Editorial | Notícia

Abuso do "pacote de bondades"

Assim como o governo federal anterior, que também postulava à reeleição, o atual governo se excede em medidas populistas durante a campanha

Por JC Publicado em 20/10/2026 às 0:00

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Depois do pior debate entre candidatos a presidente da República no Brasil, exemplo prático de como se portar mal e desvalorizar a democracia, as análises sobre os desempenhos de cada um em exibição vexatória para seus partidos, e deprimente para o eleitorado, dividem espaço com notícias planejadas para causar impactos a poucos dias do segundo turno. O que configurou triste rotina na campanha esvaziada de propostas e recheada de denúncias e processos judiciais, vem sendo a geração de factoides projetados para o compartilhamento massivo, que podem ser divididos em dois pacotes: o de maldades e o de bondades.
Os mananciais de acusações, como fomos forçados a assistir no debate realizado no último domingo pela Band, parecem intermináveis – deixando aos cidadãos a inglória sensação de que ambos levam algum nível de razão. Mas apenas o governo que busca a reeleição detém a capacidade para imaginar, encaixotar e embalar para presente um pacote robusto de bondades, oferecendo à população pretensos motivos para pensar na continuidade da gestão da máquina pública por uma liderança tão benevolente.
O expediente, claro, não é novo. Nem exclusivo de um partido ou corrente política. Até os que se apresentam radicalmente opostos costumam se aproximar na concepção e entrega dos pacotes de bondades. O importante é lançar a isca do agrado para tentar fisgar a intenção de voto – o que nem sempre é garantido. Com o então presidente Jair Bolsonaro, em 2022, não funcionou, apesar de decisões temerárias à integridade das contas públicas. No pacote, o pai de Flávio conseguiu no Congresso a permissão para furar o teto de gastos no ano eleitoral, elevou o principal auxílio social e criou outros, para taxistas e caminhoneiros, e cortou impostos para provocar a queda de preços de produtos para os consumidores.
Esta semana, o governo Lula anunciou mais um presente do pacotaço de agrados aos eleitores: a antecipação do pagamento do valor reajustado do Bolsa-Família, que deverá ser efetuado até a próxima quarta, poucos dias antes da decisão eleitoral. A questão não é saber se as medidas, em 2022 ou agora, surgiram e surgem como justas e necessárias, na realidade distorcida pelas desigualdades no país. A questão é aproveitar o momento de uma disputa acirrada pela preferência da maioria dos eleitores, como oportunística chance de realizar desejos coletivos que não haviam sido sequer levados em conta quando poderiam – por exemplo, na hora da previsão das despesas orçamentárias.
Fazer graça com o dinheiro do erário – do povo – para projetar atalhos para a manutenção do poder, além dos evidentes custos fiscais que afundam a nação, e não o governo, em uma dívida pública impagável, é algo que escapa à ética da responsabilidade que todo gestor deveria cumprir. Os “pacotes de bondades” são quase sempre bombas-relógio fiscais, e seus promotores sabem disso. Mas preferem ignorar e atropelar o planejamento do orçamento, a contrariar a vontade de esticar o tempo no poder. O abuso desses pacotes, nesta e na última eleição presidencial, requer algum tipo de medida preventiva de contenção, em consonância entre o TSE e o TCU, para que não pareça aos cidadãos que as bondades empacotadas definam um preço para cada votação.

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