Editorial JC: Continente em risco
Medidas autoritárias e postura de autocrata de Donald Trump, dentro e fora dos Estados Unidos, podem afetar a democracia latino-americana
Clique aqui e escute a matéria
Há uma ameaça política que se espalha na América Latina, e já provoca mudanças para pior nas bases institucionais e no respeito aos direitos humanos em alguns países, de acordo com a organização Human Rights Watch. A caça explícita e ilegal do governo dos Estados Unidos a supostos traficantes em embarcações no mar da região do Caribe, que resultou na morte violenta – no assassinato – de mais de uma centena de pessoas, sem identificação, investigação ou julgamento, vem incentivando atos autoritários em países latino-americanos.
Como se um respaldo não dito acobertasse o ímpeto de totalitarismos velados, a partir da prática que une perseguições, invasão além das fronteiras e menosprezo ao direito internacional, tendo o presidente Donald Trump como mentor e mandante, sem nenhum constrangimento ou temor das consequências.
Se já existiam violações graves em Cuba, na Nicarágua e na Venezuela, os abusos da Casa Branca na região ampliam os riscos de disseminação autoritária, de acordo com a diretora da entidade, Juanita Goebertus. Na apresentação do relatório da Human Rights Watch, ela apontou que o fato de a Costa Rica e o Panamá aceitarem deter estrangeiros deportados pelos EUA é um sintoma da deterioração democrática nos dois países.
A “influência indiscutivelmente negativa” do governo Trump e suas políticas anti-migratórias, incluindo o corte no financiamento de organismos globais de apoio aos direitos humanos, tem impactos graves na América Latina e no Caribe, segundo a diretora.
No Equador, no Peru e em El Salvador, organizações de direitos humanos foram fechadas, ou tiveram o financiamento reduzido ou cortado pelos governos, nos últimos meses, num efeito provável das decisões semelhantes de Trump. Ao mesmo tempo, igualmente em reflexo do que se passa com os estadunidenses, o aumento da violência policial é acompanhado, em países do continente, pelo aumento das violações aos direitos humanos.
Prisões arbitrárias, torturas e desaparecimento de pessoas estão entre os crimes de poder que crescem na região, impulsionados pela sensação de cobertura de uma das maiores potências econômicas e bélicas do planeta. O continente latino-americano está mais vil e menos democrático, pouco mais de um ano depois da volta de Donald Trump à Casa Branca.
A reação oficial dos governos da Argentina, Equador, Panamá, Paraguai e Chile, em favor do ataque para a captura de Nicolás Maduro, ditador da Venezuela, pelos EUA, mostra um grau de adesão automática preocupante, que corrobora o tom do relatório da entidade global de direitos humanos. A violência se destaca como modo operante de um presidente eleito democraticamente.
Ocupando o cargo que Trump ocupa, a política da violência e da intolerância, não apenas mas sobretudo contra imigrantes, dissemina a mensagem de endurecimento dos regimes à margem da legalidade constitucional dos países e do ambiente internacional. A vulnerabilidade latino-americana pode ser alvo de Trump, que já demonstrou interesse na ampliação da influência para afirmar o seu poder para além dos limites democráticos – e a conquista de aliados no continente pode, sim, enfraquecer a democracia onde essa influência for exercida.