Editorial | Notícia

Polos que se aproximam

Em oposição ideológica acirrada, campanhas de Lula e Flávio Bolsonaro vislumbram consensos em temas essenciais para os brasileiros, como a segurança

Por JC Publicado em 13/09/2026 às 0:00

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Nem só de ataques inquietos, acusações repetidas e expectativas sobre os desdobramentos do caso do banco Master no Supremo Tribunal Federal, as campanhas dos candidatos posicionados à frente na disputa pela presidência da República este ano são feitas. É preciso indicar ao eleitorado o que será feito, caso Lula chegue ao quarto mandato, ou Flávio Bolsonaro dê continuidade ao do pai, Jair Bolsonaro, levando a família a ocupar o Planalto pela segunda vez. E quando os radicalismos são deixados de lado, os discursos dos polos opostos precisam se aproximar – ao menos, daquilo que a população brasileira deseja escutar de qualquer candidatura, diante de tantos problemas acumulados na gestão pública do país.
Matéria de capa da edição deste domingo do JC mostra os resultados de pesquisa da Quaest, segundo a qual as diferenças entre lulistas e bolsonaristas podem ser arrefecidas, na abordagem desses problemas. As convergências ganham visibilidade, sobretudo, na principal questão que preocupa os brasileiros: a segurança pública. Para combater a insegurança, a ampla maioria dos eleitores dos dois polos desejam um presidente que seja duro com os crimes de violência. A visão de que esse tipo de demanda seria mais associado aos eleitores da direita bolsonarista é desmentida pela pesquisa.
Por outro lado, sem surpreender tanto num país onde a desigualdade ostenta proporções desafiadoras, o clamor por uma melhor distribuição de renda não está apenas na lista de desejos de quem pretende votar em Lula, mas também, majoritariamente, naqueles cuja intenção de voto vai para Flávio Bolsonaro. Quase três quartos dos bolsonaristas, 74%, defendem mais equilíbrio entre ricos e pobres, em comparação com quase 88% dos eleitores petistas. Por óbvio, as soluções esperadas pelos dois lados podem ser distintas. Mas a mera coincidência de demandas mostra que a nação não se encontra dividida na percepção da realidade.
No eleitorado de um e de outro, a Quaest identifica certa desconfiança com o radicalismo polarizado, que não se transfere para outra candidatura por falta de perfis desvencilhados dos polos, que tragam propostas atrativas o suficiente para quebrar a polarização. O cansaço com o acirramento que se repete parece estar à espera de nomes competitivos, num momento em que os partidos de centro – não do Centrão – perderam protagonismo na cena política nacional.
Em outro dado da pesquisa, a impaciência dirige o foco ao Judiciário, com quase a metade dos lulistas e bolsonaristas em concordância sobre a necessidade de mudanças, mesmo passando “por cima de decisões da Justiça”. Entre o eleitorado que não é nem lulista, nem bolsonarista, a moderação diante dessa postura é predominante. Como um dos dois deve ser o próximo presidente da República, não deixa de ser preocupante saber que um dos pilares da democracia é vilanizado por eleitores dos dois polos. Assim como é triste ver as consequências da deterioração do Judiciário na avaliação da população brasileira.
A aproximação dos polos no eleitorado reflete demandas inescapáveis a quem for eleito. A disputa eleitoral continua polarizada, mas depois da votação, o país será o mesmo, e único, cheio de problemas para se governar.

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