"Está todo mundo tonto com esse cenário", diz especialista sobre pressão de Trump à Europa
Professora de Relações Internacionais avalia que a tentativa dos EUA de envolver a Europa no conflito com o Irã expõe tensões entre aliados
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Após novas pressões do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para que países europeus participem da ofensiva contra o Irã, analistas internacionais avaliam que a estratégia pode aprofundar divisões entre aliados históricos e ampliar a instabilidade global, dando indícios de uma terceira guerra.
Em entrevista ao programa Passando a Limpo, a professora de Relações Internacionais do Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), Monique Sochaczewski, afirmou que o movimento ocorre depois de meses de críticas do próprio governo americano aos parceiros europeus.
Segundo ela, Trump iniciou o novo mandato com ataques diretos a aliados tradicionais, inclusive na área econômica. Agora, diante da escalada militar no Oriente Médio, passou a pedir apoio justamente desses países.
“Nesse exato momento, 18 dias da guerra entre Estados Unidos e Israel contra o Irã, ele está pedindo ajuda justamente dos europeus, justamente da Otan.”
Europa reage com cautela
A reação dos governos europeus tem sido cautelosa. De acordo com a professora, líderes do continente já sinalizaram que o conflito com o Irã não é prioridade estratégica para a região.
A principal preocupação da Europa continua sendo a guerra na Ucrânia e o fortalecimento da Rússia no cenário internacional. Esse fator ajuda a explicar a resistência em ampliar o envolvimento em outra frente militar no Oriente Médio.
Para Monique Sochaczewski, a escalada atual não pode ser analisada apenas como um conflito regional. Na avaliação da especialista, o cenário global vive uma disputa mais ampla por influência entre grandes potências. Essa mudança de equilíbrio tende a tornar crises regionais mais complexas e interligadas.
“Eu acredito que a gente já está numa transição hegemônica, em que a China ascende e os Estados Unidos perdem poder.”
Conflito pode ter dimensão global
Questionada sobre o risco de uma guerra mais ampla, a professora afirmou que o cenário atual pode ser interpretado como parte de um rearranjo geopolítico global, marcado pela disputa de poder entre grandes potências.
Segundo Sochaczewski, o mundo vive uma transição no equilíbrio internacional, com os Estados Unidos perdendo influência relativa enquanto a China amplia sua presença global. Nesse contexto, conflitos regionais podem se transformar em capítulos de uma disputa geopolítica mais ampla.
“Talvez os historiadores do futuro entendam como o primeiro movimento do que seja uma guerra global”, disse.
Risco de impactos econômicos globais
A professora também alertou para possíveis efeitos econômicos do conflito, especialmente no mercado internacional de energia.
Com tensões envolvendo o Estreito de Hormuz, rota estratégica para o transporte de petróleo, já se discute um novo choque de preços no mercado global. “Já entende que existe um terceiro choque do petróleo”, afirmou.
Para ela, esses impactos mostram que conflitos no Oriente Médio têm reflexos diretos em várias partes do mundo, inclusive no Brasil e em Pernambuco. A pesquisadora aconselha que é sempre importante observar esses movimentos para compreender os impactos reais no cotidiano.
Um cenário internacional de incerteza
Diante do avanço da guerra e da dificuldade de articulação diplomática entre as potências, a especialista avalia que o momento atual é marcado por grande imprevisibilidade.
Ela também salientou os possíveis efeitos da crise para o BRICS, podendo expor divisões internas entre os membros, embora o Brasil deva manter cautela diplomática.
“Está todo mundo tonto. Bem-vindo ao mundo em 2026 com Trump no poder e essa guerra", salienta.