Em lados opostos, Lula e Bolsonaro operam a mesma lógica comunicacional nas redes, diz pesquisador
Estudo com 32 mil publicações em 15 países mostra que campanhas digitais reforçam o personalismo e reduzem o debate programático
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As campanhas eleitorais nas redes sociais têm adotado, de forma crescente, estratégias centradas na figura do candidato, independentemente de ideologia, partido ou país.
Essa é uma das principais conclusões de uma pesquisa apresentada pelo professor e pesquisador em Ciências da Linguagem Bruno Rafael Gueiros, que analisou mais de 32 mil publicações de candidatos presidenciais em 15 países ibero-americanos para compreender como o discurso político vem sendo estruturado no ambiente digital.
Em entrevista à Rádio Jornal, nesta segunda-feira (19), o pesquisador afirmou que o estudo identificou um padrão comum nas campanhas digitais: a priorização de narrativas personalizadas e emocionalmente orientadas, em detrimento da apresentação de propostas e programas de governo.
Personalismo
Segundo Bruno Gueiros, a análise comparada não encontrou diferenças significativas entre países nem entre campos do espectro político. “O que a gente percebe é que existe uma tendência geral de centralizar a campanha na própria figura do candidato”, explicou.
No Brasil, esse fenômeno se expressa até mesmo entre adversários com trajetórias e ideologias opostas. Para o pesquisador, nomes como Lula e Bolsonaro ilustram como campanhas distintas acabam adotando a mesma lógica comunicacional nas redes sociais, baseada na construção da imagem pessoal e da identidade do candidato.
Debate identitário
O predomínio do personalismo, avalia o professor, ajuda a explicar a transformação do debate político no ambiente digital. “A discussão online passa a ser cada vez mais identitária, focada em quem é o candidato, e menos programática”, afirmou.
De acordo com ele, essa lógica não é exclusiva do Brasil e aparece, em maior ou menor grau, em todos os países analisados na pesquisa, o que indica um movimento regional no uso das plataformas digitais durante campanhas eleitorais.
Lógica das plataformas
Bruno Gueiros também contextualizou o fenômeno a partir da história das campanhas eleitorais. Segundo ele, o apelo emocional sempre esteve presente no discurso político, inclusive no período analógico, marcado por slogans fortes e mensagens simplificadas.
A diferença, destaca, está no impacto das plataformas digitais. “A internet potencializa esse apelo emocional em termos de volume, alcance e velocidade”, explicou. Para o pesquisador, estratégias que antes circulavam pelo rádio, jornal e televisão ganharam nova dimensão com as redes sociais.
Debate Programático
Na avaliação do professor, o ambiente digital contribui para reduzir o espaço do debate programático. “Antes, o apelo emocional dividia espaço com propostas e ideias de país. Hoje, esse espaço está sendo rapidamente ocupado por estratégias voltadas a impactar emocionalmente o eleitor”, disse.
Segundo ele, as campanhas passam a ser pensadas para gerar reação imediata, o que intensifica os efeitos do discurso político e acelera suas consequências no processo eleitoral.