Cena Política | Análise

Ao tentar punir Moraes, Eduardo fortalece STF e aproxima centrão de Lula

Eduardo Bolsonaro força Hugo Motta a agir contra ele. Presidente da Câmara fica pressionado pelo PT e a direita perde o reforço dos partidos de centro

Por Igor Maciel Publicado em 01/08/2025 às 20:00

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Eduardo Bolsonaro, deputado federal pelo PL-SP, parece determinado a se transformar no arquiteto da própria ruína política. As recentes ações do parlamentar, que atualmente reside nos Estados Unidos, podem ser interpretadas como uma aposta suicida que amplia significativamente a pressão sobre o centrão e, especialmente, sobre o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB).

Essa estratégia peculiar, além de comprometer sua própria carreira, ameaça forçar uma reaproximação que já era dada como impossível entre o centrão e o governo Lula (PT), justamente quando partidos como Republicanos e PP negociavam saídas estratégicas em ministérios e cargos federais para se afastar da impopularidade lulista. A impopularidade está sendo revertida graças a Trump.

E no centrão ninguém mais fala em deixar o governo Lula.

Reação à Lei Magnitsky

Ao comemorar publicamente a aplicação da Lei Magnitsky pelo governo norte-americano contra o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, Eduardo Bolsonaro buscou um confronto direto com as instituições brasileiras. Porém, o impacto prático da medida tem se mostrado bastante limitado.

Moraes, apesar do simbolismo da sanção, não sofreu danos significativos e mantém intacta sua influência no STF. Ao contrário do pretendido pelo deputado, o ministro parece ter ganhado ainda mais força institucional, reforçando uma narrativa que lhe favorece: a de "guardião da democracia", "vítima de uma perseguição externa articulada por bolsonaristas radicais".

Apoio do STF

Ministros como Gilmar Mendes e Luís Roberto Barroso manifestaram apoio irrestrito ao colega e reiteraram que "a Corte não se dobrará a intimidações externas". Eduardo Bolsonaro, longe de enfraquecer Moraes, ajudou a consolidar ainda mais a posição do magistrado dentro do cenário. E as restrições que ele esperava impor usando os EUA tendem a não funcionar.

Moraes diz não ter interesse em ir aos EUA, não tem dinheiro em contas internacionais, nem qualquer outro bem que seja alcançado pelo governo americano. Nem mesmo o acesso dele em plataformas de big techs será atrapalhado.

As principais empresas de tecnologia já informaram que ele não será afetado pelas sanções, porque usa tudo vinculado ao STF.

Pressão sobre Hugo Motta

No plano doméstico, o deputado federal acabou colocando Hugo Motta em uma situação delicada. Ao desafiar abertamente o sistema político brasileiro e exaltar ações que podem ser vistas como "traição nacional", Eduardo Bolsonaro torna quase inevitável a discussão formal sobre sua cassação na Câmara.

O presidente da Câmara, já pressionado pelo PT e pela militância digital petista que exige ações rápidas e efetivas, vê-se agora obrigado a considerar com mais seriedade o processo de perda de mandato do parlamentar paulista por tudo que vem fazendo nos EUA.

Centrão muda de rumo

Essa pressão adicional que Eduardo exerce sobre o centrão ocorre exatamente no momento em que os partidos estavam pressionando o governo Lula, usando a impopularidade do petista para negociar com grande vantagem a relação que teriam pensando na eleição de 2026.

Algumas siglas tinham marcado um desembarque do governo, entregando cargos e rumando para a oposição em agosto. Mas com a radicalização do discurso bolsonarista vindo dos EUA, o centrão pode se ver forçado a um gesto político radical para demonstrar que não compactua com atitudes antinacionais.

Além disso, Lula ganhou força novamente.

Risco de prisão

Mais grave ainda é o cenário que aguarda Eduardo Bolsonaro caso retorne ao Brasil. Os desdobramentos jurídicos e políticos dessa crise podem muito bem resultar em sua prisão, considerando que as autoridades brasileiras investigam atos de ameaça institucional, incitação contra o Estado e conspiração com interesses estrangeiros.

Impacto econômico limitado

Como se não bastasse, o impacto econômico das taxas impostas pelos Estados Unidos sobre exportações brasileiras, comemoradas pelo deputado como medida de pressão, não foi tão catastrófico quanto inicialmente previsto.

Os efeitos no agronegócio e na indústria de exportação brasileira são sensíveis, sim, mas o país deve encontrar alternativas de mercado e mecanismos de mitigação que evitam um colapso econômico de grandes proporções. Assim, o argumento do parlamentar, de que essas sanções econômicas forçariam uma mudança institucional no Brasil, perde força rapidamente.

E a negociação ainda está aberta, podendo ter resultados ainda menos ruins para o Brasil.

Um suicídio político

A tentativa de Eduardo de desestabilizar Alexandre de Moraes com a Lei Magnitsky revelou-se pouco eficaz. A pressão econômica esperada sobre o Brasil não se confirmou em dimensões dramáticas. E, politicamente, suas ações estão empurrando antigos aliados do centrão diretamente para os braços de Lula.

Em última análise, o parlamentar pode estar pavimentando o caminho para sua própria cassação e isolamento político total. Um autêntico suicídio político em câmera lenta que chega a ser cômico, tamanha é sequência de patetices.

 

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