Incêndios residenciais sobem 29% em Pernambuco; sobrecarga elétrica é a vilã
Especialistas apontam que o aumento do uso de aparelhos em casas antigas, aliado a ligações clandestinas, eleva o risco de tragédias no Estado
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O Corpo de Bombeiros Militar de Pernambuco (CBMPE) registrou 284 chamados para incêndios em edificações residenciais entre janeiro e abril de 2026. O número representa um aumento de 29% em comparação ao mesmo período de 2025, que contabilizou 220 ocorrências.
O diagnóstico para o crescimento desse tipo de acidente passa, invariavelmente, pelas mudanças nos hábitos de consumo da população e pela negligência com a infraestrutura elétrica dos imóveis. O tema foi discutido em debate na Rádio Jornal, reunindo especialistas em segurança técnica e autoridades estaduais.
Mudança de hábitos e infraestrutura defasada
O avanço tecnológico e a consolidação de modelos de trabalho remoto alteraram a dinâmica dentro das casas, exigindo mais de redes elétricas que, em grande parte dos imóveis, não foram modernizadas. O Major João Paulo, chefe do centro de comunicação social do CBMPE, aponta essa mudança de comportamento como uma das principais hipóteses para a alta nas ocorrências.
"A sociedade está mudando a forma de morar. A gente tem um recorte da pandemia para cá, com muitos trabalhos sendo desenvolvidos no modelo home office. Está todo mundo literalmente conectado, o que sobrecarrega as questões energéticas", afirma o major.
A urgência por conectividade também resulta em práticas perigosas no cotidiano. "A gente está com o telefone carregando e funcionando ao mesmo tempo, sente que ele aquece, mas negligencia isso e acaba acontecendo esse incremento tão significativo que leva, infelizmente, à perda de muitas vidas", alerta João Paulo.
A cultura da "gambiarra" e a falta de profissionais
Além do aumento da carga, a ausência de manutenções adequadas potencializa os riscos. A engenheira de segurança do trabalho e especialista técnica do Senai, Taciana Nipo, destaca que as residências costumam receber novos e potentes eletrodomésticos sem que o quadro elétrico seja redimensionado.
"Tenho uma televisão e aquilo foi projetado para isso. Daqui a pouco, coloco uma televisão em cada quarto. Busco chuveiros elétricos, micro-ondas. É muita carga saindo de um único lugar e, com certeza, isso não foi projetado", explica a engenheira.
Para Taciana, a resistência da população em investir em serviços especializados é um entrave grave para a segurança pública. "O que as pessoas não querem fazer é procurar um profissional habilitado para isso. Emendam um fio, puxam aqui, puxam ali. Vamos chamar um técnico", reforça.
Prevenção e o perigo das ligações clandestinas
A rede elétrica exige dispositivos de proteção capazes de desarmar o sistema em caso de picos de tensão, como aqueles causados por raios — que registraram um aumento de mais de 300% no início do ano, segundo a Neoenergia. O gerente operacional da concessionária, Fábio Barros, indica que a responsabilidade interna é decisiva.
"Se nós tivermos uma instalação elétrica dentro das nossas casas bem dimensionada, o disjuntor bem dimensionado para a carga e os equipamentos de proteção necessários, independente de onde venha o surto, a sua instalação estará protegida", garante Barros.
O gerente também alerta para o impacto criminal e estrutural das ligações clandestinas (os populares "gatos"). "Toda ligação que for realizada sem seguir critérios técnicos e de segurança colocará em risco quem está usufruindo daquela energia e quem está ao redor. Ligações clandestinas sobrecarregam o sistema elétrico", conclui.
Como reduzir o risco de incêndios em casa
Especialistas recomendam medidas diárias e estruturais para evitar tragédias:
- Desconecte aparelhos: retire da tomada equipamentos eletrônicos (como TVs e micro-ondas) ao sair de casa ou antes de dormir, mantendo apenas o essencial, como a geladeira.
- Evite o uso durante o carregamento: não utilize smartphones enquanto estiverem conectados à tomada, especialmente em dias de chuva com descargas atmosféricas.
- Atenção à limpeza: limpe regularmente ventiladores e aparelhos com motor; o acúmulo de poeira trava o equipamento e causa superaquecimento, podendo gerar chamas.
- Contrate especialistas: não realize improvisos ou emendas na rede elétrica. Contrate profissionais habilitados para redimensionar a carga caso a residência adquira novos eletrodomésticos.