um candidato a governador que não tem como perder a eleição.
Um Jarbas Vasconcelos (MDB), por exemplo, na eleição de 2002, reeleito no primeiro turno com 60% dos votos, garantiu com certa facilidade a eleição de seus dois senadores.
O vice-presidente Marco Maciel (PFL) foi eleito ao lado de Sérgio Guerra (PSDB), apoiados diretamente pelo governador.
Maciel alcançou 29% dos votos válidos, enquanto Guerra somou 27%.
Em terceiro lugar ficou Carlos Wilson (PTB), com 21% dos votos.
Cenário atual
Mas, no caso da próxima eleição em Pernambuco, na qual há muitos candidatos buscando o Senado e os postulantes ao Governo devem ter uma disputa mais equilibrada, o risco é grande na hora de montar a chapa.
Humberto Costa (PT), por exemplo, tem um duplo desafio, ele precisa ficar num palanque que receba o apoio de Lula (PT).
Mas como essa força lulista é muito valiosa, o companheiro de chapa para o Senado também não pode ter condições de capitalizá-la mais do que o próprio Humberto.
Risco lulista
Significa que ter um companheiro ou companheira com forte identificação na esquerda, que consiga transformar o apoio de Lula em votos, aumenta o risco de Humberto ficar em segundo na própria chapa e isso pode ser um problema, dependendo do desempenhos dos outros palanques.
Candidatos como Eduardo da Fonte (PP), Anderson Ferreira (PL), Gilson Machado (PL) e Miguel Coelho (União), que têm votos mais ao centro e à direita, carregam potencial para ter grandes votações.
Dilema final
Se tiver que dividir o trunfo do apoio de Lula com algum companheiro de chapa, Humberto pode acabar perdendo a vaga.
É natural, portanto, que ele torça o nariz para nomes do próprio PT, do PSB ou até para Marília Arraes (SD), que também trabalha por esse espaço.
Resta saber se, para o presidente Lula que, se for reeleito, vai precisar de muito apoio no Senado por sobrevivência, eleger apenas Humberto já é suficiente em Pernambuco.
Lula terá que fazer as contas.