Limites da lei e do respeito
Ataques de cartazes sem autoria contra a governadora mobilizam a solidariedade política em Pernambuco, até de candidatos adversários
Clique aqui e escute a matéria
A utilização de imagens e palavras apelativas em campanhas eleitorais cumpre o roteiro conhecido de atacar candidaturas longe das quatro linhas das regras democráticas. Esse modo de atuação não é novidade no Brasil, e busca gerar antipatia instantânea a alguém, por associações forjadas ou xingamento explícito, na expectativa de que haja identidade no ódio dirigido. Em 2026, é como desejar que as manifestações orquestradas de ódio nas redes sociais sejam compartilhadas na realidade, não através de postagens virtuais, mas pela distribuição de cartazes e panfletos com “denúncias” e acusações desprovidas de fundamento.
Desta vez, a governadora candidata à reeleição foi desrespeitada de modo vil, em imagens e dizeres que, de tão baixo nível, comprometem a civilidade e a tradição da política pernambucana – por mais que os embates eleitorais, historicamente, sejam marcados pela troca de acusações e ofensas. Os limites da legalidade e do respeito à pessoa, independentemente do partido a que pertença, foram notoriamente rompidos neste episódio lamentável em que a morte do marido de Raquel Lyra, em 2022, em plena campanha, é torpemente aproveitada como motivo de material apócrifo em alusão à governadora.
Tão indefensável ato de propaganda, não se sabe ainda da parte de quem, gerou imediata reação dos adversários. Para o ex-prefeito João Campos, principal concorrente de Raquel Lyra, o que aconteceu é “um completo absurdo”. E demonstrou solidariedade: “Eu perdi meu pai durante uma eleição, a candidata Raquel perdeu um marido durante a eleição. E eu não admito nem que a minha família, nem que nenhuma família seja atacada nessa eleição. Isso está fora da política”, comparou. Ivan Moraes segui a mesma linha: “A pessoa ou quadrilha responsável pelos cartazes ofensivos contra a governadora precisa ser identificada e responsabilizada urgentemente. Não se pode compactuar com um absurdo desses. A investigação tem que ser profunda e exemplar. Minha solidariedade a Raquel Lyra”.
Os dois candidatos defendem apuração rápida e profunda, para que os culpados sejam identificados e punidos. A coligação da governadora vai acionar a Polícia Federal, a Polícia Civil e o Ministério Público Eleitoral, com o objetivo de descobrir quem está por trás desse ataque. A Frente Popular de Pernambuco, coligação de João Campos, afirmou que adotará medidas perante a Justiça Eleitoral para pedir a investigação da produção e disseminação de conteúdos apócrifos contra candidaturas. “Não aceitaremos ataques anônimos, crimes contra a honra ou qualquer prática que viole a legislação eleitoral e tente degradar o debate público”, declarou a coligação.
E jamais se tenha visto degradação de tal porte por aqui. A elucidação do crime deve ser prioritária para as autoridades, a fim de rechaçar todo tipo de desconfiança a respeito da origem dos cartazes. A continuidade do mistério pode dar corda à disseminação de mais desinformação, prejudicando os verdadeiros propósitos de uma campanha eleitoral, que são a apresentação e o debate de propostas para a melhoria do bem-estar coletivo. Além da persistência do absurdo que maltrata não somente a figura da candidata à reeleição, mas toda a população pernambucana. E constitui vergonha, certamente, para a política estadual, de qualquer bandeira partidária.