A história de Esther, a menina de São Lourenço da Mata que comoveu Pernambuco
A criança de 4 anos desapareceu enquanto brincava com o irmão em São Lourenço da Mata. No dia seguinte, seu corpo foi encontrado dentro de uma cacimba
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Na tarde de 22 de setembro de 2021, Inaldo Santos aguardava, aflito, o nascimento da filha. Chegou esbaforido à maternidade Petronila Campos, em São Lourenço da Mata, logo depois de fazer exames para mudar de função no emprego. A promoção coincidiu com o dia da chegada da menina.
Não deu tempo de ver a mulher, Fernanda Pereira, entrar na sala de parto. Ansioso, caminhava de um lado para o outro, em busca de notícias. “O coração estava acelerado, eu não conseguia parar”, lembra. A agitação chamou a atenção de um enfermeiro, que se aproximou e perguntou: “É seu primeiro filho? Dá para perceber pelo tamanho do nervosismo”, disse, entregando-lhe um copo d’água e um calmante.
“Quando menos esperei, a amiga que estava acompanhando Fernanda no parto mandou uma foto da minha bebezinha, enrolada no pano. Foi a maior alegria da minha vida”, recorda Inaldo.
A primeira filha de Inaldo — e a primeira menina entre os cinco filhos de Fernanda — recebeu um nome bíblico: Esther, que significa estrela. Assim nasceu Esther Isabelly Pereira da Silva para iluminar a vida da família.
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Em casa ela era Teté
Esther cresceu cercada de amor. Em casa, a caçula era chamada de Teté. Nos momentos de carinho, ela segurava o rosto da mãe ou do pai com as duas mãozinhas, distribuía beijos e soltava um irresistível “eu te amo”.
Curiosa como as crianças de hoje, logo aprendeu a pedir o celular dos pais: “quero assistir”, dizia. Sozinha, abria o YouTube e colocava para tocar sua lista de clipes favoritos. Bastava começar o Funk do Pão de Queijo, do grupo Bolofofos, para ela sair dançando pela casa. Dava gargalhadas com as travessuras de Johnny, o personagem da série infantil Cocomelon, que tenta comer açúcar escondido do pai.
Caçula da família
Desde a gestação, Inaldo dizia que teria uma menina — e acertou. Além de ser a única filha mulher, Esther também era a caçula, querida pelos quatro irmãos e profundamente apegada aos pais.
“Eu me lembro como se fosse hoje, quando ela era menorzinha e eu perguntava: ‘Papai’. Aí ela respondia: ‘Oi!’. Eu dizia: ‘Você é o quê de papai?’. E ela falava: ‘Eu, Teté? Princesinha de papai e de mamãe’”, conta.
Tinha uma bonequinha preferida, que carregava por todos os cômodos, dizendo que era seu bebê. Cuidava dela com atenção: dava banho, oferecia mingau e a embalava no colo. Quando Inaldo chegava cansado do trabalho e se deitava no sofá, ela e a mãe combinavam uma trela. Pegavam uma garrafa PET de dois litros e Esther batia de leve no pai até ele despertar e flagrar as duas rindo como cúmplices.
"Ela era muito apegada a mim. Eu podia ir para onde fosse, que ela queria ir junto. Botava uma roupa e vinha comigo', lembra o pai.
O mundo de Esther — feito de música, bonecas e risadas — existia em uma comunidade tranquila, de vizinhança próxima. O bairro do Pixete, criado há nove anos em São Lourenço, é pequeno e cheio de laços entre os moradores. As pessoas se conhecem pelo nome e as crianças brincam juntas na rua — jogando bola, soltando pipa, pulando corda. Até então, não havia registro de violência infantil.
A tarde da tragédia
Esther era simpática e brincalhona, mas se encolhia diante de desconhecidos, contaram os pais.
Naquela segunda-feira (20), foi justamente um estranho quem se aproximou dela.
Brincava no Campo do Pixete, a poucos metros de casa, ao lado do irmão de 7 anos. Quando o menino saiu por um instante para beber água, o homem se aproximou e puxou a menina pelo braço.
Assustada, Esther tentou reagir — mordeu o braço do agressor, numa tentativa desesperada de se soltar. O irmão, ao voltar, ainda viu o homem arrastando a menina, mas não teve como impedir.
A busca e a descoberta
O sumiço de Esther mobilizou toda a comunidade do Pixete. Assim que a notícia se espalhou, parentes e moradores se uniram para procurar a menina. Vasculharam becos, plantações de coco e as margens do rio Capibaribe, que corta o bairro.
“Procuramos em todos os lugares aqui — nos becos, nas plantações e, principalmente, na beira do rio. Nosso medo era que ela estivesse lá. Além do perigo da água, também tem bicho, cobra... A noite foi caindo e não encontramos nada”, lembra Josué Pereira, de 65 anos, conhecido há mais de cinco décadas como o palhaço Pinóquio, um dos fundadores do bairro.
As buscas continuaram na manhã seguinte, terça-feira (21). Sem respostas, os vizinhos decidiram entrar em uma casa que parecia suspeita — havia sinais de material queimado recentemente e um poço na frente. Dentro da cacimba, encontraram o corpo de Esther.
O momento foi de choque, dor e revolta. O corpo foi retirado por um tio de criação da menina, sob perplexidade, pranto e gritos de indignação. Logo depois, moradores depredaram a casa onde o corpo foi encontrado. Com pedaços de pau nas mãos, saíram pelas ruas em busca dos suspeitos.
Naquela casa viviam dois homens recém-chegados ao bairro, havia apenas seis meses. Eles foram identificados como Fernando Santos de Brito, de 31 anos, e Fabiano Rodrigues de Lima, de 28. Os dois foram presos em flagrante na mesma terça-feira, suspeitos de envolvimento na morte e ocultação do corpo da criança.
Na rua de casa
O que tornou o drama ainda mais devastador foi o fato de que, enquanto toda a comunidade procurava por Esther, ela estava ali perto, na mesma rua da casa onde morava — a apenas 77 metros de distância, um minuto de caminhada.
“Essa menina veio pra mim como se fosse uma luz, tanto que o nome dela é Esther — significa estrela. Eu tinha um ciúme muito grande da minha menina. Uma, porque ela era minha primeira menina, o meu primeiro filho de tudo. E porque eu pedi a Deus, pedi a Deus demais, orei: ‘Pai, me conceda o privilégio de ser pai’. Me casei, namorei várias vezes, mas ninguém me deu um filho”, revela Inaldo Santos, emocionado.
O adeus
O sepultamento de Esther, na quarta-feira (22), no cemitério de São Lourenço da Mata, foi marcado por tristeza profunda e comoção coletiva. Centenas de pessoas acompanharam o cortejo. A mãe passou mal. Ao final, balões brancos foram soltos, em silêncio e oração. O pedido coletivo era um só: Justiça.
“Eu trabalho com crianças há 45 anos, com arte circense e festa infantil. Participei de dois aniversários da menininha, colocando os brinquedos”, contou Josué Pereira, o palhaço Pinóquio, com a voz embargada.
“Na festa, a gente deseja muitos anos de vida e, de repente, vê uma vida ser tirada. Não tem mais os anos de vida que nós cantamos nos dois parabéns.” Ele faz uma pausa, o olhar perdido. “Em 53 anos de trabalho, eu nunca pensei em entristecer meu palhaço. Mas ele está triste”, chora Pinóquio, lembrando dos seus 7 netos.
O silêncio no Pixete
No dia seguinte ao sepultamento, o bairro do Pixete estava em silêncio. Apenas uma criança solitária soltava pipa na rua. O campinho vazio, os vizinhos de porta trancada, o lugar onde tudo aconteceu destruído. A casinha branca da família, em luto, permanecia fechada. Na cerca de entrada, ainda se viam duas peças de roupa de Esther, balançando ao vento.
Fernanda Pereira, a mãe, tenta se reerguer em meio ao abismo da perda. Arrasta uma dor que não tem nome, marcada pela ausência e pela brutalidade da separação. Foi buscar amparo na casa da família.
“Não consigo ficar na minha casa. Para chegar lá, preciso passar por onde tudo aconteceu. É muita dor, muita dor. Eu quero a minha filha”, disse, chorando.
O filho que estava com Esther no campo também carrega as marcas da tragédia. Fernanda conta que ele vai precisar de acompanhamento psicológico — tem repetido que a culpa é dele, não quer comer direito nem brincar. A avó tenta amparar o menino e ensinar a transformar a saudade em lembrança.
“À noite, você olha pro céu. Quando ver uma estrelinha brilhando é sua irmãzinha”. Que a Justiça seja feita.