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"Escalada de ameaças entre EUA e Europa nos preocupa pois afeta a economia mundial", diz especialista

Em entrevista ao Passando a Limpo, especialista avalia impactos de disputas tarifárias, riscos de retaliação e possíveis efeitos para o Brasil

Por Eduardo Scofi Publicado em 20/01/2026 às 11:05 | Atualizado em 20/01/2026 às 11:15

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Durante entrevista ao programa Passando a Limpo, o mestre em economia internacional pela UFPE e coordenador de Relações Internacionais da Unifbv, Gustavo Delgado, analisou as tensões entre os Estados Unidos e a União Europeia diante do interesse estratégico norte-americano na Groenlândia.

Segundo o economista, embora o discurso do presidente Donald Trump tenha ganhado contornos mais agressivos, o principal efeito imediato não é militar, mas econômico. Para Delgado, a escalada de ameaças já produz instabilidade suficiente para impactar mercados, investimentos e relações comerciais globais.

“É uma escalada de ameaças que nos preocupa, preocupa o mundo como um todo, porque é justamente uma ameaça entre grandes parceiros. A União Europeia são grandes parceiros dos Estados Unidos, um grande parceiro do Ocidente”, afirmou.

Impacto no comércio global

Gustavo Delgado explicou que, mesmo sem um conflito direto, a simples possibilidade de enfrentamento já afeta o comércio internacional. Segundo ele, a economia reage antes que as medidas sejam efetivamente adotadas, o que gera retração no ritmo das trocas comerciais.

“A grande preocupação é justamente a consequência na economia e no comércio mundial”, disse o especialista, ao destacar que a instabilidade faz empresas e investidores adotarem uma postura mais cautelosa.

Para o economista, quanto mais previsível e estável for o cenário internacional, maior tende a ser o volume de comércio. Em contextos de incerteza, ocorre o oposto: adiamento de investimentos, retração de contratos e redução do crescimento econômico.

Interesse econômico e discurso expansionista

Ao analisar as motivações dos Estados Unidos, Delgado avaliou que o interesse é majoritariamente econômico, mas sustentado por um discurso de segurança nacional e soberania. Segundo ele, a retórica de “América para os americanos” cria um ambiente propício a ações expansionistas, ainda que apresentadas como defesa econômica.

“É muito econômico, com esse viés da defesa e da segurança americana. No fundo, essa defesa econômica vem com esse arcabouço de proteção e termina criando essas novas condições, esses novos cenários, esse absurdo de querer criar conexões e anexações de uma maneira forçada”, afirmou.

Ele destacou que, no caso da Groenlândia, esse movimento começou com tentativas de convencimento e já avançou para ameaças tarifárias, estratégia que Trump também utilizou em outros episódios recentes, inclusive envolvendo o Brasil.

Consequências indiretas para o Brasil

Questionado sobre os reflexos para o Brasil, Gustavo Delgado explicou que eventuais tarifas impostas pelos Estados Unidos à Europa não geram ganhos imediatos para países terceiros. Segundo ele, contratos internacionais precisam ser cumpridos, o que impede mudanças rápidas nos fluxos comerciais.

Ainda assim, o economista apontou que podem surgir oportunidades indiretas em caso de retaliação europeia. Nesse cenário, países do Mercosul poderiam se tornar fornecedores alternativos de produtos antes comprados dos Estados Unidos.

“Uma retaliação da Europa vai fazer com que os países europeus procurem uma segunda fonte, e aí cabe para a gente essa oportunidade indireta”, explicou.

O especialista também comentou projeções que indicam uma possível queda de até 1% no Produto Interno Bruto (PIB) dos Estados Unidos e da Europa caso a disputa tarifária se intensifique. Para ele, mesmo que esses números não se concretizem, o simples risco já é suficiente para afetar o desempenho da economia global.

Novo cenário geopolítico

Ao final da entrevista, Delgado alertou para o precedente que esse tipo de postura pode criar no cenário internacional. Segundo ele, ações unilaterais fortalecem discursos expansionistas em outras potências e acabam influenciando conflitos já existentes. “Esse tipo de movimento abre margem para outros países fazerem o mesmo, e isso nos preocupa mundialmente”, disse.

Para o Brasil, o economista avaliou que o momento exige cautela e diversificação de parceiros comerciais. Ele destacou que o acordo recente entre Mercosul e União Europeia surge como uma alternativa estratégica diante de um cenário cada vez mais instável na relação com os Estados Unidos.

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