Paternidade presente
Em um país com tantas mães que assumem sozinhas a responsabilidade pelos filhos, a data comemorativa é também um chamado à presença paterna
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Milhões de pessoas no Brasil não têm o nome do pai no registro de nascimento. Apenas no ano de 2023, mais de 170 mil bebês foram registrados exclusivamente pelas mães. De janeiro de 2016 a julho de 2024, a soma passa de 1,2 milhão de crianças sem o nome do pai na certidão de nascimento. A estatística revela a dimensão de uma realidade nacional, observada em todas as regiões, em que a maternidade assume a criação, e os genitores fogem como pais ausentes – ou nem pais chegam a ser, por não reconhecerem a paternidade. Com repercussões emocionais, psicológicas, sociais e financeiras sobre a família, a ausência paterna sobrecarrega as mulheres, que precisam recorrer, muitas vezes, aos avós dos filhos, para dividir o cuidado e garantir o direito infantil ao afeto e à atenção.
Num quadro social dominado pela desigualdade, parcela considerável dessas mães solo e dos pais que não se sentem responsáveis pelos filhos e filhas, são ainda bastante jovens, muitos, adolescentes. A sobreposição de ausências – na educação, orientação, estrutura familiar, e até nas políticas públicas – fazem da ausência paterna, também, consequência, além de causa de prolongados problemas. Para que mudanças efetivas ocorram para evitar a perpetuação daquilo que já é perpetuado há tantos anos no país, uma série de presenças se faz necessária, para que haja mais pais presentes desde o papel que traduz a vida concebida em existência formalizada, papel que é prova reconhecida e conquista da cidadania.
E depois de serem pais oficialmente, o desafio dos homens brasileiros e serem pais de fato. A cultura contemporânea e relativamente recentes legislações contribuem para que a paternidade seja mais plena. O compartilhamento da parentalidade – que pode reunir formações diversas de afetividade – continua sendo essencial para o desenvolvimento de crianças e adolescentes. A criação em um ambiente de convivência harmoniosa é reverberada e, não raro, mimetizada na vida adulta, assim como os traumas de infâncias e adolescências em formação turbulenta.
Em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, a neurologista Darby Saxbe, autora de “Cérebro do Pai: A nova ciência da paternidade e as mudanças na vida do homem”, recorda que “o envolvimento dos homens no cuidado infantil diário e prático aumentou dramaticamente na segunda metade do século passado” com o ingresso maciço das mulheres no mercado de trabalho. Do ponto de vista do cérebro, as transformações não se dão pelo fato de alguém ser pai biológico, mas participar ativamente da criação dos filhos. Tais transformações são importantes, e “a paternidade pode ser benéfica para a saúde mental dos homens. Os homens também podem ganhar um senso maior de propósito e conexão. E tudo isso é protetor para a saúde mental”, segundo a neurologista.
Entre as noções em transição, está a de masculinidade, que incorpora o foco no cuidado que, no viés machista tradicional, cabe exclusivamente às mulheres. “Um homem pode ter muito poder e trazer muito valor para o mundo por meio do seu papel paterno”, diz ela. “Quando os pais estão envolvidos no cuidado, isso beneficia as crianças, pode beneficiar as mães, e também pode ser benéfico para os próprios homens”.