Retomada dos trabalhos na Alepe tem clima de tensão política e defesa institucional
Sessão que marcou o início do período ordinário reuniu governadora e deputados, teve protestos nas galerias e ocorreu sob impacto de decisão do STF
Clique aqui e escute a matéria
A reabertura oficial dos trabalhos ordinários da Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe), nesta segunda-feira (2), foi marcada por um ambiente de tensão política.
O plenário recebeu a governadora Raquel Lyra (PSD) e o presidente da Casa, deputado Álvaro Porto (PSDB), em uma sessão solene que mesclou gestos institucionais, discursos de defesa do Legislativo e manifestações nas galerias, em um contexto influenciado por disputas políticas e desdobramentos jurídicos recentes — incluindo a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de abrir investigação federal sobre um suposto monitoramento de agentes públicos.
Ainda assim, as falas no plenário buscaram equilibrar a reafirmação institucional com apelos à convivência democrática. Em seu discurso, Álvaro Porto defendeu a autonomia da Alepe e adotou um tom mais incisivo ao criticar o que classificou como tentativas de desmoralizar o Legislativo e de impor um Parlamento “submisso”.
Já a governadora Raquel Lyra apresentou um balanço das ações do governo, citando avanços em áreas como segurança pública, infraestrutura viária e assistência social, e pediu que as disputas políticas não se sobreponham ao “trabalho, à união e ao propósito” esperados pela população pernambucana.
Discursos
Na abertura da sessão, o presidente da Alepe, Álvaro Porto (PSDB), adotou um discurso firme em defesa da autonomia do Legislativo e reagiu a críticas dirigidas à Casa.
Sem citar nomes, o deputado afirmou que a Assembleia não aceitará interferências externas nem tentativas de deslegitimar sua atuação fiscalizadora.
“Os ditames constitucionais impõem limites e fronteiras para que os Poderes se respeitem mutuamente. O ambiente democrático não autoriza interferências descabidas”, afirmou.
Álvaro também disse que há tentativas de “fomentar a cizânia” entre os parlamentares com o objetivo de enfraquecer o papel da Assembleia, mas garantiu que o Legislativo seguirá atuando “com altivez e independência”.
Em seguida, a governadora Raquel Lyra (PSD) discursou no plenário defendendo a união entre Executivo e Legislativo e criticando disputas políticas que, segundo ela, desviam o foco das necessidades da população. A governadora reconheceu a existência de divergências, mas afirmou que elas não podem se sobrepor ao interesse público.
“O que o nosso povo espera de nós, Executivo e Legislativo, não é barulho, não é distração, não é política pequena. O que o povo espera é trabalho, união de propósito e coragem para construir o futuro. União não significa ausência de diferença. A divergência faz parte da democracia”, disse.
Raquel também fez um balanço da gestão, destacando a redução histórica dos índices de homicídios, os investimentos em infraestrutura e a recuperação da capacidade financeira do Estado.
“A maior redução de homicídios e de crimes contra o patrimônio da nossa história se repetiu agora no mês de janeiro. Estamos avançando com quase 3 mil quilômetros de estradas, 1.500 já entregues e outras em restauração”, afirmou.
Protestos
A chegada da governadora ao plenário foi acompanhada por cumprimentos a diversos parlamentares, mas também por protestos nas galerias e cabines da Alepe. Manifestantes exibiam faixas e cartazes contra o aumento das passagens de ônibus e cobravam mais fiscalização sobre o sistema de transporte público.
Entre os dizeres, chamou atenção a frase “mamata para painho, tarifa para o povo”, em referência à Logo Caruaruense, empresa de transporte que pertenceu ao pai da governadora, o ex-prefeito de Caruaru João Lyra Neto. O protesto relaciona o reajuste das tarifas à cobrança por melhorias no serviço e maior rigor regulatório.
Raquel Lyra já declarou recentemente que a Logo Caruaruense encerrou suas atividades após a exposição de que a empresa estava há cerca de três anos sem fiscalização regular. O tema voltou a ganhar visibilidade em meio aos debates sobre política tarifária e tem sido explorado por movimentos sociais e adversários políticos.
Também havia cartazes pedindo valorização da Polícia Civil, em referência às mobilizações da categoria por reajuste salarial, definição de carga horária e regulamentação da Lei Orgânica da corporação.
Investigações
Após o discurso, em conversa com a imprensa, a governadora foi questionada sobre a decisão do ministro do STF que determinou a apuração federal de um suposto esquema de monitoramento de autoridades e agentes públicos em Pernambuco.
A medida levou à suspensão de trechos de procedimentos que tramitavam no Ministério Público estadual e ampliou a atenção sobre o caso.
O caso tem repercussão política por atingir integrantes da gestão do prefeito do Recife, João Campos (PSB), principal adversário de Raquel Lyra no cenário eleitoral de 2026. A decisão do STF suspendeu trechos de apurações conduzidas no âmbito estadual e transferiu o caso para a Polícia Federal.
Ao comentar o assunto, a governadora defendeu a atuação das instituições e afirmou que eventuais ilícitos devem ser investigados. “Quem tiver que prestar esclarecimentos, que se preste”, afirmou a governadora.
Ela acrescentou que confia no trabalho da Justiça e das forças de segurança.
“O Estado de Pernambuco irá se manifestar nos autos pela sua Procuradoria. E, no caso das nossas polícias, que estejam sempre prontas para investigar qualquer ilícito que exista. Trago uma mensagem de muita confiança no trabalho das instituições, da Justiça, da polícia e do nosso Estado”, disse.
A repercussão do caso ocorre em um contexto de disputa política antecipada, com Raquel Lyra e o prefeito do Recife, João Campos (PSB), apontados como prováveis adversários nas eleições de 2026.
As acusações e a investigação federal passaram a ser exploradas politicamente por aliados e opositores, ampliando o peso do episódio no cenário estadual.
Projetos e LOA
A governadora também falou esperar a rápida aprovação, pela Alepe, dos projetos enviados pelo Executivo, entre eles os que tratam da reestruturação da dívida estadual e da reorganização da Lei Orçamentária Anual (LOA).
O primeiro autoriza o Estado a renegociar contratos da dívida pública, com redução de juros e ampliação de prazos; o segundo propõe ajustes na LOA de 2026 para ampliar a margem de remanejamento orçamentário e garantir a execução de investimentos.
Segundo ela, as propostas são essenciais para ampliar o espaço fiscal e assegurar a continuidade das ações do governo.
“A expectativa é que sejam aprovados o mais breve possível. São medidas que permitem reduzir juros, alongar prazos e abrir espaço para mais investimentos e serviços públicos. Nenhum ano pode transcorrer sem a organização das contas do Estado”, declarou.
Raquel disse confiar na compreensão do Legislativo para que as matérias sejam votadas após o Carnaval e ressaltou que, apesar das tensões políticas, projetos do Executivo historicamente têm obtido aprovação na Casa.
Atualmente, as propostas tramitam em regime de convocação extraordinária. O processo tem sido marcado por impasses sobre o rito de tramitação, concentração de relatorias na oposição e decisões judiciais que questionam atos da Mesa Diretora da Alepe, indicando a manutenção do clima de tensão institucional nas próximas semanas.
Enquanto a governadora demonstra confiança na aprovação das matérias, a Assembleia sinaliza que a condução seguirá critérios técnicos e regimentais.