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Editorial JC: Para além do livre comércio

Perspectivas de crescimento econômico puxado por bons negócios animam os dois lados do Atlântico, visando o comércio equilibrado entre norte e sul

Por JC Publicado em 19/01/2026 às 0:00 | Atualizado em 19/01/2026 às 7:11

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Na edição de 30 de dezembro de 1996 – há quase 30 anos – o Jornal de Brasília publicou artigo em que se lia: “Os países que integram o Mercosul devem também concentrar seus esforços na exploração recíproca de suas dessemelhanças, fundamentando-os na riqueza de nossa diversidade. Hoje, temos consciência de que não trocamos soberania por cooperação, nem renunciamos a nossos interesses em troca de integração. Ao contrário, a cooperação fortaleceu nossa soberania e a integração favoreceu, em face de um mundo cada vez mais globalizado, a defesa de nossos interesses”. O texto era assinado pelo então vice-presidente da República, Marco Maciel.

O arco da diversidade cooperativa, e da integração para o interesse de todas as partes, atravessa o Oceano Atlântico com o histórico acordo, enfim acertado, entre o Mercosul e a União Europeia. Mesmo que haja pela frente um roteiro protocolar a ser cumprido, tem-se por definida a criação de uma zona de livre comércio entre os países dos dois blocos, com efeitos práticos de largo alcance nas economias nacionais, e sobretudo na vida das populações envolvidas.

Depois de 25 anos de conversas, o vai e vem diplomático entrega o consenso possível, fortalecendo os princípios da globalização e do liberalismo, num momento em que ambos são defenestrados pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump – logo lá, naquela se vendia como a pátria da liberdade econômica e da defesa dos direitos dos indivíduos.

A ratificação do acordo se deu no último sábado, em Assunção, no Paraguai. Estavam presentes à solenidade os presidentes do país anfitrião, da Argentina, do Uruguai, da Bolívia e do Panamá, além de Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, e António Costa, presidente do Conselho Europeu. O brasileiro Lula não compareceu, preferindo enviar o ministro das Relações Exteriores para representar o país. Em seu discurso, Ursula von der Leyen fez menção à importância de um comércio justo em lugar de tarifas – uma indireta sugestiva aos tarifaços cada vez mais comuns dos EUA em relação ao mundo.

Quase tudo que as nações do Mercosul exportam para a União Europeia ficará isento de tarifas, ou terá acesso preferencial ao mercado europeu. Estimativa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) do Brasil estima que a participação do nosso país no comércio global pode saltar de 8% para 36%, graças ao acordo com a União Europeia. Em relação ao que importamos da Europa, espera-se uma redução de preços em produtos como vinhos, azeite, chocolate, queijos, e também remédios, veículos e insumos para o agronegócio.

A visão de Marco Maciel para o Mercosul vale para a integração com a União Europeia, quando defendia que “há necessidade de termos em vista, no futuro, além da livre circulação de bens e serviços, um livre intercâmbio de pessoas, experiências e ideias”, pois “as exigências éticas de nossos povos não se esgotam no êxito econômico, mas, ao contrário, transcendem os aspectos materiais para assumirem também uma dimensão moral, intelectual e de bem-estar, representada por direitos e valores prevalecentes de todas as sociedades”.

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