O brasileiro é um dos maiores consumidores de notícias nas redes sociais, segundo dados do Digital News Report 2020. No país, o Whatsapp se transformou na principal fonte de informação de muita gente, como revela pesquisa realizada pela Câmara dos Deputados e pelo Senado, mas também vetor de desinformação. Por isso, é importante saber o que fazer quando se recebe um link ou texto por aplicativos de mensagem, para evitar passar um conteúdo enganoso à frente.
Uma pesquisa desenvolvida pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) mostra que 73,7% das informações e notícias falsas sobre o novo coronavírus circularam pelo aplicativo de troca de mensagens WhatsApp. Outros 10,5% foram publicadas no Instagram e 15,8% no Facebook.
A co-criadora da Escola de Jornalismo e da Énois Conteúdo, Nina Weingrill, afirma que a gratuidade do aplicativo de mensagens e a não necessidade de um pacote de internet para utilizá-lo leva as pessoas a ficarem reféns de consumir notícias somente naquele espaço. “A maior parte dos veículos de comunicação são pagos, você depende de assinatura. Os links de checagem de informação na eleição de 2018 redirecionavam para os sites dos checadores. Tudo que você queria ler que fosse na internet não acessava porque não tinha 3G, precisava de uma Wi-fi, e aí nem sempre isso era possível. As informações não chegavam”, diz.
Por isso, é importante levar a sério cada material noticioso que se consome nos aplicativos de mensagem, segundo Nina Weingrill. “É tratar a informação como você trata qualquer outra coisa na sua vida. Você não vai comer algo que está podre. ‘Será que está com mofo? Vou checar isso aqui. Há quanto tempo está na geladeira?’. Tratar a informação como a gente trata tudo. Cuidar da informação que a gente compartilha e que a gente consome, principalmente.”
Confira abaixo algumas dicas que podem ajudar a identificar conteúdo falso no aplicativo, evitando não só cair em uma desinformação, mas também impedindo que você seja um vetor de transmissão de material mentiroso.
Desde junho de 2018, o WhatsApp vem mostrando a tag “Encaminhada” acima das mensagens que você recebe de alguém e repassa para outras pessoas. Se você recebeu um conteúdo de algum amigo ou parente contendo alguma informação duvidosa, é bem provável que essa tag apareça.
“Busque pela fonte de informação, se o jornal existe, o que mais esse jornal publica, tente entrar no site. Se não tem fonte, já desconfie. Não passe pra frente. Essa é a lição número um. Se tem alguma fonte ali, copie a frase inteira e jogue no Google que você vai ver se essa informação já foi checada, se isso é notícia falsa ou não”, indica Nina Weingrill.
Muitos links que chegam no WhatsApp direcionam a páginas de conteúdo duvidoso, como canais “clonados” de portais de notícias verídicas. É importante procurar sinais que indicam a falsidade do conteúdo: erros de português, URLs que parecem ter sido montadas ou até o visual da página geralmente são indícios de que o local e as informações contidas nele são falsos.
Muitos usuários que disseminam conteúdos falsos no WhatsApp não usam páginas ou links direcionados, utilizam de edição e montagem de imagens, ou produzem vídeos e áudios “provando” alguma “denúncia”. Geralmente, essas mídias possuem um tom direto, mas raramente declaram suas origens. Então, se receber alguma “denúncia” pelo WhatsApp, sempre duvide: procure confrontar as informações da mídia em questão.
Receber algo que “todo mundo” está comentando não significa que seja real. Muitos usuários compartilham imediatamente o que recebem pelo WhatsApp sem averiguar fontes ou confrontar informações com o que sai na mídia oficial. Não é porque você recebeu a mesma informação várias vezes que ela seja verdadeira, então sempre busque a fonte (ou questione a falta dela) de alguma informação aparentemente “bombástica”.
E quando a desinformação produzida chega ao ponto de causar incertezas? Se mesmo confrontando as características e informações presentes no conteúdo ainda não for possível comprovar a veracidade dos fatos, utilize os serviços de checagem de boatos. Todos eles recebem denúncias e alertas de usuários, que pedem comprovação ou negação de informações viralizadas.
Grupos e usuários que fazem do WhatsApp uma plataforma de divulgação de suas próprias mensagens tendem a compartilhar conteúdo falso e defendê-los, repetindo a produção de informações inverídicas no app. Se um contato ou grupo mantém a constante disseminação de desinformação na rede, denuncie. O próprio WhatsApp dispõe de ferramentas que recebem relatos de usuários que disseminam informações falsas ou assediam outros remetentes.
Nina Weingrill complementa: “é sempre bom duvidar das coisas que vão muito de encontro com o que você pensa. Se aquilo tá reforçando um pensamento, uma visão sua sobre determinado assunto, uma visão de mundo que você tenha, duvide, sempre duvide e converse com outras pessoas. O principal é não compartilhar se você não tem absoluta certeza de que aquilo é uma fonte.” Ela alerta ainda que a fonte não é quem te passou a mensagem, é quem escreveu aquele texto, assinou aquele vídeo ou aquela imagem.
Nem tudo são problemas quando se fala de compartilhamento de conteúdos nos aplicativos de mensagem. Já há várias iniciativas dentro da ferramenta para ajudar você a identificar uma desinformação. Em 2018, no período pré-eleitoral, a Énois criou a iniciativa Checazap.
“O Checazap foi uma solução pra esse momento pré-eleitoral que fazia com que essas checagens das notícias falsas que mais estavam circulando nesses grupos pudessem ser resumidas e publicadas dentro do WhatsApp”, relata. Estudantes de jornalismo das periferias de São Paulo e Rio de Janeiro entraram em 370 grupos públicos de WhatsApp entre agosto e outubro de 2018 para mapear quais eram as principais notícias falsas circulando, checar e devolver aos mesmos grupos a informação correta.
A Rede Internacional de Checagem de Fatos (IFCN) criou um chatbot. A ferramenta, presente em mais de 70 países, foi disponibilizada em português por meio de parceria com o Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS Rio). O recurso lançado este mês ajuda com boatos sobre covid-19, mas será expandido a outros temas.
Outras iniciativas que trabalham com checagem de notícias dentro do Whatsapp são a Fátimabot, robô checadora do Aos Fatos, que envia checagens e dá dicas para que consumidores de notícias na internet possam checar informações de maneira autônoma, e o Projeto Comprova, que recebe conteúdos suspeitos enviados por leitores através do seu telefone para contato.
O Confere.ai, uma ferramenta de checagem automática de notícias e de produção de conteúdos sobre desinformação desenvolvida pela startup Verific.ai e pesquisadores da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap) junto ao Sistema Jornal do Commércio de Comunicação (SJCC). O projeto tem o objetivo de ampliar a cultura da verificação e criar mecanismos para ajudar a audiência a identificar de forma mais rápida e segura conteúdos falsos ou enganosos. Para acessar, basta entrar no site confere.ai ou buscar nas páginas iniciais dos sites do SJCC.