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Carlos Braga: A Urgência da Fome e a Matemática da Vontade Política

Ao observar a trajetória histórica das cozinhas comunitárias no estado, percebe-se um longo período marcado por avanços tímidos e ritmo incompatível

Por CARLOS BRAGA Publicado em 05/02/2026 às 6:00

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No complexo tabuleiro das políticas públicas, há métricas que admitem subjetividade e outras que são implacavelmente exatas. Educação se mede em gerações; infraestrutura, em décadas. Já o combate à fome obedece a um relógio mais cruel e imediato: o do próximo prato de comida. É sob essa lógica que os números da segurança alimentar em Pernambuco precisam ser analisados — não como estatística fria, mas como reflexo direto de prioridades políticas.

Ao observar a trajetória histórica das cozinhas comunitárias no estado, percebe-se um longo período marcado por avanços tímidos e ritmo incompatível com a urgência social. Durante anos, a implantação desses equipamentos ocorreu de forma lenta, quase experimental, como se o enfrentamento à fome ocupasse um lugar periférico na agenda pública. Em ciclos inteiros de governo, contabilizaram-se poucas inaugurações: houve gestões (2007-2010) que entregaram menos de dez cozinhas em quatro anos. Até 2022, Pernambuco somava apenas 55 unidades em funcionamento.

O problema não era apenas quantitativo. Muitas dessas cozinhas operavam sem previsibilidade de repasses e com estrutura fragilizada, o que tornava sua manutenção um desafio para os municípios. Pois, até a gestão anterior, abrir uma cozinha comunitária significava, muitas vezes, assumir um risco financeiro e administrativo, quando deveria representar segurança e parceria federativa.

Esse cenário começa a mudar de forma contundente a partir de 2023. Em três anos e um mês de gestão, o Governo de Pernambuco, sob a liderança da governadora Raquel Lyra, promoveu uma inflexão histórica na política de segurança alimentar. Mais de 200 cozinhas comunitárias foram inauguradas nesse curto intervalo de tempo, fazendo com que o Programa Bom Prato alcançasse 257 unidades em funcionamento, distribuídas por todas as regiões do estado.

Não se trata de um crescimento incremental, mas de uma mudança de escala. A distância entre inaugurar poucas unidades ao longo de um mandato inteiro e entregar mais de duas centenas em pouco mais de três anos revela algo que vai além da capacidade administrativa: evidencia vontade política. A fome deixou de ser tratada como tema secundário para se tornar eixo estruturante da ação governamental.

É possível alegar que contextos econômicos variam, que conjunturas mudam e que desafios se transformam ao longo do tempo. Ainda assim, a fome permanece a mesma em sua essência. O que muda — e os números demonstram isso com clareza — é a forma como o poder público escolhe enfrentá-la. Quando há prioridade, a máquina estatal responde com rapidez, coordenação e presença territorial.

A interiorização das cozinhas comunitárias, fortalecendo a parceria com os municípios e garantindo repasses regulares, rompe com a lógica concentradora e aproxima o Estado de quem mais precisa. Levar comida de verdade à mesa das famílias mais vulneráveis não é apenas política social: é afirmação de dignidade.

Como lembrava Betinho, “quem tem fome, tem pressa”. Durante muito tempo, Pernambuco caminhou lentamente diante dessa urgência. A aceleração recente — sair de dezenas para mais de duzentas cozinhas — estabelece um novo parâmetro. Mais do que um mérito circunstancial de uma gestão, trata-se de um padrão mínimo que a sociedade pernambucana passa a conhecer e, sobretudo, a exigir.

Política se faz com obras. Estadismo, porém, se constrói garantindo que ninguém precise dormir com fome. Nesse ponto, os números falam por si: Pernambuco, finalmente, passou a andar no ritmo da urgência do seu povo.

Carlos Braga, secretário de Assistência Social, Combate à Fome e Políticas sobre Drogas de Pernambuco

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