Ocupação em Jardim São Paulo cobra destinação de lote abandonado pela Prefeitura
Movimento Casarão de Mulheres reivindica moradia em terreno doado há dois anos para fins sociais; gestão municipal não abriu canal de negociação
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Famílias vinculadas à Movimentação Casarão de Mulheres (MTCM) ocuparam um terreno de propriedade municipal localizado na Rua Leandro Barreiro, 275, no bairro de Jardim São Paulo, zona oeste do Recife.
A área, que teria sido doada à Prefeitura do Recife em 2023 para a construção de um centro educacional e social, permanece sem manutenção básica.
A ocupação visa pressionar a gestão municipal por uma solução definitiva para o déficit habitacional que atinge as famílias do movimento. Segundo a coordenação do MTCM, Ivani Oliveira, o imóvel encontra-se em estado de abandono total, sem iluminação, abastecimento de água ou serviço de capinação.
Falta de diálogo e impasse administrativo
A principal crítica das lideranças do movimento recai sobre a ausência de interlocução direta com o gabinete do prefeito. Ivani Oliveira afirma que o grupo tem buscado formalizar mesas de negociação, mas que as tentativas não resultaram em medidas concretas até o momento.
"O ano é novo, mas a nossa luta aqui ela é antiga, inclusive é antiga a ponto deles chegarem, sentarem com a gente, dar cafezinho, água e três tapinha nas costas. A gente não quer isso. A gente quer a solução porque a dificuldade a gente já tem aqui".
De acordo com a dirigente, o movimento tem recebido sinalizações de que seria necessária a intervenção de políticos para mediar o diálogo, o que ela classifica como um entrave desnecessário. Oliveira destaca ainda que o terreno ocupado não cumpre sua função social.
"O terreno tá aqui, é da prefeitura. Ela recebeu de doação e não fez nada. Esse terreno aqui não tem iluminação, não tem capinação, não tem água. A prefeitura recebeu de doação e mesmo assim ela não fez nada, não fez o que foi destinado".
Impacto social e assistência a famílias atípicas
A ocupação em Jardim São Paulo abriga mulheres em situação de vulnerabilidade, muitas das quais são chefes de família e responsáveis por crianças com deficiências.
A carência de serviços públicos no entorno, como vagas em creches próximas, é um dos agravantes relatados pelas ocupantes.
Raquel Souza, de 37 anos, é uma das mães que buscam abrigo na ocupação. Ela relata as dificuldades enfrentadas no sistema público.
"Sou mãe de seis filhos, quatro especiais, e venho em muitas lutas e isso aqui é só uma luta pequena entre diversas que já estamos vivenciando. O movimento representa para mim uma oportunidade de ser enxergada, de ser vista e eu conseguir minha moradia", relata.
Demandas do movimento e situação atual
O MTCM elenca uma série de pontos considerados críticos para a desocupação e resolução do conflito:
- Abertura de mesa de negociação: diálogo direto com representantes da prefeitura para discutir a destinação do terreno.
- Auxílio moradia: garantia de suporte financeiro para famílias que foram removidas de outras ocupações condenadas pela Defesa Civil.
- Transparência em contratos: Esclarecimentos sobre contratos firmados pela prefeitura com entidades parceiras, sem a consulta prévia aos movimentos de base.
- Manutenção da área: realização de serviços de limpeza e iluminação pela Autarquia de Manutenção e Limpeza Urbana do Recife (Emlurb) no lote abandonado.
A prefeitura do Recife afirmou que, em diálogo com o movimento social, desocupou o terreno de forma pacífica durante a tarde de segunda-feira (2).
A gestão também acrescentou que "o local será destinado para a construção de mais um equipamento para rede municipal de ensino. A gestão municipal prosseguirá as tratativas com a organização social".