"Única forma de reduzir o banho de sangue é o desarmamento", diz especialista sobre conflito no Rio de Janeiro
À Rádio Jornal, André Saldanha disse que só o desarmamento pode romper o ciclo de violência após a ofensiva nos complexos da Penha e do Alemão
A operação policial mais letal da história do Rio de Janeiro deixou, nesta terça-feira (28), ao menos 130 mortos, entre eles, quatro policiais, e 81 presos, durante uma megaoperação que mobilizou 2.500 agentes civis e militares nos complexos da Penha e do Alemão, na Zona Norte da capital fluminense.
A ação, batizada de Operação Contenção, teve como objetivo cumprir 51 mandados de prisão contra integrantes do Comando Vermelho (CV), facção que, segundo a Polícia Civil, comanda o tráfico em 24 estados brasileiros e no Distrito Federal.
Durante a incursão, criminosos reagiram com armamento pesado, usaram drones para lançar explosivos contra agentes e incendiaram carros para erguer barricadas. A cidade praticamente parou: ônibus foram sequestrados, vias expressas bloqueadas, escolas suspenderam aulas e o comércio fechou as portas.
“A curto prazo, só o desarmamento pode reduzir a letalidade”
Em entrevista concedida à Rádio Jornal, nesta quarta-feira (29), o professor André Saldanha Costa, da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), afirmou que o episódio escancara o esgotamento de um modelo de segurança baseado exclusivamente no confronto armado.
Para ele, a saída exige uma mudança estrutural que comece por um desarmamento geral, tanto das forças policiais quanto das facções criminosas.
“Essas armas, tanto da polícia quanto da bandidagem, são armas de alta letalidade. A curto prazo, a única forma de a gente conseguir reduzir a letalidade desse conflito é através de um desarmamento geral. O desarmamento não é apenas uma medida técnica, é uma forma de reafirmar o valor da vida e de reconstruir o pacto social que o Rio perdeu”, afirmou.
“O desarmamento não é apenas uma medida técnica — é uma forma de reafirmar o valor da vida e de reconstruir o pacto social que o Rio perdeu”, concluiu.
Saldanha alertou que insistir em uma “lógica de guerra” inviabiliza o próprio Estado democrático de direito.
“Levar isso para uma lógica belicosa implica, antes de mais nada, suprimir a possibilidade de existência de um Estado de direito”, disse.
O professor lembrou que experiências de desarmamento pactuado, como as realizadas em Medellín (Colômbia) nas décadas de 1990 e 2000, ajudaram a reduzir os índices de violência e devolveram à população o direito de circular pela cidade.
“O Rio de Janeiro é uma cidade sitiada. A curto prazo, a única forma de reduzir o banho de sangue é o desarmamento, ainda que essa proposta pareça utópica diante do clima político atual”, avaliou.
Confira a entrevista do professor completa:
Cidade partida e desigualdade extrema
Segundo o repórter Tiago Veras, da Rádio Tupi do Rio de Janeiro, ouvido pela Rádio Jornal, o clima na capital amanheceu mais tranquilo nesta quarta-feira (29), embora a tensão ainda seja alta nas comunidades da Zona Norte.
Moradores relataram que, durante a madrugada, dezenas de corpos foram levados por populares até uma praça no Complexo da Penha, onde equipes da perícia foram acionadas para realizar a identificação e a remoção.
A quantidade exata de mortos ainda não foi confirmada oficialmente, mas as investigações seguem em andamento.
Para Saldanha, o cenário reflete não apenas a falência das políticas de segurança, mas também a profundidade da desigualdade social e urbana que estrutura o Rio de Janeiro.
Ele cita o contraste entre o bairro de São Conrado, de alto padrão, e a vizinha Rocinha, onde famílias vivem “entulhadas umas sobre as outras”
“Seria impossível, em outro lugar do mundo, uma desigualdade tão radical quanto a existente entre São Conrado e a Rocinha”, observou.
Ele ressaltou que o contraste entre um bairro de alto padrão e uma das maiores favelas do país, separadas apenas por uma encosta, expressa a “clivagem urbana” que define a cidade.
“Enquanto a favela vive em estado de guerra, o restante da cidade janta em paz. Essa convivência é o retrato mais cruel da desigualdade brasileira”, observou.
Durante as horas de confronto, blindados e helicópteros tomaram o céu da Zona Norte, enquanto, em outros bairros, restaurantes e praias seguiam cheios.
Essa coexistência entre o caos e a aparente normalidade, segundo Saldanha, revela o quanto a violência no Rio é seletiva e naturalizada.
Veja a entrevista do repórter completa:
Reconhecer as facções como estruturas de poder
O professor também destacou que o Estado precisa reconhecer institucionalmente a existência das facções criminosas, encarando-as como estruturas econômicas organizadas que exploram territórios inteiros.
“As facções são empresas capitalistas que exploram, através de dominação ilegítima, uma camada significativa da população carioca, através de extorsão e outros mecanismos de violência direta e indireta”, explicou.
Segundo Saldanha, o não reconhecimento formal dessas organizações impede a criação de políticas públicas efetivas de enfrentamento.
“Enquanto o Estado insistir em enxergar o problema apenas como uma guerra, continuará produzindo cadáveres e destruindo comunidades inteiras”, completou.
Descriminalização e reconstrução social
O professor defende ainda que, a longo prazo, o país precisará discutir a descriminalização das drogas e a regulação do mercado de entorpecentes, como forma de reduzir o poder econômico das facções.
“Talvez, num longuíssimo prazo, um processo de descriminalização das drogas fizesse com que deixassem de ser objeto de disputa entre grupos criminosos e passassem a ser reguladas a partir de uma lógica de mercado capitalista”, avaliou.
Embora reconheça que a proposta enfrentaria grande resistência política, ele acredita que sem enfrentar as raízes econômicas e sociais do tráfico, o Rio continuará refém da violência institucionalizada.